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26 de jul. de 2021
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Cláudia Santos (Kensal): “É importante escolher algumas batalhas quando queremos ganhar uma guerra”

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26 de jul. de 2021

É por si só um ato de coragem criar uma marca de moda em plena pandemia. Cláudia Santos – designer emergente radicada em Lisboa – lançou a Kensal em 2020 logo após o nascimento do filho. Natural de Luanda e formada no Modatex Lisboa, Cláudia trabalha na moda a mulher sofrida, que eleva, contando as suas histórias através das próprias coleções. Como por exemplo a última coleção intitulada Heda, que fala sobre a libertação da mulher. Foi concebida para a estação de outono-inverno 2021/2022, recentemente apresentada no Take 2 da edição denominada The Sofa Edition do Portugal Fashion 100% digital.


Cláudia Santos, designer de moda angolana fundadora da marca portuguesa Kensal - Facebook


Cláudia Santos defende trabalhar “um conceito atual, que vai de encontro com situações vividas no meu país, em Angola. Situações que continuam a ser escondidas e eu quero proporcionar uma liberdade de expressão a essas mulheres, mostrando como uma mulher sofredora consegue fazer a mudança para uma mulher sobrevivente”, disse em entrevista, aquando do lançamento da coleção. Ou seja: a mulher acaba por passar por uma renovação enorme apesar das cicatrizes do passado e isso reflete-se no estar e no vestir. “Mesmo tornando-se uma mulher livre as cicatrizes acabam por a moldar bastante e transformam-na numa mulher forte, numa mulher decidida, numa mulher que sabe o que quer. E, na vida é o que acontece connosco”.

Cláudia Santos considera mesmo que, nesta sua última coleção, a mulher renasce das cinzas, como uma Fénix, e acrescenta: “Comecei com peças mais pesadas, mais dark, representativas do estado de luto inicial da mulher e fiz, depois, a transformação para uma mulher mais leve, que não está tão presa às correntes do passado”. Em Angola, em Portugal e em todo o mundo, a mulher continua a ser vitima da sociedade machista e às vezes de si própria. A Kensal faz a diferença, tendo como lema exaltar a força, a luta, a transição, a dignidade e o poder femininos. Pelo que parece é a arma da mudança.

Acrescendo o facto de serem até então as amazonas africanas as únicas sobreviventes da grande tribo mitológica de amazonas guerreiras, cuja lenda diz terem sido submetidas aos homens devido ao desaparecimento dos longos pastos onde acampavam com as manadas de águas; à escassez de guerras para as quais eram convocadas e bem pagas; e à fome consequente. A coleção serve assim de homenagem a estas amazonas guerreiras em extinção e a todas as mulheres que são de alguma forma escravizadas e abusadas, e que se podem incluir neste primeiro grupo pela sua fortaleza.

Obviamente, com Angola no coração, as mulheres mumuílas do deserto do Namibe (entre as de outros povos angolanos) ganham protagonismo, como parte de uma sociedade machista seminómada onde por lei um homem pode ter até cinco esposas.


Coleção da Kensal para o outono-inverno 2021/2022 apresentada na 48.ª edição do Portugal Fashion - Foto: Cortesia da Kensal


Em entrevista exclusiva para o site FashionNetwork.com, Cláudia Santos justifica a motivação para a Kensal e para as suas criações, como sendo também uma mulher de fibra.

FashionNetwork.com: A Cláudia Santos nasceu em Luanda (Angola), vivendo depois e desde os 13 anos, no Ribatejo, na vila portuguesa Tramagal. Aos 26 anos mudou-se para Lisboa e começou a dar os primeiros passos no mundo da moda. O que mais a marcou nestas três localidades tão distintas onde residiu e deixou uma presença?
Cláudia Santos: O único denominador comum nestas três localidades sou eu. Em Angola era muito nova e é um país onde a arte não é levada em conta. No Tramagal, já sabia o que queria e como queria e foi tudo muito natural porque tinha um grupo de amigos sempre disposto a ajudar e a apoiar.

Foi uma fase muito boa. Aventurei-me em todos os sentidos. Desde a criar moda e a organizar desfiles, a conceber esculturas e até tive uma breve apresentação num coletivo de criadores então para o Presidente da República. Era tão nova e nem percebia como tudo parecia bater certo.

Sempre tive um pé no mundo da moda, mesmo de forma remota, visto que morava tão longe da capital. Quando cheguei a Lisboa mais uma vez tive muita sorte e consegui formar-me com o estilista Pedro Crispim, que me deu uma nova visão desse mundo. A proximidade de tudo aquilo que já conhecia de longe, só fez com que o meu amor pela moda aumentasse.
 
FNW: Porquê Kensal?
CS: Kensal é uma mistura do primeiro e último nome do meu primogénito. A ideia e vontade de criar a marca surgiu depois do seu nascimento, na altura em que participei no concurso da plataforma Bloom do Portugal Fashion.


Pormenor ousado de vestido curto (ou blusa) da Kensal - Facebook


FNW: A moda sempre fez parte dos seus sonhos, ou foi Lisboa que mudou todo o percurso?
CS: Eu já nasci com a moda impressa no meu ADN. Quando era criança apreciava a avó a trabalhar e a aproveitar os retalhos para fazer roupas para as minhas bonecas. Na verdade, é um cliché, mas não dá para fugir a esta realidade.

FNW:  Quais as suas opções logo após concluir em 2015 e 2018 os cursos de Técnica de Desenho de Vestuário e de Modista do Modatex Lisboa?
CS: Eu sou uma pessoa perfeccionista e era imprescindível fazer outras formações extra, para me sentir completamente à vontade e ingressar no mundo do trabalho. Mas, como engravidei pouco antes de terminar o curso, os planos a nível profissional ficaram em segundo lugar.

Quando o meu filho nasceu, algo em mim despertou e senti uma grande necessidade de trabalhar. Sentia-me muito inspirada. Nisto, surge o concurso Bloom no qual decidi participar. Foi um jogo de cintura: cuidar de um bebé e ao mesmo tempo trabalhar na coleção. Mas, infelizmente um dia antes da apresentação, o evento foi cancelado devido aos planos de contenção ocasionados pelo surto de COVID-19. Dentro desta nova realidade, ainda apresentei uma segunda coleção na plataforma Bloom Upload no início deste ano. Todos tivemos de nos adaptar. Mas é sempre mais complicado para os designers emergentes.

FNW: Precisamente, quando começou a apresentar as coleções nas semanas da moda nacionais e internacionais?
CS: Comecei em 2020 com a primeira apresentação no Portugal Fashion, para o concurso da plataforma Bloom. Este ano de 2021 fiz a minha segunda apresentação, dentro da mesma plataforma, mas no registo Bloom Upload, que tem como finalidade dar a voz a jovens designers.
 

Cláudia Santos nos bastidores - Foto: Cortesia da Kensal


FNW: Qual o caminho até ingressar na plataforma Bloom?
CS: Sempre fui uma jovem muito ativa na sociedade. O meu trabalho sempre esteve ligado à área da moda. Quando descobri o Modatex senti-me em casa. Mais uma vez com clichés, mas na altura não sabia que poderia sentir-me tão bem enquadrada em algum lugar. Os formadores são dos melhores que há e saímos com capacidade para fazer tudo aquilo a que nos propomos.

Entrar na plataforma Bloom fez-me valorizar muito o trabalho de todos os meus formadores e deu-me a consciência de que estava melhor preparada do que pensava. Foram dois anos e meio de muito trabalho e de muitas horas extra, mas que valeram a pena sem dúvida.

FNW: Este é o principal meio de divulgação do seu trabalho?
CS: Sim. Comecei numa altura difícil, como muitos. Ter a plataforma Bloom do Portugal Fashion a apoiar o meu trabalho foi o melhor que me poderia acontecer a nível profissional. Estou muito grata a todos.
 
FNW: Este ano apresentou a nova coleção para a estação de primavera-verão 2022?
CS: Infelizmente a coleção para a primavera-verão 2022 está em pausa por causa da licença de maternidade. Mas espero voltar ao trabalho em breve e a tempo de apresentar a coleção Kensal durante a nova temporada de desfiles. No entanto, a coleção para a primavera-verão estará disponível para venda em janeiro de 2022. 


Primeira coleção da Kensal apresentada em 2020 na plataforma Bloom - Facebook


FNW: Na última coleção a inspiração é Heda reinventada, como representante da vida e destino da mulher. E, também, como chamada de atenção para a realidade de uma sociedade machista que condiciona e reprime?
CS: Sim, sou uma mulher de força. Não consigo manter-me calada perante injustiças. E já vi tantas...

Penso que o trabalho que faço tem sempre espaço para uma tomada de posição. Desde que fui mãe aprendi a dar ainda mais valor à mulher. E quero lutar por ela, por nós, sempre. Temos uma força excecional e não nos podemos deixar vergar. Esta coleção exalta a mulher e coloca-a num pedestal, tornando-a um ser individual, mas com um suporte coletivo.

FNW:  Heda é um nome de origem germânica que significa luta. Através da moda pretende chamar a atenção para a luta de todas as mulheres, de todas as nacionalidades, ou apenas das mulheres identificadas com os mundos angolano e português onde se insere?
CS: Quando começamos temos de escolher as nossas lutas porque só assim teremos a possibilidade de causar algum impacto. Eu sinto por todas as mulheres, discuto e luto por todas. Mas é importante escolher algumas batalhas quando queremos ganhar uma guerra. Aos poucos vamos lutando e conquistando terreno. Quanto mais alta for a nossa voz, mais podemos fazer e não só por nós ou pela amiga e vizinha...

Também podemos ampliar a nossa voz não só a um país, mas a todo o mundo. Eu sei que é um plano muito ambicioso. A ideia é começar por baixo e subir um degrau de cada vez.

FNW: Esta coleção serve ainda de homenagem por um lado às amazonas e, por outro, a todas as mulheres que são escravizadas e abusadas, e que se podem incluir neste primeiro grupo pela sua fortaleza?
CS: Claro. A coleção é uma homenagem a TODAS as mulheres. Todas nós temos um quê de amazonas, seja a nível pessoal ou profissional. Nós já nascemos guerreiras. E esta história da coleção permite dar força a todas as mulheres para que possam tomar uma posição e para que sejam as comandantes das próprias vidas!


Casaco Mumuíla da Kensal - Facebook


FNW: Quais são os materiais e looks chave?
CS: Era muito importante ter as correntes nesta coleção. Elas representavam a transição do estado da mulher guerreira. De uma mulher aprisionada a uma mulher livre. Representavam a força e também as marcas do passado.

Como trabalhei numa coleção monocromática, também optei por diferentes tipos de tecidos e com diferentes brilhos para haver contraste entre as peças. Infelizmente, não se notou muito bem em desfile, mas in loco dá para ter essa perceção.

FNW: De que forma a pandemia veio afetar o trabalho?
CS: Creio que a pandemia tenha afetado o trabalho de todos. Para mim é muito importante tocar e sentir o material e ter uma noção de como vai funcionar na coleção. Com todas as lojas fechadas, o processo de compra torna-se muito complicado. Passou a haver a compra de amostras, o que leva a algum tempo de espera e depois a compra do tecido e acessórios, que leva ainda a mais tempo de espera. Para quem está habituado a trabalhar na hora é muito difícil fazer o ajuste, principalmente com o tempo contado. Mas é a nova realidade e todos temos de nos adaptar.

FNW:  O online tem sido a solução?
CS: Claro. Neste momento temos em manutenção o site kensal.pt, mas as redes sociais são sempre uma boa forma de estarmos próximos dos nossos clientes. 
 

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