A reinvenção do quimono

Fonte de inspiração estação após estação, há muito que os quimonos galgaram as fronteiras nipónicas. Ainda assim, no Japão, o futuro dessa herança está garantido por uma nova vaga de artesãos e empreendedores.


Numa empresa centenária em Tóquio, o artesão Yuichi Hirose continua a recorrer a técnicas tradicionais para desenvolver os icónicos padrões dos quimonos.

A procura da peça elaborada, elegante e central do guarda-roupa nipónico está em declínio, apenas mantida graças a um grupo reduzido de artesãos e empreendedores como Hirose.

«O quimono está muito afastado daquilo que é a nossa vida quotidiana», afirma o artesão, que ingressou nas fileiras do negócio familiar depois de terminar a universidade, à agência noticiosa AFP.

Yuichi Hirose especializou-se na técnica Edo Komon – padrões tingidos à mão –, que remonta ao século XVII e finais do século XIX, mas que o artesão atualizou através dos motivos, que hoje incluem tubarões e até caveiras.

Fator preço

Outrora peça básica do guarda-roupa japonês, hoje, a utilização do quimono está circunscrita a ocasiões especiais, como casamentos, sendo usado sobretudo por mulheres com elevado poder de compra.

A indústria moderna do quimono atingiu o pico em 1975, altura em que o mercado foi avaliado em 1,8 biliões de ienes (aproximadamente 14 mil milhões de euros), segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do país.

Porém, em 2008, desacelerou para os 406,5 mil milhões de ienes e, em 2016, para apenas 278,5 mil milhões de ienes, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo Yano Research Institute.

«Há muitos obstáculos» para comprar um quimono, reconhece Takatoshi Yajima, vice-presidente da Associação de Promoção do Quimono do Japão e especialista na produção da peça.

«É caro, difícil de usar, muito delicado para lavar em casa. Precisamos de fazer quimonos que sejam acessíveis e vestíveis. Se fizermos isso, acredito que cada vez mais consumidores jovens vão estar dispostos a comprar quimonos», assegura.

Takatoshi Yajima quase duplicou o número de clientes nos últimos 15 anos vendendo quimonos abaixo do patamar dos 100.000 ienes.

«A indústria tende a crescer se pudermos fomentar um mercado no qual o maior número possível de pessoas possa comprar um quimono», explica.

Fator modernidade

Um quimono completo começa com a peça de primeira camada, conhecida como nagajuban, sobre a qual o quimono é depois colocado em camadas, apertando com um cinto e uma corda grossa. O coordenado fica completo com as tabi, meias brancas até ao tornozelo divididas entre os dedos para permitir que os pés deslizem nas sandálias de sola grossa, as zori.

Além da estrutura de base, o designer Jotaro Saito defende que deve haver espaço para a experimentação – e atualização – do quimono.

«Está errado que os quimonos não mudem quando tudo está a mudar», defende o designer de Quioto, que já vestiu a cantora norte-americana Lady Gaga.

Na semana de moda de Tóquio, em março último, Saito mostrou em passerelle quimonos para homens e mulheres que cruzavam os motivos e as cores tradicionais com os não-convencionais.

Embora a procura de quimonos esteja em declínio entre os japoneses, os serviços de aluguer para estrangeiros estão em progressão. Espera-se que a tendência cresça, com cada vez mais turistas a visitar o Japão em busca de experiências culturais.

Na sua loja de aluguer de quimonos na área de Harajuku, em Tóquio, Kahori Ochi atende cerca de 500 turistas por ano. Estes pagam cerca de 9.000 ienes para vestir um quimono no valor de cerca de 300.000 ienes.

«O quimono é parte da cultura japonesa», sublinha Ruby Francisco, turista holandesa que alugou um quimono na loja de Ochi. «É especial. É uma honra usá-lo», admite.

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