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Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
9 de jun de 2021
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5 Minutos
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Alexander McQueen para outono-inverno 2021: tudo o que reluz é uma anémona

Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
9 de jun de 2021

Para os antigos chineses, egípcios e etruscos, a bela flor da anémona tinha uma reputação quase assassina por ser símbolo de doença e morte. Já na mitologia grega é uma flor dos ventos (em grego, Anemoi) e de consolo, prendendo-se também ao amor entre Afrodite e Adónis. Quando este foi morto, a deusa do amor e da beleza sensual chorou muito e as suas lágrimas transformaram-se em anémonas. Mas, na moda, pelo menos nas mãos de Sarah Burton, diretora criativa da Alexander McQueen, a anémona pode mesmo levar à magia. 


Anémona gigante estilizada, saída dos olhos de uma Afrodite em lágrimas, num look vaporoso da Alexander McQueen - Foto: Paolo Roversi para a Dior


Os antigos gregos acreditavam assim que a bela anémona floresceu pela primeira vez das lágrimas da deusa Afrodite, misturada ao sangue de um javali que esventrou o seu amante Adónis, que era mortal por ser filho de seu avô, rei do Chipre, e da filha princesa que o próprio gerou, mãe de Adónis. O belo príncipe adorava caçar, morrendo no seu melhor pathos, mas traído pela beleza, com a inveja e ciúme que esta carrega. 

A marca com o nome do estilista britânico Alexander McQueen – que como Adónis faleceu jovem, aos 41 anos – apresenta uma nova coleção, idealizada por Sarah Burton, com reprodução de imagens das brilhantes flores lobadas, filhas do vento, que vivem pouco tempo depois de florescerem, sendo também símbolo de abandono no significado das flores.

Tudo isto faz sentido nesta coleção da Alexander McQueen, para o próximo outono-inverno, como resultado da inspiração da flor em si e também da significância que esta transporta; até como eventual referência à vida e morte do designer que a fundou em 1992, na medida em que se relacionam com a lenda e, simbolicamente, com a coragem e glamour que imprimem nos humanos um estado divino.
 
A ideia iconoclasta de Burton foi recolher imagens das flores e reproduzi-las; antes de destruir e fotocopiar novamente os resultados da sua investigação. E antes de se debruçar na engenharia dos vestidos dramáticos. Todos os 16 looks foram capturados num estúdio parisiense, para o lookbook, pelo mestre fotógrafo italiano Paolo Roversi, como uma grande série que parecia tocar a visão vitoriana em relação às anémonas, expressão de amor renunciado ou abandonado.
 
Tal como na sua coleção pré-outonal, Burton optou por tecido poli faille 100% reciclado e sustentável, ideal para esculpir formas semelhantes a pétalas nos vestidos de saia rodada; cinturas de princesa e vestidos sexy para mulheres maduras como a deusa Afrodite e como a princesa Esmirna (ou Mirra), mãe de Adónis, que os deuses transformaram em árvore. Foi o castigo que teve pela obsessão que nutriu pelo pai, rei do Chipre, cujo fruto da relação incestuosa foi Adónis, que nasceu já no estado da mãe em mulher-árvore.


Look da Alexander McQueen porventura inspirado na mãe de Adónis transformada em árvore quando o deu à luz - Foto: Paolo Roversi para a Dior


"Parece que agora é tempo de curar, de respirar uma nova vida, de explorar ecos do passado para enriquecer o nosso futuro. Mais do que nunca, um sentido de humanidade, da equipa a trabalhar em conjunto com um único objetivo: fazer algo belo, algo significativo, que se sente simultaneamente precioso e importante. Olhámos para a água, para as suas propriedades curativas, e para as anémonas. As anémonas são as flores mais efémeras, aqui eternizadas em tecido", explicou Sarah Burton, diretora criativa de longa data da maison, na qual ingressou mal se formou, em 1997, inicialmente como assistente pessoal do designer Alexander McQueen.
 
Por todo o lado, as estampas florais estilizadas conseguiram manter a sua aparência frágil, mas afirmando-se simultaneamente poderosas, nas imagens impressas nos vestidos de poli faille preto, por vezes combinadas com as de perfectos de couro preto, que apresentam decotes abertos até aos ombros.
 
A designer inglesa moldou também o poli faille em vestidos de malha, malha e mais malha; onde os múltiplos fechos verticais imitam a forma das hastes e das flores a desabrocharem. Uma coleção revelada num zoom privado, na terça-feira (8 de junho), em direto para o site FashionNetwork.com; e a partir da loja da maison na Bond Street em Londres, onde um sumptuoso vestido de anémonas já se encontrava em exposição na montra da boutique. Embora a coleção não comece oficialmente a ser vendida a retalho, antes de agosto.
 
Trata-se de uma seleção que incluiu alfaiataria estruturada, onde casacos finos cortados nas costas e atados com fitas ao estilo de espartilho, se vestem por cima de calças largas. O vestido rodado de poli faille num cor-de-rosa coral perfeito distingue-se ainda pela sua cor, dado o material ser reciclado.


Look da Alexander McQueen,fazendo lembrar Perséfone, a deusa do submundo, que também se apaixonou por Adónis, levando-o à morte - Foto: Paolo Roversi para a Dior


Casacos em forma de casulo e gabardinas, integrados numa "alta costura diária", sendo ostentados juntamente com saias de machos com bolsos, ou vestidos cocktail de poli faille sustentável em tons de azul água. Uma grande saia larga com padrão de pétalas gigantes, também foi colocada no chão, exibindo a enorme flor de 1,5 m de diâmetro. Tudo misturado com casacos de ganga e feltro denso, e com casacos cortados em estilo couture com detalhes de espartilho e botões militares.
 
Para a noite, Burton criou uma série de vestidos brancos assombrosos e vestidos cocktail bordados com anémonas metálicas prateadas e lírios. Tudo rematado por botas de pele robustas de sola dupla, complementadas por um novo saco Bundle com correntes, sendo alguns modelos acabados com flores metálicas prateadas.
 
Como resumo do seu sonho materializado na coleção, Sarah Burton acrescentou: "As mulheres com os vestidos de anémonas quase se tornam como flores, ou como a sua encarnação, com o próprio carácter, mas amplificado, fundido, radiante e forte".

Quiçá, fazendo lembrar Perséfone, a deusa do submundo, também considerada deusa da terra e da agricultura, que engendrou a morte de Adónis por também estar apaixonada pelo humano e o querer perto de si.

Todas estas questões simbólicas e heranças históricas pesam cada vez mais na criação artística como na moda, transmitindo mensagens que se eternizam na memória, e que transformam o suposto efémero em arte. Hoje também despertadas pela doença e morte por COVID-19.
 

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