China financia revolução industrial na Etiópia

Os empresários chineses chegaram a terras etíopes com o objetivo de instalar fábricas têxteis mais baratas, que aprovisionem a indústria da moda mundial.


As empresas chinesas estão a deslocar a produção crescentemente para a Etiópia, aproveitando o custo mais reduzido da mão-de-obra, mas esta estratégia tem os seus riscos. Numa reportagem alargada, a Bloomberg visitou algumas empresas que estão a produzir têxteis naquele país e encontrou uma realidade em mudança, com trabalhadores mais habituados ao trabalho agrícola e que depois têm dificuldades em adaptar-se. A fábrica da Indochine International em Hawassa é um exemplo desta estratégia, com planos para contratar 20 mil etíopes até 2019, depois de 24 meses de construção.

A vontade de subcontratar dos chineses encaixa bem na política de industrialização do governo da Etiópia. O país, predominantemente agrícola, quer transformar-se numa potência industrial e o têxtil é um dos primeiros sectores a instalar-se na região.

Os etíopes que acabam por trabalhar nas fábricas chinesas são sobretudo mulheres, com salários base de cerca de 25 dólares por mês. São divididas em categorias: as mais qualificadas trabalham nas máquinas de costura e as restantes são colocadas no embalamento ou em serviços de limpeza.

Os produtos são básicos, semelhantes aos que a própria China dominava há alguns anos, mas nos quais está a perder competitividade, face ao aumento de salários. O governo etíope atrai as organizações com incentivos fiscais, promessas de investimento nas infraestruturas e trabalho muito barato. E são os chineses, bem como cidadãos do Sri Lanka, que agora agem como intermediários para colocar a produção de marcas como a Guess, a Levi’s e a H&M, entre outras.

Desde 2014 foram inaugurados quatro megaparques industriais, com donos privados, na Etiópia, que deverá contar com mais oito até 2020.

Benefícios fiscais

Os grupos industriais que se instalam na país estão isentos de impostos nos primeiros cinco anos, assim como de tarifas na importação de bens afetos à produção e materiais de construção. Por sua vez, a Etiópia recebeu, entre 2010 e 2015, 10,7 mil milhões de dólares (8,6 mil milhões de euros) em empréstimos da China, segundo uma iniciativa da Universidade Johns Hopkins que analisa as relações entre chineses e africanos. Muito deste dinheiro está a ser usado em contratos com empresas provenientes da China e que estão a construir estradas, barragens e redes de telecomunicações na Etiópia. Em 2025, o governo etíope acredita que haverá dois milhões de empregos na área da produção industrial.

No entanto, as exigências do trabalho industrial nem sempre estão sintonizadas com os hábitos dos etíopes. Uma antiga supervisora destes trabalhadores contou à Bloomberg que, face à pressão de cumprir metas, os trabalhadores tinham tendência a reduzir a ritmo em vez de aumentar ou então fugiam, descreveu agressões e trabalho em horas extra sem pagamento. Tudo isto leva a que seja complicado atingir os padrões de qualidade.

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