Bangladesh: marcas e nações decididas a agir?

Foto: AFP
Enquanto o balanço é, nesta segunda-feira, de 1.124 mortos, o desabamento de um prédio em Bangladesh, que abrigava confecções, começa a provocar algumas reações. Uma vez que muitas marcas tiveram de reconhecer que produziam no local, de agora em diante, a hora parece ser de posicionamentos e de pressões macroeconômicas.

H&M acaba de anunciar que assinou o Fire and Building Safety Agreement. Um documento iniciado pelas ONG IndustriAll e Uni Global Nation, que até este momento havia sido assinado apenas pelo grupo americano PVH (Tommy Hilfiger, Calvin Klein...) e pela distribuidora alemã Tchibo. A adesão da H&M, uma das três gigantes mundiais de vestuário com a Inditex (Zara) e a Gap Inc, poderia levar outras empresas à assinatura. Pelo menos é o que aguarda Dorothée Kellou, encarregada da missão da ONG Povos Solidários e membro do grupo internacional Ética na Etiqueta.

"Nós precisaríamos ao menos de quatro [marcas, N. do E.] para que o documento entre em vigor", apontou Kellou para o jornal Libération. É o momento, entre outras coisas, de apontar as pequenas medidas tomadas individualmente por algumas marcas. Mesmo que se trate de um canal anônimo para os empregados, anunciado pela Adidas, ou a divulgação de vídeos de prevenção contra incêndio nas fábricas desprovidas de extintores.

Dentre as razões que podem explicar o desinteresse das grandes marcas pelo Fire and Building Safety Agreement figura a composição de um fundo comum, constituído pelos comanditários, para financiar auditorias independentes. Além do mais, ele implica que esses mesmos clientes não poderão mais permitir auditorias financiadas diretamente por eles, das quais consumidores e ONG só vêm os resultados em alguns raros casos.

Sob pressão internacional

Mas se as marcas tardam a reagir diante dos recentes acontecimentos, as classes políticas europeia e americana poderiam muito bem fazê-lo no lugar delas. O Comissário Europeu do Comércio, Karel De Gucht, e a Alta Representante da União Europeia para as Relações Internacionais, Catherine Ashton, atualmente estão preparando um encontro com os varejistas europeus abastecidos por Bangladesh. Em paralelo, a União Europeia ameaça Dacca de privar o país de suas vantagens comércio bilateral com a Europa.

Na verdade, Bangladesh se beneficia do Generalised System of Preferences (GSP) europeu, dispositivo que lhe permite exportar com menos custos para o Velho Mundo. Uma verdadeira ferramenta que Bruxelas gostaria de utilizar com firmeza para levar as autoridades locais a adotarem uma política de urgência para melhorar as condições de trabalho de sua indústria têxtil.

No entanto, a mensagem pretende ser mais clara já que Bangladesh também poderia perder seu acesso preferencial ao mercado americano. Um processo que deve levar vários meses e que vem em seguida ao assassinato de um defensor dos direitos trabalhistas no ano passado em Bangladesh. Ele militava para a instauração de uma política real de segurança nas confecções. Após os recentes acontecimentos, cujas imagens correram o mundo, a decisão de Washington pode ser apressada, segundo a imprensa local.

Quem deve pagar?

Dessa maneira, Bangladesh, segundo produtor mundial de vestuário no mundo, vai ter de dar garantias de seu envolvimento nas próximas semanas. Com certeza, a perda de clientes internacionais pode representar um sério problema à economia nacional, pois o segmento têxtil responde por 80% das exportações, ou seja, 29 bilhões de dólares no ano passado.

De qualquer modo, os dirigentes da indústria têxtil do país parecem que estão entendendo o que está em jogo. "É um momento crucial para nós, declarou à AFP Atiqul Islam, presidente da Bangladesh Garment Manufacturers and Exporters Association. Estamos dando o nosso melhor possível para melhorar as medidas de segurança nas confecções. Esperamos que os nossos clientes fiquem de nosso lado e que nos ajudem a passar pela atual crise. Não é o momento de nos abandonar. Isto pode prejudicar a indústria e muitos trabalhadores perderiam seu emprego".

Um apelo ao apoio demonstrado aos clientes que levanta a questão mais problemática de uma evolução das condições de produção: com quem vai ficar a conta? Com os fabricantes, já limitados pelos cortes de custos, para que continuem a seduzir os clientes? Com as marcas internacionais, desde já tentadas por outros países mais competitivos e menos expostas negativamente na mídia. Com os consumidores americanos e europeus, cujo nível de consumo se encontra agora mesmo mais que moroso? Enquanto se espera por uma resposta, é a classe operária de Bangladesh que pagou um alto preço: 1.124 vidas.

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