Celine: Hedi Slimane derruba o antigo regime

Depois de mais de 300 desfiles nos dois lados do Atlântico, todas as pessoas que importam na moda finalmente puderam descobrir a coleção mais esperada dos últimos cinco anos: a primeira de Hedi Slimane para a Celine.


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Celine - primavera-verão 2019 - Moda Feminina - Paris - © PixelFormula

Começo duplo, na verdade, já que o estilista também revelou a primeira coleção masculina da casa Celine, fundada em Paris em 1945 por Céline Vipiana.

O desfile foi organizado sob uma enorme tenda negra fosca, na praça Vauban, literalmente à sombra do túmulo de Napoleão. Hedi Slimane nunca teve falta de autoconfiança. No público: Lady Gaga, Karl Lagerfeld, Catherine Deneuve, Virgil Abloh e praticamente todos os membros da família de Bernard Arnault, presidente da LVMH, que detém a Celine. Houve mesmo Bobby Gillespie, dos Primal Scream, que certamente ajudou a inspirar esta coleção, sugeriram vários anglo-saxões presentes naquela noite.

É preciso lembrar que Hedi Slimane veio substituir uma criadora extremamente apreciada e realizada, a inglesa Phoebe Philo. Especulou-se muito sobre como seria capaz de respeitar o seu trabalho, que visava claramente os donos de galerias e outras mulheres de negócios com gosto pelas artes. No fim de contas, Hedi Slimane destruiu mais ou menos essa tradição e rejuvenesceu a cliente Celine por uns bons vinte anos.

Poder-se-ia dizer que a sua primeira silhueta vinha do mesmo lugar da sua última coleção parisiense, um desfile único de haute couture para a Saint Laurent. Um autêntico vestido de noite de bolinhas, com ombros vaporosos, quase em forma de cogumelo.

Mas, a atmosfera era muito mais europeia do que o seu período anterior, mais californiano: uma explosão audaciosa de mousseline no top seguinte, usado com uma mini-saia e botas. Um comprimento muito curto e botas que subiram muito alto. Assim como criou uma vez um visual totalmente baseado em botas com tachas que conquistou o mundo da moda, podemos contar ver esse sucesso duplicar com estas novas botas de cowboy, com fecho-éclair e fivelas.

Uma série de deslumbrantes vestidos de noite em tons de prata, vermelho ou ouro polido, que ficará muito bem nas páginas editoriais e deve rapidamente deixar as lojas Celine. Outras peças sedutoras, com vestidos semitransparentes. E, para um toque francês, completou o visual de muitos modelos com fascinators e outros detalhes com pérolas para rockers chiques. O título deste desfile de lançamento: Paris La Nuit.


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Celine - primavera- verão2019 - Moda Feminina- Paris - © PixelFormula

Mas, a verdadeira novidade de moda foi a coleção masculina. Não é à toa que Hedi Slimane foi o primeiro estilista masculino a tornar-se um verdadeiro astro do rock na época em que esteve na Dior Homme. O criador consegue combinar um talento de alfaiataria incomparável com um senso de aparência verdadeiramente inovador. E foi isso que fez novamente na sexta-feira noite, com calças ajustadas aos quadris, mas ligeiramente curvadas na coxa, que caíam perfeitamente no tornozelo. Todos os homens na plateia olhavam para as próprias calças dizendo: "Estou desatualizado". O mesmo vale para o bonito casaco que Slimane usava nos bastidores, cruzado e com seis botões, o corte perfeito.

"Um diário noturno de jovens parisienses", foi o tipo de comentário sobre o desfile apresentado por Hedi Slimane, que, em seguida, posou para fotografias com Karl Lagerfeld.

"Se gostei? Este é exatamente o tipo de roupa que quero usar, então obviamente que sim", disse Karl.

Acrescentem-se os trenchs saídos diretamente de Samouraï, os casacos cerimoniais de dez botões, casacos em imitação de leopardo e alguns casacos dandy, todos com caimento incrível.

Com cabelo desgrenhado, com óculos retro e sapatos de ponta, por vezes, ultra-afiadas, os modelos pareciam rockers parisienses a candidatar-se para um lugar num grupo de New Wave. Nada de errado com isso, já agora.


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Celine - primavera-verão 2019 - Moda Feminina- Paris - © PixelFormula

O convite de Hedi Slimane foi um álbum de capa dura de fotografias a preto e branco feitas em Paris. Quatorze fotos, incluindo uma coluna de luz, uma bola espelhada, painéis de madeira coloridos, uma parede com grafites, cortinas de baixo perfil e slides partidos. Lugares: 14 antigos marcos parisienses de Hedi Slimane: Balajo, Bus Palladium, Chez Castel, Chez Jeannette, Chez Moune, Folies Pigalle, La Cigale, Whisper Club, Le Crazy Horse, La Station, La Java, Le Rouge ou Pile ou Face. Tudo isto sugere uma certa nostalgia para o esplendor sombrio da sua juventude e o tipo de roupa com a qual construiu a sua reputação: smokings noturnos,  jeans skinny e casacos rockers.

Devemos reconhecer uma coisa a Hedi Slimane: sempre assumiu abertamente que em tempos quis ser jornalista. E a sua capacidade de atrair a atenção da imprensa é incomparável entre os criadores. Mas, foram aqueles dias distantes, quando descobriu Paris after hours, que eventualmente o levaram a fazer a sua vida no mundo da moda.

A fasquia estava elevada neste desfile, pois a Celine tem atualmente uma faturação anual de quase 1,2 mil milhões de euros. Números pequenos em comparação com marcas gigantes como Chanel, Gucci ou Louis Vuitton. Mas, Bernard Arnault foi muito claro com os acionistas da LVMH: quer ver a Celine juntar-se à primeira divisão do luxo e entregou a Hedi Slimane toda a direção criativa da casa: ready-to-wear feminino e masculino, acessórios , perfumes, e tudo mais.

Hedi Slimane certamente vai atrair a ira de alguns por ficar muito próximo das ideias que tinha anteriormente desenvolvido na YSL e Dior, e ter eliminado códigos de Phoebe Philo. Mas, aqueles serão deixados de lado pelo princípio desta coleção, uma nova maneira de voltar a esta iconografia baseada em parisienses noturnos e rockers, que compõem o ADN de Hedi Slimane.

Para destacar ainda mais esta reversão do antigo regime, o criador pediu a um membro da Guarda Republicana que anunciasse o início do desfile com um tambor. O enorme espaço foi transformado em showrooms num piscar de olhos, para começar a vender as coleções em atacado a compradores internacionais durante os próximos três dias.

Quanto ao Napoleão do luxo, Bernard Arnault passeava nos bastidores com um sorriso de satisfação, à beira do riso. E não se pode deixar de lembrar a observação frequentemente citada de Bonaparte: ele gostava que os seus oficiais tivessem sorte.

Traduzido por Isabel Pimentel

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