"Precisamos de reindustrializar Portugal", diz José Alberto Robalo da ANIL

"O preço da energia é o maior coveiro da indústria no nosso país", afirma José Alberto Robalo, 63 anos, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Lanifícios (ANIL), em uma entrevista para além de reveladora ao Jornal T.


José Alberto Robalo, 63 anos, presidente da ANIL

 

"Não saímos da cepa torta enquanto chamarem ladrão a um empresário por ganhar dinheiro”, afirma José Alberto Robalo, 63 anos, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Lanifícios (ANIL).

A crise já passou?

Não estou muito certo disso. O nosso principal cliente é a Europa – e a Europa não descola. Vivemos ao sabor dos humores da economia europeia, que ninguém sabe para onde vai. É evidente que estamos melhor do que há cinco anos, mas não vejo motivo para euforias.

Além da incógnita europeia, o que o preocupa mais?

O que se está a passar na Turquia é absolutamente surreal. Os turcos recebem montanhas de dinheiro da União Europeia para ficarem com os refugiados e depois usam-nos como mão-de-obra escrava, que trabalha a troco de uma malga de arroz e um catre para dormir. A Síria tinha uma indústria têxtil e a Turquia está a aproveitar essa mão-de-obra especializada barata para nos fazer concorrência desleal.

O principal problema já não é a concorrência asiática?

Nos lanifícios, os turcos são o nosso maior concorrente. Além das práticas abusivas com os refugiados, beneficiam de um intolerável estatuto de exceção. Exportam para a União Europeia com todas as regalias de um Estado membro, mas para defenderem a sua indústria são livres de imporem barreiras e taxas às importações – e se isso não chegar ainda desvalorizam a lira em 50%…

Como se resolve o assunto?

A União Europeia não pode continuar a fechar os olhos à exploração de mão-de-obra escrava dos refugiados na Turquia. Tem de impor regras. Nenhum acordo comercial se pode esgotar nos quilos por quilos e metros por metros. Tem de haver reciprocidade, e todas as partes se obrigarem a cumprir as mesmas regras laborais, sociais e ambientais.

Acha isso possível?

Tem de ser possível. Não adianta muito nós, os europeus, estarmos muito preocupados com as questões ambientais e cumprirmos regras ecológicas draconianas, se o resto do mundo continuar a poluir alegremente.

Um dos pressupostos da abertura dos mercados europeus foi o de ajudar os países pobres a desenvolverem-se…

Alguma coisa está muito errada nesse pressuposto. Vejamos o caso do Bangladesh. Escancaramos os nossos mercados aos seus produtos para induzir progresso e desenvolvimento. Uma dúzia de anos volvidos, o Bangladesh continua a ser um dos países mais miseráveis do mundo.

A caridade não funciona?

Claro que não. O princípio base tem de ser a reciprocidade. Se eles podem vender livremente na Europa, nós também temos de poder vender nas mesmas condições nos seus mercados. Não podemos pactuar com as práticas protecionistas de países como o Brasil, que recorre a manobras baixas, como a de reter nas alfândegas artigos de alta moda durante três, quatro e cinco meses, sabendo que passado esse tempo os produtos perderam valor e são para deitar fora!

Podia ter sido evitada a hecatombe que dizimou parte do setor de lanifícios?

Da maneira como se fez a abertura aos produtos asiáticos, creio que seria impossível evitar essa hecatombe. Certo que algumas empresas se puseram a jeito, ao não investirem para se manterem tecnologicamente competitivas. Mas a mudança das condições de concorrência no mercado mundial foi tão grande, que a maioria das empresas não podia resistir.

"O que faz falta são boas ideias e a vontade de arranjar soluções".

Não houve tempo para as empresas se prepararem?

Dou-lhe só um exemplo da dimensão do problema. No 1o semestre de 2001, os chineses exportaram 40 milhões de pares de calças para a Europa. Após um ano na OMC, no final do 1o semestre de 2002, venderam 700 milhões de pares de calças para o mercado europeu. Pergunto como é que se pode sobreviver a uma invasão destas proporções?

Houve quem sobrevivesse…

As empresas que resistiram fizeram verdadeiros milagres. Outras, por várias razões, não tiveram essa capacidade. O que eu queria enfatizar, é que a maioria das empresas quebraram não por situações de mercado mas porque foram sujeitas a práticas de concorrência desleal.

Qual é o principal estrangulamento à competitividade dos lanifícios?

O preço da energia é o maior coveiro da indústria no nosso país. Na fatura, o custo efetivo da energia consumida é inferior a um terço da conta final. O resto são impostos e taxas:7% para a RTP e RDP, 3% para harmonização tarifária dos Açores e Madeira, 10% para as autarquias, 30% de taxa de compensação dos operadores, 50% para as renováveis, 7% para a ERSE e Autoridade da Concorrência, 23% de IVA. Um abuso!

Não há volta a dar? 

Tem de haver. Eu não posso chegar junto de um cliente estrangeiro e dizer-lhe que tenho de subir o preço devido ao aumento dos custos energéticos. Se lhe digo isso, ele ri-se de mim, responde-me que o preço do petróleo baixou – e pensa que o estou a enganar, até porque os turcos baixaram os preços.…Infelizmente a nossa indústria não está a aproveitar a baixa do preço do petróleo.

Os apoios do Portugal 2020 não compensam esse custo de contexto?

No 2020 o incentivo é pequeno e obriga quem o recebe a comprometer-se com metas irrealistas – e se não cumprir tem de devolver o dinheiro. Quem é que neste clima de incerteza a nível mundial se pode comprometer a faturar mais 10% no ano que vem? Além de que não faz o mínimo sentido vedar o acesso ao programa a grandes empresas como a Paulo Oliveira.

Não havia o risco das grandes empresas esgotarem o dinheiro disponível?

Isso resolvia-se estabelecendo uma quota máxima de fundos para grandes empresas. Além de que o que nós por cá consideramos grandes empresas, não passam de empresas médias a nível internacional…

O que é que nos faz falta?

Precisamos, como de pão para a boca, de reindustrializar o país. Há 20 anos que não investimos a sério na indústria. Precisamos de um novo PEDIP.

Há dinheiro para isso?

Não precisamos que nos dêem dinheiro. Basta porem a energia ao preço justo, para as empresas libertarem o dinheiro necessário para investir. Andam a dar energia aos espanhóis à noite, quando o que devia fazer era vendê-la às empresas a um preço competitivo.

O que falta não é o dinheiro, mas sim políticas?

O que faz falta são boas ideias e a vontade de arranjar soluções. Baixar o IRC de 25% para 18% só é bom para os grandes grupos distribuírem dividendos. A boa solução era uma taxa de IRC muito baixa para as empresas que reinvestissem integralmente os resultados e se recapitalizassem.

Já se começa a fazer sentir a falta de quadros e de mão-de-obra qualificada?

A têxtil foi muito maltratada. Os governantes diziam que era para acabar. E sempre que fechava uma fábrica apareciam logo as televisões todas. O resultado foi que aos olhos dos jovens a ITV deixou de ser considerada um setor de futuro. A falta de engenheiros têxteis e pessoal especializado é o preço que estamos a pagar por essa campanha.

É dramático?

Com o mundo em mudança, como está, a formação é essencial para sermos competitivos. A formação e a mentalidade. A ITV precisa de gente de cabeça aberta e sem a mentalidade do patrão/empregado. É preciso exterminar o complexo de esquerda que vê no empresário um explorador e não um agente criador de riqueza. O país não sai da cepa torta enquanto chamarem ladrão a um empresário por ganhar dinheiro.

Estar no interior tem mais vantagens ou inconvenientes?

Não é por acaso que a desindustrialização atingiu mais fortemente o interior do que o litoral. Quer exemplos? O fuel é mais caro, porque pagamos o custo do transporte. Quando avaria uma peça, o mais certo é termos de a ir buscar ao Porto ou a Lisboa – pois hoje em dia ninguém quer ter stocks, que são caros – o que implica ter a máquina parada um dia, além de suportarmos os custos extra dos transportes.

O que diz das 164 medidas do Governo para valorizar o Interior?

Reconheço a bondade de muitas delas, mas tenho de dizer que não me entusiasmam. A tendência para desertificação só é invertida e o interior só sai do marasmo se tiver uma economia pujante. Trazer serviços e pagar mais aos médicos para virem para cá não produz o crescimento económico indispensável à criação sustentável de emprego.

Então o que é preciso?

Não mudar a legislação com tanta facilidade, por exemplo. Uma multinacional têxtil estava a encarar investir cá, mas acabou por ir para a Polónia, devido à instabilidade legislativa que reina em Portugal. Nos últimos seis anos mexemos nove vezes nas leis laborais. As empresas querem reduzir ao mínimo as variáveis – já lhes basta os imponderáveis decorrentes de uma conjuntura internacional volátil.

A proximidade da matéria prima não é uma vantagem?

Já não é. Portugal produz anualmente oito mil toneladas de lã, mas no geral é de má qualidade, quase ninguém a quer. Só é boa para malhas exteriores, porque tem nervo e arma melhor a peça. Mas para fatos não serve. Zero.

Não é possível melhorar a qualidade?

No âmbito da ANIL fiz um projeto para recuperar a qualidade da nossa lã. A raça das nossas ovelhas é merino, a mesma raça das australianas. Só que eles apuraram a raça e nós deixamo-la degradar, fundamentalmente devido à política salazarista da agricultura de subsistência, em que a ovelha dava uma lãzinha, um queijo e no final ainda se comia. Ora tirar o leite à ovelha equivale a tirar-lhe proteína e a prejudicar a qualidade da lã.

Como é que ANIL se propunha apurar a raça ovelha merino da Beira Baixa?

Era um projeto ambicioso e de interesse nacional. Numa quinta da Beira Baixa desenvolvia-se um núcleo reprodutor de ovelhas, que depois eram postas em rebanhos no Alentejo de agricultores com quem estabelecíamos um contrato. Contra a garantia do cumprimento de boas práticas, garantíamos a compra da lã a um preço pré-estabelecido. É o modelo de negócio australiano.

O que falhou?

Precisávamos nesta região de uma quinta de alguma dimensão para desenvolver o núcleo reprodutor. A única disponível era de uma autarquia que preferiu retalhá-la para fins eleitoralistas, a alugá-la a nós e assim a ajudar a pôr de pé um projeto de aproveitamento e valorização de uma matéria-prima autóctone.

Ganância?

Pior que isso. Vistas curtas, pois, além de ir ser a maior empresa desse concelho, tratava-se de um investimento estratégico para um país como o nosso que tem poucas matérias-primas para abastecer a sua indústria transformadora. O turismo está a correr muito bem, mas é um setor muito volátil. Quem pensa que vai continuar a crescer sempre a este ritmo está muito enganado.

Que balanço faz de um ano de Governo Costa? 

Há coisas positivas como tentativa de reanimar o mercado interno pondo mais dinheiro no bolso das pessoas através de um desagravamento fiscal. E registo com muito agrado a proposta do PCP de acabar com o Pagamento Especial por Conta. Mas o Governo também tomou medidas muito demagógicas como a redução para 35 horas do horário numa Função Pública pouco eficiente, cara e com uma dimensão exagerada.

O pior foram as 35 horas?

O pior é a incapacidade para acabar com o forrobodó na energia, parece que toda a  gente tem medo de enfrentar a EDP. Não é aceitável que tenham de ser os contribuintes a pagar os maus negócios dos outros. O pior é isso e a ditadura fiscal de uma administração pública que põe e dispõe, nos obriga a pagar primeiro e contestar depois. As empresas não podem continuar a ser a Santa Casa da Misericórdia do Orçamento.

O custo da energia e a ditadura fiscal são os grandes nós…

… e a ausência de medidas de fomento à economia. Sabe qual é a estratégia do Governo para o país? Não sabe, pois não? Não é boa, nem é má. Simplesmente não existe.

O que espera de 2017?

A continuação de incerteza, com a Europa num impasse político agravado pela eleição de Trump. A UE tem de pôr termo a situações em que uns são mais iguais que outros, em que, por exemplo, a França não tem de cumprir a regra do défice. A globalização é uma coisa muito bonita mas tem de haver regras iguais para todos – não é tolerável que quem as cumpra saia altamente penalizado.

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