H&M e Asos: dueto sustentável?

A H&M lançou a Conscious Collection em 2011, que apresenta uma seleção de vestuário amigo do planeta devido à utilização de materiais considerados mais “verdes”. Já a resposta da Asos à questão da produção ética é a coleção Made in Kenya, lançada em 2010, que consiste em peças produzidas pela Soko Kenya, unidade fabril fundada para gerar oportunidades de emprego numa região desfavorecida.


Em termos conceptuais – e de branding –, ambas as iniciativas parecem ser positivas. Mas continuam a despertar controvérsia entre os defensores da moda ética, que discordam sobre se as iniciativas serão um contributo real ou simplesmente representam investidas corporativas e apresentam uma imagem ecológica que desconsidera práticas sustentáveis.

Uma questão de escala

Analisar os detalhes é complicado. Por um lado, retalhistas como a H&M estão a trabalhar numa escala tão grande que, mesmo pequenos ajustes à cadeia de aprovisionamento, têm um impacto considerável. De momento, apenas 26% das ofertas da marca sueca são obtidas a partir de materiais ecológicos, de acordo com a assessora criativa da H&M, Ann-Sofie Johansson, em declarações ao portal de moda Fashionista. Mas a escala da H&M é tal que, mesmo com esses 26%, a marca se assume como o maior comprador de algodão orgânico do mundo.

Uma lógica semelhante faz sentido na análise do relacionamento da Asos com a Soko Kenya. A fábrica foi fundada por Jo Maiden numa cidade remota do Quénia para providenciar alternativas de trabalho a uma população muitas vezes forçada a recorrer à prostituição como meio de subsistência. A Soko, que presta serviços sociais como a prevenção do VIH e a alfabetização, além de empregar cerca de 50 pessoas, depende do apoio da Asos para crescer de forma sustentável. Ainda que a fábrica produza também para pequenas marcas, a parceria com a gigante online possibilita uma segurança e estabilidade que as marcas pequenas são incapazes de garantir.

Ambas, H&M e Asos, afirmam ser pioneiras dentro das respetivas coleções eco-éticas. A H&M, por exemplo, começou a usar o liocel na coleção Conscious em 2016 e agora é um dos maiores utilizadores da fibra à escala mundial.

Tanto a H&M como a Asos adotaram um conjunto de outras medidas para diminuir o seu impacto ambiental, como publicar as listas das fábricas envolvidas nas suas cadeias de aprovisionamento, uma ação vista por muitos analistas como um importante passo em prol da transparência e responsabilidade social. A Asos pretende também estabelecer os centros de distribuição cada vez mais próximos dos clientes, a fim de reduzir as emissões de carbono envolvidas no transporte, enquanto a H&M foi elogiada pela Greenpeace pelos seus esforços na redução de produtos químicos.

H&M

Mais e mais roupa

Não obstante, o argumento de que um modelo de negócio de moda rápida é intrinsecamente insustentável persiste.
A H&M revelou em comunicado que produziu uma média de 600 milhões de peças de roupa em 2004. Quando questionado sobre como esse número mudou nos últimos 13 anos, um representante da H&M disse apenas que a marca «não pode dar uma resposta precisa a essa questão» devido ao «modelo em constante mudança dos nossos negócios». Porém, considerando que a H&M abriu as portas da sua milésima loja em 2004 e agora gere uma rede de 4,474 lojas à escala global, é seguro assumir que o número de peças produzidas aumentou exponencialmente. Se a produção de vestuário aumentasse em proporção direta ao número de lojas, isso significaria que a H&M produziria 2,68 mil milhões de roupas em 2017.

Apesar do investimento em unidades de reciclagem nos últimos anos, procurando fechar o ciclo do vestuário, e do facto de reciclar roupas ser melhor do que, simplesmente, enviá-las para aterros sanitários, nada reverte o impacto de produzi-las.

A Asos opera numa escala comparativamente menor, colocando no mercado cerca de 24 milhões de peças por ano. Parceiros investidos no trabalho justo, como a Soko Kenya, produzem uma pequena percentagem desse número, admite a diretora de responsabilidade social da Asos, Louise McCabe.

A cadeia de aprovisionamento

Além disso, ainda que ambas publiquem as listas das fábricas, isso não significa que a sua produção nessas unidades esteja isenta de censura.

Em agosto de 2016, a H&M foi notícia devido a uma fábrica na qual se aprovisiona no Myanmar, onde crianças de 14 anos trabalhavam até 12 horas por dia. A Asos fez manchetes apenas alguns meses depois, quando crianças de 7 e 8 anos que trabalhavam 60 horas por semana foram encontradas na sua cadeia de aprovisionamento.
Em casos como estes, é bem possível que as empresas desconhecessem o que estava a acontecer antes de ter sido descoberto pela imprensa, mas isso faz parte do problema.

Quando confrontada com o argumento de que a moda rápida é um modelo intrinsecamente insustentável, a assessora criativa da H&M respondeu apenas que «não nos consideramos uma empresa de moda rápida».
Já a diretora de responsabilidade social da Asos foi mais direta. «Penso sistematicamente nisso, por isso mesmo é possível ver mudanças dramáticas e de direção na Asos».

Em ultima instância, o facto de H&M e a Asos estarem a fazer algum tipo de esforço continua a diferenciá-las de retalhistas como a Forever 21, que fica aquém da performance dos seus pares em questões ambientais e sociais na produção. Mas há, consideram os analistas, um longo caminho a percorrer.

 

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