«A tecnologia melhora a criatividade, não a limita»

Em entrevista ao Jornal Têxtil, o designer britânico Richard Quinn explica a importância que atribui aos prémios Queen Elizabeth II Award for British Design e H&M Design Award que já conquistou na sua curta carreira e como encara o negócio da moda.


Com o mestrado concluído em 2016 na Central Saint Martins, a coleção de final de curso de Richard Quimm garantiu-lhe o H&M Design Award 2017: as suas propostas foram um sucesso e esgotaram rapidamente online e nas lojas, em outubro do ano passado, e o prémio de 45 mil libras permitiu cumprir o desejo de criar e equipar um estúdio próprio. O ano passado trouxe ainda o primeiro desfile na Semana de Moda de Londres, em parceria com a Liberty London, e a conceção de vários designs para a Joanne World Tour 2017-2018 de Lady Gaga.

Já este ano mereceu a distinção de receber em fevereiro o recém-lançado Queen Elizabeth II Award for British Design, que a própria rainha, que assistiu pela primeira vez a um desfile, lhe entregou na última edição da Semana de Moda de Londres.

Com as cores e estampados ousados no ADN, Richard Quinn não tem medo de arregaçar as mangas, não viesse ele de uma família de habituada a meter mãos à obra – o pai tem um armazém de andaimes num espaço a apenas poucos metros do sítio onde Quinn tem agora o seu estúdio, numa zona iminentemente industrial em Peckham, na parte sul de Londres – e, como tal, foi ele próprio que demonstrou aos jornalistas o processo de estampar diretamente sobre as peças de vestuário, que o Jornal Têxtil acompanhou in loco, numa gama de t-shirts com a inscrição “God save the Quinn”, num jogo com o seu próprio nome.

Sem se deslumbrar com os prémios recebidos nos dois últimos anos, apesar do interesse cada vez maior no seu trabalho por parte da imprensa e dos retalhistas mais reputados – que passaram de 15 para 45 com a coleção para o outono-inverno 2018/2019 –, o jovem designer recusa colocar o lado comercial à frente do lado criativo na sua marca própria, mas tal não significa que o negócio esteja fora da sua mente. Pelo contrário, como explicou ao Jornal Têxtil em Londres, o seu estúdio não é apenas um espaço para desenhar e programar as próximas coleções: é uma verdadeira empresa onde, graças à tecnologia de que dispõe, tem a capacidade de controlar dentro de portas a produção das suas criações – tanto de vestuário como de projetos de interiores que lhe têm sido encomendados – e, por isso, responder com prazos de entrega muito curtos, mas também capitalizar os recursos e trabalhar para marcas reputadas, como a Burberry, JW Anderson e Ports 1961. Ao mesmo tempo, há um lado mais colaborativo em que jovens designers emergentes podem usar as instalações e as máquinas enquanto dão os primeiros passos no mercado da moda, um mundo que Richard Quinn está a conquistar de coleção para coleção.

Quando começou a parceria com a Epson?

Comecei a usar a tecnologia da Epson durante o meu curso na Central Saint Martins e achei a tecnologia fantástica em termos de cor, profundidade, facilidade de utilização. Quando conclui o curso queria continuar a usar esta tecnologia, por isso abordei-os e mostrei-lhes o que tinha feito com ela. Foi uma progressão natural.

Como conjuga criatividade com tecnologia?

Do meu ponto de vista, a tecnologia realça a criatividade, porque podemos fazer tudo, das amostras para o desfile à produção, e trabalhar tudo ao mesmo tempo. A tecnologia melhora a criatividade, não a limita.

O seu estúdio está equipado com a SureColor F9200 e a SureColor S80600. Para si, enquanto designer, que vantagens reconhece a estas soluções tecnológicas?

Permite reagir ao mercado muito mais rapidamente, sobretudo quando temos vendas online, porque podemos oferecer os mesmos estampados, as mesmas peças de vestuário, mas com detalhes diferentes. Por isso, quando, por exemplo, a matchesfashion.com e a Net-a-Porter têm as coleções online, são ligeiramente diferentes, para não entrarem em concorrência uma com a outra. Isso é muito importante.

Transformou essa capacidade tecnológica num negócio. Em que consiste hoje esse negócio?

Trata-se de um negócio que está dividido em duas áreas: temos a minha linha, com a produção e o desfile e toda a parte de moda, e temos a produção de amostras para desfile para outras empresas, para outros designers e também algumas produções pequenas.

A cor e os estampados são já a sua imagem de marca. O que o levou por tal caminho?

Estudei na Central Saint Martins durante seis anos e sempre estive interessado na cor, na forma, em pegar em algo bastante normal e exagerá-lo, por isso surgiu de forma bastante natural para mim. E sempre gostei de ter algo diferente do que apenas uma versão comercial.

Mas vender é importante para um designer que ousa tanto do ponto de vista criativo?

Claro que sim! Não é um projeto de vaidade, tenho um produto desejável. As próprias peças de desfile são também vendidas. A ideia é fazer algo diferente, ser criativo ao mesmo tempo que comercial.

Venceu o prémio da H&M em 2017, agora foi o primeiro a receber o galardão da Rainha Isabel II. Que valor têm estas distinções?

Estes prémios abriram portas. Por exemplo, o da H&M – porque com os prémios vem dinheiro – permitiu-me investir neste espaço e fazer a minha primeira coleção.

Quando soube que iria receber o prémio da rainha, qual foi o seu primeiro pensamento?

Foi mesmo surreal, não acreditei que ia acontecer até de facto estar a acontecer.

A distinção da H&M causou-lhe igual surpresa?

Fiquei até chocado. Como mostrei o meu projeto do mestrado, não parecia comercial, mas depois fiz e esgotou num dia e meio, por isso penso que as pessoas gostaram.

O que podemos esperar do seu trabalho futuro?

Estampados em pregas, visuais diferentes nos desfiles… Agora estamos a descobrir mais coisas que podemos fazer com a tecnologia e queremos fazê-las maiores e melhores.

Mas quando desenha, pensa mais no espetáculo do desfile ou na venda?

Penso no espetáculo. Acredito que com a criatividade vem as vendas, as pessoas investem em peças criativas. Acho que se pensarmos no que vai vender quando fazemos um desfile não vai funcionar tão bem, é preciso apresentar em grande e depois retroceder daí.

Habitualmente, os estampados estão ligados às coleções estivais. Mas a sua coleção para o outono-inverno 2018/2019 mantém a mesma tónica. Tem preferência por alguma estação?

Ambas têm um lugar. É bom ajustar, para não ter tantos tons claros, como verdes escuros, castanhos,… É agradável fazer uma pausa do muito claro, é bom ter um equilíbrio.

Fala-se muito do renascimento da indústria têxtil no Reino Unido. O seu objetivo é fazer parte deste fenómeno?

Sim. O que eu quero é manter o controlo das nossas produções, estampar tudo no nosso estúdio em Londres, fazer os nossos desfiles na Semana de Moda de Londres, ter tudo feito em Londres e nas nossas fábricas. É o “made in London”.
Definitivamente, manter a produção em Inglaterra é importante, em vez de mandar para o estrangeiro. Não faz sentido para mim.

Controla toda a produção da coleção?

Sim. Todos os tecidos são feitos no nosso estúdio. Não fazemos a tecelagem. Compramos os tecidos a uma empresa inglesa – a Premier Textiles, que tem uma gama extraordinária de substratos têxteis, por isso trabalhamos com eles – e estampamos. A confeção é feita em três fábricas inglesas, com as quais temos parcerias.

Quais são os seus próximos projetos?
Temos um projeto de bolsas com a Liberty London, com estampados customizados nas carteiras, que vai chegar em breve ao mercado. Temos também as coleções para a Debenhams – uma estará à venda em maio, a outra será para a primavera de 2019 –, a instalação interior na Matchesfashion.com em Marylebone e a decoração do Elephant Room, em Tóquio, em abril, fruto da parceria com a Dover Street Market Ginza.

E os próximos desafios tecnológicos que se lhe colocam?

É bom ter um tema, uma visão, uma ideia e depois ver como é que a tecnologia pode fazer. Gostaria de avançar para encontrar uma nova forma de corresponder a estes estampados, uma forma mais interessante. Esse será o próximo desafio.

Quanto às aspirações futuras, passam por uma loja própria?

Sim, claro! Estamos já a vender em todos os grandes armazéns a partir desta estação, mas no longo prazo gostaria muito de ter uma loja.

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