As duas faces da Turquia

À superfície, o otimismo reina na Turquia. O futuro é brilhante para a economia turca, em geral, e para a indústria têxtil, em particular. Mas nem tudo o que parece é e, à lupa, notam-se as preocupações.


A economia turca teve um crescimento superior a 7% no último trimestre de 2017. Segundo o Banco Mundial, as perspetivas para o país são boas, com uma taxa de crescimento esperada de 4,7% para 2018.

Ainda que as exportações da indústria têxtil e vestuário turca tenham registado um modesto crescimento em 2017, nos 2,5% e 3,0%, respetivamente, os empresários do sector preveem que 2018 seja melhor. No ano passado, as exportações de têxteis chegaram aos 10 mil milhões de dólares (aproximadamente 8,4 mil milhões de euros) e as exportações de vestuário alcançaram a meta dos 17 mil milhões de dólares.

Em declarações ao portal just-style.com durante a recente Istanbul Yarn Expo, que decorreu na mesma data e espaço da ITM, Ismaïl Gülle, presidente da Associação de Exportadores Têxteis de Istambul, a ITHIB, revelou que as exportações de têxteis devem crescer em linha com a subida de 1,1% registada no terceiro trimestre de 2017.

Hikmer Tanriverdi, presidente da Associação de Exportadores de Vestuário de Istambul, a IHKIB, prevê um aumento entre 8% e 10% nas exportações de vestuário em 2018. Em janeiro de 2018, as exportações de vestuário bateram as de janeiro de 2017 em 15%.

Depois do automóvel, o vestuário é o produto mais bem-sucedido das exportações turcas – tendo representado, no ano passado, 9,4% do total das exportações turcas. As exportações de vestuário em malha somaram 8,8 mil milhões de dólares (5,6% do total exportado), enquanto as exportações de vestuário em tecido chegaram aos 6 mil milhões (3,8% do total).

Para Stephen Taylor, diretor da Kurt Salmon, os exportadores turcos de vestuário continuam internacionalmente competitivos. «No geral, o custo de produção mais alto na Turquia, se comparado com o Extremo Oriente, pode ser nivelado pelos benefícios encontrados nos prazos de entrega mais curtos e na resposta mais rápida à evolução do mercado», argumenta.

Nurettin Karagöz, porta-voz do centro Giyimkent, em Istambul, acredita que as exportações de vestuário da Turquia, especialmente para os mercados da União Europeia (UE), tendem a crescer porque a subida dos salários dos chineses está a afetar a competitividade da China em termos de preço.

Adil Nalbant, presidente Associação de Industriais Turcos de Máquinas Têxteis, a Temsad, garante que os investimentos na indústria têxtil turca vão acelerar em 2018.

Johan Verstraete, vice-presidente de marketing, vendas e serviços na Picanol, destaca que a empresa teve mais visitantes no primeiro dia da ITM 2018 do que nos quatro dias na edição anterior do evento.

Não obstante, as empresas têxteis turcas não estão apenas a investir na Turquia, mas também além-fronteiras. Segundo a publicação turca Aksesuar Dünyasi, os investimentos efetuados por 10 empresas têxteis turcas na Sérvia já ultrapassaram os 100 milhões de dólares.

A nova visão turca

Recentemente, a administração de Recep Tayyip Erdogan divulgou uma lista de metas para a Turquia, denominada “The 2023 Vision”. Uma dessas metas é alavancar as exportações turcas para os 500 mil milhões de dólares, valor ambicioso considerando que, em 2017, o total das exportações foi de 157,1 mil milhões de dólares.

Contudo, não é apenas a administração turca que acredita em grandes conquistas para o país. Yusuf Gecü, presidente da Associação dos Industriais e Empresários de Merter, a Mesiad, afirma que Merter, área de Istambul conhecida pelo pronto-a-vestir, irá duplicar as exportações dentro de cinco anos.

As preocupações

De acordo com o Banco Mundial, os desafios domésticos e um ambiente geopolítico em deterioração estão a impactar negativamente as exportações, o investimento e o crescimento da Turquia. Cada vez mais cidadãos endinheirados e com formação estão a deixar o país.

Segundo várias fontes, há sinais de que a economia está a fraquejar – alegadamente uma das razões que levaram o presidente Erdogan a convocar eleições antecipadas para 24 de junho.

O Banco Central da Turquia atualizou recentemente a sua estimativa de inflação para o final de 2018, que subiu de 7% para 7,9%. De acordo com a Trading Economics, a taxa de desemprego da Turquia ficou nos 10,3% em outubro de 2017, face aos 8,5% do ano anterior.

Para alguns, até mesmo a indústria exportadora de vestuário turca tem razões para se preocupar. Cerca de 70% das exportações de vestuário da Turquia têm como destino a Alemanha, o Reino Unido e outros países da UE, mas a concorrência dos países de mão-de-obra barata, como o Bangladesh e o Paquistão, está a intensificar-se.

Entretanto, subsistem problemas como a falta de mão-de-obra qualificada, o foco em produtos tradicionais (têxteis-lar e vestuário) e a exploração dos refugiados sírios.

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