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15 de jun. de 2021
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Béhen: pela primeira vez na London Fashion Week evocando amor e mar

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15 de jun. de 2021

Numa ode ao amor e ao mar, Joana Duarte – a jovem designer de moda portuguesa que fundou a marca inclusiva Béhen, que significa irmandade em hindi e que contribui para causas sociais, elevando a consciência de que se pode mudar o mundo – participou segunda-feira (14 de junho), pela primeira vez, na London Fashion Week (LFW). A sua nova coleção foi revelada em formato digital, enaltecendo bordados tradicionais e técnicas ancestrais, à medida que narrava uma lenda de amor que remonta ao século XVI, em Peniche, povoação virada ao horizonte (primitivamente uma ilha) localizada numa zona de escarpas gigantescas sobre o mar dramático.

Béhen 'Love Begets love' in #LondonFashionWeek #LFWClearpay #LFW


Love Begets Love (ou Amor com Amor se Paga) é, assim, o título do vídeo captado em Peniche, pelo jovem realizador Miguel Cassiano, que aborda a temática do trágico amor de Rodrigo e Leonor, que ainda se imagina nas ondas crispadas de Peniche. Trata-se talvez de um pretexto para apresentar a tradição bordadeira ligada simultaneamente ao universo da pesca, agrícola, religioso e nobre que aqui se fundem, através de uma narrativa que promove também a zona cheia de contrastes e ainda preservada de Portugal. 

Sendo que, a oeste do Cabo Carvoeiro (o ponto mais ocidental de Peniche), e avançando seis milhas, se situa o arquipélago das Berlengas, de origem vulcânica, hoje reserva natural onde se encontram espécies raras de flora, aves e peixes. 

A lenda faz-nos compreender melhor o vídeo, a coleção e a mensagem a retirar: dois fidalgos abastados nutriam um ódio recíproco, devido a antigas disputas, e o destino pregou-lhes uma partida, levando Rodrigo – o filho de um deles – a apaixonar-se perdidamente por Leonor, a bela e prendada filha do outro fidalgo. Quando o pai de Rodrigo descobriu o amor proibido enviou o filho para a ilha da Berlenga, obrigando-o a ingressar como noviço no mosteiro dos frades jerónimos que ainda aí existe.

Rodrigo obedeceu ao pai, mas todas as noites – com a ajuda de um pescador amigo de infância – fez-se transportar num pequeno batel até à gruta na orla meridional de Peniche, onde Leonor o aguardava com uma tocha para orientar a embarcação no escuro. As fugas de Leonor acabaram por ser descobertas pelo pai que enviou criados atrás da filha. Saltando de rochedo em rochedo para os despistar, Leonor poisou mal os pés em pedras soltas e acabou por cair do alto de um penedo, afogando-se no mar. 


Look da coleção Love Begets Love da Béhen - Foto: Elisa Azevedo


Quando Rodrigo se aproximou do local do encontro, não vislumbrando o sinal, entrou em pânico, procurando desesperadamente a amada no mar até avistar o seu corpo a boiar envolto num manto branco. Atirou-se do alto da traiçoeira falésia, na esperança de resgatar Leonor e foi levado também pelo negro oceano, que é naquelas paragens muito feroz.

Dois dias depois, o corpo de Leonor foi encontrado na areia e depositado no adro da capela de Santa Ana nas proximidades. Ao que parece o corpo de Rodrigo foi descoberto na costa norte, preso a uma rocha que se passou a chamar Laje de Frei Rodrigo. Como a gruta que foi palco da trágica história de amor, ainda hoje é conhecida pelos locais como Passos de Dona Leonor.

Repleta destes e de outros símbolos, a coleção entrelaça a lenda ao artesanato português, relevando técnicas como o croché, os bordados típicos da Madeira e de Viana do Castelo, os tecidos antigos reciclados – como cortinas, colchas e linho – tanto do arquivo da avó da designer como recolhidos, durante o último ano, em cada região de Portugal, mormente em Peniche. 


Look da coleção Love Begets Love da Béhen - Foto: Elisa Azevedo


Esta nova marca sustentável carrega consigo uma contribuição única na medida em que investiga e trabalha cada enxoval facultado, que por sua vez é enriquecido por mãos e saberes milenares femininos, abarcando todos os estilos, idades e pontos.

Os desenhos de croché foram selecionados a partir de centenas de revistas antigas que as vizinhas da designer lhe facultaram e os padrões concebidos a partir de amostras de croché de preciosos arquivos estudados, como aquele de rendas religiosas encontrado nos Açores.

Os materiais foram oferecidos como presente por parte de uma das melhores fabricantes portuguesas de fios de croché em 100% algodão – a Limol, com sede em Guimarães.

Tons de sol, terra e mar evocam enfim o pequeno país à beira-mar plantado, que desde sempre se abriu a povos de todo o mundo, como a todas as culturas e religiões, que o enriqueceram e que a Béhen faz sempre questão de lembrar e relevar, numa atitude inclusiva. 


Look da coleção Love Begets Love da Béhen - Foto: Elisa Azevedo


Para a Béhen que muito recentemente se juntou à Levi’s para lançar um projeto de up-cycling de denim, e que se mostra em franco crescimento de ideias e de iniciativas, esta coleção é o resultado de ano e meio de trabalho com o pensamento preso a um futuro melhor para todas as artesãs e bordadeiras.

Tal como este conto de amor (entre outros), cujos locais nutrem a preocupação de passar de geração em geração, estas mulheres esforçam-se desde sempre por transmitir o legado, não podendo por isso ser esquecidas.

E, a coleção presta-lhes homenagem.

Porque: promover o savoir-faire português, bem como envolver o maior número possível de mulheres e comunidades diferentes, também tem vindo a ser a missão e a forma da Béhen criar moda com significado e com magia, cobrindo todo o território português numa conquista de (do e/ou pelo) mundo.


Look da coleção Love Begets Love da Béhen - Foto: Elisa Azevedo


De forma criativa e com três modelos apenas, a Béhen marcou mais uma vez a diferença  – logo depois de se ter estreado na Paris Fashion Week  – com um vídeo que emoldura a paisagem insólita da costa de Peniche às Berlengas, onde se escutam cânticos tradicionais como vozes de sereia em terra; onde se recriam gestos de dança que os tantos povos que pisaram este solo injetaram na sensibilidade e sangue portugueses; onde se fazem notar ao pormenor os têxteis do passado que fizeram história e continuam a inspirar e a marcar a moda contemporânea como tendência revivalista renovada; onde se exaltam os cortes e visuais que se reinventam continuamente, perpetuando a rica tradição.

Já na última ModaLisboa (Lisboa Fashion Week), Joana Duarte foi buscar para a coleção a lenda da Lagoa das Sete Cidades da ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores.

É definitivamente um golpe de mestre quiçá para fazer parar, para melhor pensar a coleção e para interiorizar tudo o que a envolve através da magia de contos que abordam os costumes e importância da natureza em nós, evocando e dando a conhecer locais, como as grutas que atravessam toda a ilha da Berlenga que desterrou Rodrigo; e/ou como o maior reservatório natural de água doce de superfície dos Açores, classificado como paisagem protegida. Melhor dizendo: a referida lagoa no topo da caldeira das Sete Cidades, também ligada à lenda da Atlântida.

Parabéns Joana Duarte, parabéns Béhen.
 

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