A união faz a força da moda lusa em Paris

É um momento novo para a moda portuguesa. A Semana de Moda Masculina de Paris foi invadida pelo vestuário, calçado, joalharia e lifestyle “made in Portugal”. Da apresentação de Hugo Costa ao Showcase ModaPortugal, a moda nacional tomou de assalto Paris.


A união faz a força da moda lusa em Paris - Jornal T

Depois da exaltação do mundo da portugalidade em 2017, a moda nacional voltou a mostrar-se na capital francesa, em plena Semana de Moda Masculina de Paris. No fim de tarde de ontem falou-se de moda em português, à conta de duas iniciativas que celebraram o que de melhor se faz por terras lusas em termos de design.
Nomes emergentes e reconhecidos do universo do vestuário, calçado, joalharia e lifestyle marcam presença no Showcase ModaPortugal e têm espaço próprio, até quinta-feira, 20 de junho, no Marais. Simultaneamente, o criador Hugo Costa regressou à capital francesa, no calendário oficial de apresentações, para revelar a coleção Haenyeo, pensada para a primavera-verão 2020.

Até à Coreia do Sul com Hugo Costa

O périplo pelo universo do design nacional iniciou-se na Rue Notre Dame de Nazareth, com Hugo Costa a convidar a uma viagem até à Coreia do Sul, numa iniciativa promovida pelo Portugal Fashion. Foram «umas senhoras muito corajosas, brutalmente inspiradoras, que subvertem os papeis pré-historicamente definidos, segundo os quais o homem é responsável pela procura do mantimento», que inspiraram o criador, explicou ao Portugal Têxtil. «As senhoras são mergulhadoras e vão buscar elas próprias o mantimento para as famílias. Como não querem perder a sua feminilidade, colocam umas blusas e uns tops por cima dos fatos», acrescentou.

Haenyeo é, por isso, uma coleção masculina que tem como principal inspiração um tema feminino. «Sempre brinquei com os géneros, mas, desta vez, quis ir mais longe. Usámos elementos, como as redes 3D, que nunca tínhamos usado. Era o momento de subir a fasquia. Eu sinto que esta é a nossa melhor coleção», afirmou.
Num cenário de inspiração marítima, foram apresentados 16 coordenados, que iam sendo vestidos alternadamente pelos oito modelos. «O Hugo Costa é um filho do Bloom, a nossa plataforma de jovens criadores, tem vindo a internacionalizar-se através de Paris e conquistou este seu espaço. Este evento alavanca a sua marca e a vida dele enquanto empreendedor», destacou Mónica Neto, project leader do Portugal Fashion.

Na movida parisiense

Logo de seguida, as atenções voltaram-se para o número 18 da Rue du Bourg Tibourg, onde se apresentavam cerca de 30 marcas portuguesas, no Showcase ModaPortugal, uma iniciativa promovida pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil, juntamente com a ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção, tendo ainda a colaboração da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, ModaLisboa e Portugal Fashion.

Com a curadoria de Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa, o espaço promoveu Portugal e as suas marcas, utilizando elementos como a palha. «É uma coisa nossa. A palha das nossas cestas é um material nosso. É sempre uma preocupação refletir o lado português sem ser de uma maneira óbvia», esclareceu Eduarda Abbondanza ao Portugal Têxtil. Com a banda sonora a cargo do português Fred (elemento dos Orelha Negra), o evento tem como objetivo que «a moda portuguesa esteja imiscuída naquilo que é a movida francesa. Toda a gente que entra fica imediatamente rendida», garantiu Eduarda Abbondanza.

Já Luís Hall Figueiredo, administrador do CENIT, sublinhou que «a moda portuguesa tem dado passos gigantescos e não há melhor local para a promover do que a capital da moda: Paris».
Por sua vez, uma das criadoras de moda presente no espaço, Lidija Kolovrat, reconheceu que esta «é uma iniciativa maravilhosa. É importante como ponto de encontro. Acabei de falar com um jornalista de Tóquio. Tudo começa assim». Quanto à coleção que apresenta, a designer revelou que esta se foca «na natureza, pegando em elementos como cogumelos ou peixes, modernizando-os».

Um novo momento

No showcase ModaPortugal estão presentes marcas de vestuário como a Impetus, Baccus, Frenken, Inimigo e Maria by Fifty, assim como os serviços de tailoring da Crialme e da Unilopes. Quanto à moda de autor, além de Hugo Costa e Kolovrat, participam os designares Constança Entrudo, David Catalán, Inês Torcato e Luís Carvalho. «Dividimos por 50% criadores da ModaLisboa e 50% criadores do Portugal Fashion. Decorria uma ação do Portugal Fashion ao mesmo tempo que a nossa e temos que potenciar o pais. Daí a tentativa de trabalharmos todos em conjunto. Um país tão pequeno não se pode comunicar às parcelas. Quanto mais coordenados estivermos, maior o nosso alcance», admitiu a presidente da Associação ModaLisboa.

junção de esforços foi reconhecida pelo Secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias. «Nós fizemos somente a nossa pequena parte, que foi, enquanto governo, ajudar a que se sentassem à mesa e que começassem a trabalhar mais em conjunto. O trabalho essencial é das associações. Isto é novo, é um trabalho de construção que levou à celebração de um entendimento entre a ModaLisboa e o Portugal Fashion, para poderem cooperar em Portugal e também no estrangeiro», declarou. O governante alertou, no entanto, que, «se pararmos aqui não chega. Foram muitos anos de costas voltadas, o que não servia os criadores. Não me importo que haja duas associações, mas tem que haver trabalho em conjunto».

Uma união que, realçou Luís Hall Figueiredo, não foi difícil. «Quando há conjugação de esforços, nada é difícil. Tanto a ModaLisboa como o Portugal Fashion são duas expressões da moda portuguesa, portanto, quando temos de fazer a sua promoção externa, obviamente que têm de estar em sintonia, porque é o interesse de todas as partes», assegurou. Do lado do Portugal Fashion, Mónica Neto acrescentou que o «alinhamento de sinergias entre os vários agentes do sector é muito importante para que o trabalho feito até aqui ganhe escala, porque quando estamos em conjunto conseguimos delinear estratégias ainda maiores».

As várias faces da criatividade nacional

O Showcase ModaPortugal assumiu-se também como plataforma de união entre os vários segmentos da moda, nomeadamente vestuário, calçado, joalharia e lifestyle. «Tudo isso é moda. Sempre que temos oportunidade, juntamos todos os intervenientes do mesmo universo», garantiu Luís Hall Figueiredo.

Do lado dos acessórios e lifestyle marcam presença insígnias como a Vandoma e a Westmister, enquanto do calçado estão a Ambitious, As Portuguesas, a Undandy e a Wolf and Son. A joalharia é representada por marcas como a Joana Santos Jewellery, a Fernando Martins Pereira e a Our Sins.

Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, lembrou que «a moda portuguesa tem uma forte vocação exportadora. A verdade é que individualmente somos pequenos, neste que é um mercado muito exigente, feroz e concorrencial. Se tivermos uma lógica de moda integral, de cabeça aos pés, associando o vestuário, o calçado e a joalharia, todos ganhamos com isso».

Já Sílvia Ramos, do departamento financeiro e internacionalização da AORP, acredita que se trata de uma boa oportunidade para a joalharia se juntar «a marcas que já trabalham há vários anos nestas capitais da moda. Acreditamos que sinergia pode fazer crescer a marca Portugal, que tem crescido bastante em França, um mercado importante para nós».

Com promessa de regresso a Paris já no próximo ano, Luís Hall Figueiredo considera que «as expectativas são que continuemos a crescer e a dar notoriedade à moda portuguesa e ao que se faz no sector, que é um trabalho extraordinário».

 

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