Skhincaps trata da beleza

O desenvolvimento de mecanismos de libertação controlada de princípios ativos diferentes é o principal objetivo do projeto Skhincaps, numa investigação internacional coordenada pelo CeNTI que poderá elevar os têxteis de primeira camada a tratamento cosmético.


«O desafio é desenvolver mecanismos de libertação controlada dos princípios ativos diferentes, ou seja, temos cápsulas que não é suposto libertarem os princípios ativos, portanto as no-release, temos cápsulas que libertam os princípios ativos de forma programada, ou seja, quando há uma presença excessiva de um microrganismo, e temos cápsulas que são usadas para os cosméticos, que libertam na presença de um pH específico da pele ou de temperatura, por exemplo», explicou Carla Silva, diretora de I&D no CeNTI e responsável pelo projeto Skhincaps, num artigo publicado na edição de outubro do Jornal Têxtil.

O projeto – que conta com financiamento no âmbito do programa europeu Horizonte 2020 na ordem dos 3,3 milhões de euros e é coordenado pelo CeNTI, em parceria com um conjunto de entidades não só portuguesas, mas também espanholas, alemãs, belgas e finlandesas – tem ainda como característica o desenvolvimento de nanocápsulas tanto para a cosmética como para têxteis de primeira camada.

«Aquele têxtil que está em contacto direto com a pele. As cápsulas que não libertam os princípios ativos estão a ser exploradas concretamente no têxtil usando materiais com mudança de fase, os PCMs, para proporcionar conforto térmico aos utilizadores, ou seja, ao utilizar uma camisola interior, por exemplo, que contém estes PCMs nanoencapsulados, conseguimos controlar a temperatura do utilizador em função da temperatura exterior», afirmou Carla Silva. «Por outro lado, as cápsulas que libertam mediante um determinado estímulo, que pode ser o crescimento excessivo de uma bactéria – quando estamos perante uma infeção, um eczema ou pele atópica que muitas crianças têm, por exemplo – permitem controlar esse crescimento excessivo, isto é, começam a libertar o princípio ativo para inibir o crescimento dessas bactérias», acrescentou.

A inovação no projeto passa ainda pela incorporação apenas de princípios ativos de base natural, «quer as cápsulas, que são de polímeros naturais ou polímeros biodegradáveis, quer os princípios ativos – na questão do controlo antimicrobiano e nos oxidantes estamos a usar óleos essenciais, extraídos de plantas», destacou a investigadora, doutorada em Engenharia Têxtil pela Universidade do Minho. «Por exemplo, na questão do antioxidante e na combinação da cosmética e têxtil, o que estamos a fazer é combinar um cocktail de moléculas que vão potenciar o efeito», apontou.

Vantagens e desafios

As vantagens que advêm do projeto – que começou em outubro de 2015 e se irá prolongar até 2019 – são evidentes, nomeadamente no que diz respeito a evitar a resistência das bactérias aos princípios ativos, uma vez que o mesmo só é libertado no local da proliferação. «Só vamos atuar mesmo se for preciso e, portanto, ajuda a controlar o crescimento excessivo e vai ajudar nas crises das infeções atópicas», sublinhou.

Quanto às preocupações com as nanopartículas, há medidas que estão a ser tomadas. «Trabalhamos sempre em formulação de base aquosa, portanto, este princípio de encapsulamento não usa qualquer solvente orgânico, é uma tecnologia limpa, de muito fácil scale up e, como tal, não temos restrições em termos de saúde do utilizador. Para além disso estamos a utilizar cápsulas grandes – mesmo sendo nano, tentamos trabalhar sempre à volta dos 150 nanómetros porque o que está reportado que pode ter alguns efeitos negativo na vida do utilizador são cápsula abaixo dos 100 nanómetros», especificou.

Os testes de toxicidade estão igualmente em equação. «Estamos a estudar alguma interação das cápsulas com as células dos utilizadores, usamos protótipos de células e usamos células animais. Estamos a fazer também testes de penetração cutânea usando mecanismos específicos, em que utilizamos pele artificial ou pele de porco para testar até que camada penetram. Em suma, estamos a tentar avaliar todos os efeitos nocivos que possam ter para prever e para contornar através da formulação», assegurou Carla Silva, que destacou ainda outro lado disruptivo do projeto. «Com esta tecnologia conseguimos encapsular quase todos os princípios ativos existentes, quer sejam hidrofílicos ou lipofílicos, quer sejam aniónicos ou não iónicos – conseguimos ter uma grande flexibilidade no encapsulamento dos princípios ativos e estamos a trabalhar na modificação também dos polímeros que partilham todos os sistemas de libertação, ou seja, chegamos ao fim e conseguimos ter todas as ferramentas para encapsular outros princípios ativos que possam ser interessantes também para outro tipo de aplicações».

Há, contudo, barreiras a superar. «Na questão dos têxteis temos desafios na ancoragem das cápsulas de forma permanente ao substrato têxtil. Na questão da cosmética temos desafios dos aromas e de incluir as cápsulas sem prejudicar o resto da formulação», revelou a investigadora ao Jornal Têxtil.

Mas as expectativas são elevadas. «O ideal, e o que esperamos, é que quando chegarmos ao fim do projeto já tenhamos alguns protótipos desenvolvidos para ir para o mercado e estamos a prever isso. Conseguirmos chegar ao fim com alguns produtos já completamente estudados e prontos para entrar no mercado seria uma realização muito grande», concluiu Carla Silva.

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