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20 de set. de 2021
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Calçado português aposta na feira de Milão, mesmo que financeiramente não compense

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Agência LUSA
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20 de set. de 2021

As empresas portuguesas presentes na maior feira de calçado do mundo, que arrancou ontem em Milão, querem aproveitar os “claros sinais de retoma” para reavivarem o negócio, mesmo que o menor número de visitantes “não compense” financeiramente o investimento.



“Objetivamente, financeiramente não compensa [o investimento feito para participar na MICAM, em Itália], mas os clientes têm que sentir esta dinâmica da nossa parte e temos muita vontade de estar com eles de novo”, afirma o sócio-gerente da Cool Gray, uma empresa de Oliveira de Azeméis que “há mais de 15 anos” participa ininterruptamente na feira de Milão.

Segundo Pedro Alves, que expõe na MICAM sob a marca Aerobics, há já “claramente sinais de retoma” do negócio, após o choque da pandemia, mas só “a partir do segundo trimestre de 2022” é que a empresa deverá regressar à “velocidade de cruzeiro”.

Com uma faturação de 5,5 milhões de euros, 53 trabalhadores e 99% da produção para exportação, a Cool Gray perdeu “50% do negócio” em 2020 – 30% das vendas eram de calçado para o setor da aviação, que “praticamente parou durante um ano” - mas fez “um esforço gigantesco para manter a capacidade produtiva intacta”.

“Não houve despedimentos. A nossa preocupação número um foi sempre a prontidão para rearrancar com a retoma. [Atualmente] estamos claramente sobredimensionados, mas vamos precisar dessa capacidade em 2022, para a velocidade de cruzeiro”, diz Pedro Alves.

Para a empresa de Oliveira de Azeméis, os apoios lançados pelo Governo “foram uma ajuda, mas nem de perto chegaram para cobrir os custos” da crise pandémica, sendo agora importante assegurar “que a banca está com as empresas”, quando se aproxima o fim das moratórias.

“É preciso encontrar mecanismos para ajustar o tempo de recuperação dos mercados com as necessidades financeiras das empresas”, sublinha o sócio-gerente.

Também a marca de calçado desportivo Ambitious, da empresa Celita, vê no horizonte “um regresso à quase normalidade”, sendo a participação na 92.ª edição da MICAM – que decorre até terça-feira – já a 15.ª presença em mostras do setor nesta estação.

De acordo com o diretor comercial, Pedro Lopes, a empresa de Guimarães, que emprega 180 trabalhadores, ressentiu-se “um bocadinho” dos efeitos da pandemia, mas “reagiu rápido” através da sua rede de agentes.

Após ter faturado 20 milhões de euros em 2019, a Ambitious registou uma quebra de 12% em 2020 e só em 2022 prevê retomar o volume de negócios pré-pandemia.

Em contraciclo, a True Shoes, marca própria de calçado de conforto da empresa Talismã Secreto, de Santa Maria da Feira, viu a faturação crescer 30% em plena pandemia e prevê terminar 2021 com vendas de 2,5 milhões de euros, o dobro de 2019.

Segundo o fundador e gerente da empresa, Paulo Pereira, a sustentar o crescimento em plena pandemia esteve o sucesso da linha de calçado waterproof (à prova de água), que “funcionou muito bem nos países nórdicos”, mas o mercado de exportação que mais subiu foi a Alemanha, numa lista de clientes que integra ainda países como a França, Itália, Grécia, Espanha e Kuwait.

A True Shoes, que participa na MICAM há já cerca de cinco anos, reconhece que “é quase uma exceção” num cenário de quebra generalizada das vendas, tendo mesmo reforçado os quadros com mais cinco funcionários nos últimos dois anos, para a atual meia centena, sem recorrer a qualquer apoio público no âmbito da pandemia.

E, se muitas das empresas portuguesas que habitualmente participam na feira de Milão optaram por não se fazer representar nas edições de 2020 e 2021 da mostra, dado o menor número de visitantes e a ausência de grande parte dos compradores oriundos de fora da Europa, há também quem aposte em, pela primeira vez, rumar a Itália.

É o caso da marca de calçado clássico Hugo Manuel e da insígnia de carteiras, chinelos e acessórios de moda My Cute Pooch, que se estreiam nesta edição da MICAM.

Inspirada no cão bulldog francês da fundadora e designer da marca, Mara Ferreira, a My Cute Pooch nasceu em abril de 2019 e pertence ao universo da empresa de componentes de calçado Bolflex, com sede em Felgueiras e com 30 anos de atividade.

De acordo com Mara Ferreira, a My Cute Pooch começou por vender online carteiras de senhora, personalizáveis com acessórios (inspirados nas orelhas e focinho do bulldog francês) removíveis que permitem diversas combinações.

A marca, 100% portuguesa, usa peles recicladas e sintéticas e materiais reciclados e evoluiu, entretanto, para uma linha de chinelos e para um segmento premium de carteiras – a linha Preciosa - adornadas com peças banhadas em ouro e feitas à mão, cujo preço de venda ao pública ronda os 1.500 euros.

A presença na MICAM marca a segunda participação da My Cute Pooch em feiras internacionais, numa aposta que já lhe assegurou a entrada em 10 lojas multimarca em Espanha, três em França e duas em Itália, decorrendo atualmente “conversações” com retalhistas do Dubai, Bulgária e Grécia.

Em Portugal, a My Cute Pooch – que no primeiro ano de atividade faturou 200 mil euros e espera atingir um milhão de euros em 2021 – está já presente em lojas multimarca de “quase todas as cidades do Norte” do país, diz a fundadora.

Trinta e quatro empresas portuguesas de calçado participam, de hoje a terça-feira, na maior feira internacional de calçado, num dos “regressos mais esperados” após um ano sem edições presenciais, segundo a associação setorial.

O presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS), Luís Onofre, destaca que “a MICAM é a principal feira do setor e é muito relevante para as empresas nacionais, uma vez que reúne os maiores players do setor a nível mundial”, pelo que “a presença portuguesa na feira “é da maior importância para retomar os negócios”.

A participação nacional na MICAM insere-se na estratégia promocional definida pela APICCAPS e pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), com o apoio do Programa Compete 2020, e visa consolidar a posição relativa do calçado português nos mercados externos, para onde o setor exporta mais de 95% da sua produção.

*** A jornalista viajou a convite da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) ***

PD // PJA (LUSA)

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