×
371
Fashion Jobs
keyboard_arrow_left
keyboard_arrow_right

Calçado português: repensar para triunfar

Publicado em
today 14 de mai de 2019
Tempo de leitura
access_time 7 Minutos
Partilhar
Fazer download
Fazer download do artigo
Imprimir
Clique aqui para imprimir
Text size
aA+ aA-

Tendo, ao longo das últimas décadas, conquistado o seu lugar como produtor de qualidade, num momento em que o retalho enfrenta grandes desafios a fileira portuguesa do calçado adapta-se às tendências e aposta na inovação para manter o crescimento. Exportando atualmente 95% da sua produção, maioritariamente para mercados europeus, nos últimos dois anos o setor tem direcionado as suas atenções para outros continentes, que pretende conquistar tanto como produtor private label como com as suas marcas próprias, cujo número tem vindo a aumentar.


Campanha de promoção Portuguese Shoes 2018, especialmente pensada para o mercado americano


À conquista de novos mercados
 
Produzindo atualmente para marcas de renome como Prada, Chanel, Louis Vuitton, Adidas, Birkenstock, Tommy Hilfiger ou Paul Smith, o setor continua empenhado em aumentar o seu reconhecimento à escala mundial, sobretudo além das fronteiras europeias. Luís Onofre, presidente da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes e Artigos de Pele e Seus Sucedâneos) desde 2017, realça que o grande objetivo atual é “tentar por os sapatos made in Portugal no mapa”, seguindo-se o desejo de que as marcas próprias nacionais ganhem também terreno. No primeiro quesito, a qualidade da produção nacional parece ser cada vez mais incontornável, algo confirmado pelo teste cego que, a cada cinco anos, a APICCAPS encomenda à Universidade Católica e que compara a atratividade do made in Portugal, Itália e China. Se há 20 anos o preço atribuído a um sapato feito em Portugal caía 30% após os consumidores saberem a sua origem e há cinco anos a queda era de 13%, este ano, pela primeira vez, o made in Portugal tornou-se um fator de valorização, com o preço dado pelos consumidores a subir 6% após a origem ser divulgada.

Este reconhecimento reflete-se claramente nos números do setor, que entre 2010 e 2017 viu as suas exportações aumentarem mais de 50%. Atualmente, Portugal exporta a quase totalidade da sua produção de calçado para mais de 150 países. França (que representou 410 milhões de euros em 2017), Alemanha (376 milhões), Holanda (281 milhões), Espanha (174 milhões) e Reino Unido (125 milhões) são os principais destinos, mas agora a indústria quer explorar novos mercados fora da Europa, como os Estados Unidos, o maior importador mundial de calçado. Em 2017, revela o World Footwear Yearbook, publicado pela APICCAPS, os Estados Unidos importaram 2.394 milhões de pares de calçado, quase quatro vezes mais do que a Alemanha (692 milhões), o segundo maior consumidor mundial e o segundo maior mercado do calçado português.


Portugal exporta atualmente 95% da sua produção de calçado, especialmente para mercados europeus - Fotografia: APICCAPS

 
O desafio da tendência desportiva
 
Após, em 2017, ter crescido pelo oitavo ano consecutivo, vendendo 83,3 milhões de pares de calçado, no valor de 1,96 mil milhões de euros, em 2018 o setor registou um recuo de 2,85% em termos de valor, caindo para 1,90 mil milhões de euros apesar de ter exportado 85 milhões de pares (+2,4%). Um retrocesso que, realça Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICAAPS, não afetou apenas o calçado português, verificando-se também em concorrentes como Itália e Espanha, e que poderá estar relacionado nomeadamente com o abrandamento das principais economias mundiais. Também as próprias tendências terão tido o seu impacto, estando nos últimos anos mais orientadas para as opções desportivas, o que afasta os consumidores dos modelos mais clássicos e os atrai para gigantes desportivas como a Nike ou a Adidas.

Luís Onofre, que além de líder da APICCAPS e futuro presidente da Confederação Europeia da Indústria da Calçado (CEC), função que assumirá a 24 de maio, é também designer da sua marca homónima, fundada em 1999, subscreve a preocupação com a tendência dos sneakers. “Não sei exatamente a percentagem que perdemos com esta tendência, mas acredito que nos últimos dois anos tenha sido de aproximadamente 50% em termos mundiais.”
 
Fundada em 1964, a produtora de calçado Dura, cujo negócio de 5,5 milhões de euros resulta sobretudo da exportação de 95% da sua produção, sentiu uma clara mudança nos seus clientes, revela o gestor comercial Agostinho Marques. “No passado éramos mais clássicos, mas agora mudámos um pouco, porque as marcas procuram modelos mais desportivos.” Uma mudança sentida não só nos modelos criados para private label, como também nos da sua marca própria, a Exceed Shoes, fundada em 2010, que agora tem um cariz bastante mais desportivo.


Influenciada pelo atual sucesso dos sneakers, a empresa Dura direcionou os modelos da sua marca própria, a Exceed Shoes, para esta tendência - Fotografia: Exceed Shoes

 
O mesmo acontece com a Carité, que produz 450 pares de calçado por dia, inteiramente destinados à exportação. Com um volume de negócios de 26 milhões de euros e dedicando-se 99% ao private label (o restante da sua faturação fica a cargo das suas três marcas próprias - J.Reinaldo, COM - Creation of Minds e Tentoes), a empresa, que tem na Holanda (para onde exporta cerca de 45% da produção), Alemanha (29%) e Inglaterra (8%) os seus principais mercados, prepara-se diariamente para responder a estas alterações no mercado, explica à FashionNetwork.com Manuela Rodrigues, do departamento comercial, notando: “A nova geração está habituada aos sneakers, por isso se propomos um calçado clássico, este tem que ser igualmente confortável.”
 
Abraçar a sustentabilidade

Para atender às atuais necessidades dos consumidores, as empresas portuguesas ouviram também a solicitação por opções mais sustentáveis e amigas do ambiente. Uma destas empresas é a Bolflex, empresa de Felgueiras cujo volume de negócios ronda os 10 milhões de euros e que produz diariamente 22 mil pares de solas (15 mil em borracha e 7 mil em plástico), 20% dos quais em material reciclado. Atualmente, já várias marcas recorrem à empresa à procura de opções 100% recicladas.  
 
Com 70% da produção destinada ao mercado interno (que acaba frequentemente por ser exportada, por se destinar a fábricas de calçado que exportam o produto final) e exportando diretamente 30% da sua produção, sobretudo para França, Alemanha, Espanha, Inglaterra e Holanda, a Bolflex leva a sério a questão da sustentabilidade: todas as sobras do processo de produção são recicladas, o que leva a que posteriormente seja necessário comprar menos material.
 
Atrair as novas gerações

Além das tendências que afetam o retalho em geral, os atuais desafios do setor prendem-se também com a força de trabalho. Desde 2010, o cluster do calçado (que além das empresas de calçado, inclui ainda as de componentes e artigos de couro) agregou quase 10 mil trabalhadores às suas folhas de pagamento, somando em 2017 45.443 postos de trabalho, 40.080 dos quais no setor do calçado, que tem incontornavelmente o maior peso no cluster. No entanto, considerando a considerável evolução do setor ao longo da última década, o aumento da força de trabalho parece não acompanhar, um fator que tem suscitado preocupações.


Um dos grandes desafios atuais do setor é atrair as novas gerações - Fotografia: APICCAPS


Notando que a dificuldade em “encontrar novas gerações que queiram trabalhar na indústria do calçado” é um problema transversal a toda a Europa, Luís Onofre acredita ser imprescindível mostrar aos mais jovens o quanto a indústria mudou, nomeadamente no que diz respeito à melhoria das condições de trabalho. Uma ideia subscrita por Leandro Melo, diretor-geral do CTCP (Centro Tecnológico do Calçado de Portugal), que acredita ser necessário “mudar a imagem da indústria para que os jovens se interessem em trabalhar nela”.
 
Um objetivo que poderá ser facilitado pelo acordo firmado recentemente entre a APICCAPS e os sindicatos do setor, que prevê um aumento de 5,3% nos salários. Com o salário mínimo nacional atualmente nos 600 euros, o salário médio atual na indústria do calçado é de aproximadamente 800 euros, avança a associação.
 
A captação dos jovens e a qualificação dos trabalhadores é precisamente um dos eixos estratégicos roteiro de inovação FOOTure 4.0, que foi lançado em 2015 e prevê o investimento, até 2020, de 50 milhões de euros em inovação. Desenvolvido pela APICCAPS e pelo CTCP, o programa envolve mais de 70 entidades, entre empresas, startups, universidades, centros de inteligência e entidades do sistema científico e tecnológico, e tem como objetivo tornar o país “líder mundial na relação com os clientes, através da sofisticação do produto, da resposta rápida e ao nível de serviço”.

Levar o made in Portugal mais além
 
Paralelamente, a APICCAPS definiu, para 2019, um investimento de 18 milhões de euros na promoção e reposicionamento do calçado português nos mercados externos. Entre as iniciativas previstas para este ano está a participação de aproximadamente 200 empresas do setor em eventos internacionais a decorrer em mais de 15 mercados, um investimento na ordem dos 16 milhões de euros. Os restantes dois milhões serão aplicados na promoção das marcas próprias. Um medida importante se considerarmos que, como revelou a associação em janeiro deste ano, desde 2010 foram criadas mais de 230 novas marcas de calçado. Só em 2018 nasceram 24.
 
Combater os recentes resultados ambíguos do setor poderá passar ainda por iniciativas como um acordo com a Amazon. Ainda a ser negociada, a concretizar-se esta parceria resultaria na criação de uma plataforma Portuguese Shoes na gigante do comércio online, inicialmente com 20 marcas. Segundo a APICCAPS, até ao final do mês de maio deverá haver novidades sobre o acordo.

Copyright © 2019 FashionNetwork.com. Todos os direitos reservados.