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Criatividade, cocriação e androginia marcam a nova onda do design português

Traduzido por
Estela Ataíde
Publicado em
14 de jan de 2020
Tempo de leitura
5 Minutos
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O ritmo frenético que acelera a dinâmica dos desfiles e que infunde conteúdo abundante nas efémeras redes sociais precisa, ao mesmo tempo, de novas alternativas. Numa altura em que a sustentabilidade e a slow fashion se tornam indispensáveis nas agendas mediáticas da moda, a indústria e os seus consumidores estão sedentos de novos nomes, diferentes e ainda não detetados pelos focos mainstream. É, então, necessário olhar para outros horizontes por descobrir, como Portugal, um país de propostas emergentes de curta trajetória, com menos a perder e uma genuína liberdade que inevitavelmente as torna interessantes para o setor.
 
Com o objetivo de apoiar o seu desenvolvimento, o país promove a criação nacional sob a égide da ModaLisboa, que em outubro passado comemorou a sua 53.ª edição. Um evento que levou desfiles e apresentações para o Campo de Santa Clara, em pleno coração do colorido bairro de Alfama, onde as propostas criativas mais jovens se apropriaram das Antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento. Toda uma declaração de intenções sobre a forma como os portugueses entendem o futuro da moda e o melhor lugar para ir em busca do próximo Marques'Almeida.

Awaytomars




A Awaytomars é um coletivo de origem portuguesa que promove a cocriação - Awaytomars


Um dos principais nomes desta nova onda portuguesa é a Awaytomars, uma plataforma de criação colaborativa fundada em 2014 pelo brasileiro Alfredo Orobio. De caráter experimental, o projeto nasceu com uma primeira coleção criada mediante a fusão do trabalho de um total de 46 designers. "Somos a geração que inventou a ideia do consumo em massa, agora temos que mudar a nossa mentalidade", diz o impulsionador da Awaytomars sobre a motivação da iniciativa.
 
Hoje em dia, a marca pretende "mudar a indústria da moda através do uso da tecnologia" e uma clara aposta na cocriação, com mais de 15 mil participantes de todo o mundo. Para isso, os utilizadores devem registar-se online na plataforma, na qual podem propor projetos durante a fase de apresentação. De seguida, essas ideias são sujeitas a votação e posterior adaptação pela comunidade até, por fim, ser levada a cabo a produção de protótipos aos quais o seu coletivo de criadores será o primeiro a ter acesso.

Na sua mais recente coleção, caracterizada por tonalidades pastel degradadas em peças minimalistas de lã merino, a empresa portuguesa levou a cabo uma colaboração com a especialista The Woolmark Company. Vestidos midi (cerca de 460 euros), calças fluidas (320 euros) ou blazers (670 euros), criados a partir do trabalho de designers internacionais como Mariana Escobar (Brasil), Jason Gibson (Austrália), Felipe Rocha (Brasil), Helder Silva (Alemanha), David Cabra (Colômbia) e Xi Zhu Zhu (China), fruto de uma seleção entre 200 projetos de 43 países. O resultado não só é distribuído através da loja online da empresa, como também está disponível através da Harvey Nichols e numa série de pontos de venda físicos em Londres.

Constança Entrudo




Desfile da coleção primavera-verão 2020 de Constança Entrudo na ModaLisboa - Constança Entrudo


Irreverentes e visualmente hipnóticas são as propostas de Constança Entrudo, designer lisboeta formada em design têxtil pela prestigiada escola londrina Central Saint Martins em 2017. Apesar da sua juventude, a criadora já se formou nas fileiras de empresas como Peter Pilotto, a também portuguesa Marques'Almeida ou Balmain, sob a direção criativa de Olivier Rousteing.
 
Há apenas dois anos, no âmbito das apresentações das coleções para a primavera-verão 2018 na ModaLisboa, Constança Entrudo lançou a sua própria marca homónima com o objetivo de explorar as possibilidades da moda "sem limite de idade ou género". Na mesma linha, as suas peças são fluidas e futuristas, como reflete a sua última coleção, "All that is solid melts into air". Cores amarelo e verde flúor ao encontro de lilases degradados ou brancos opacos, em peças voluntariamente desgastadas, assimétricas ou perfuradas. Tecidos de transparências e rostos de efeito molhado que apresentam cyborgs típicos da era dos filtros de Instagram, entre os quais se destacou a participação do rapper e militante LGTBI californiano Mykki Blanco, com um vestido de arco-íris pastel. Provavelmente a proposta mais visual e inovadora do panorama português.

Carolina Machado




Carolina Machado lançou a sua marca homónima em 2017 - Carolina Machado


Aos 26 anos, Carolina Machado já conta com uma trajetória de sete coleções à frente da sua marca homónima. Irreverente, mas com linhas mais descontraídas do que alguns dos seus contemporâneos, a designer de moda feminina apresenta silhuetas sofisticadas e minimalistas em tonalidade que exploram o prateado e o pastel em peças de licra e algodão leve, que garantem a sua projeção comercial a nível nacional e internacional. Atualmente, as peças da marca estão à venda no seu próprio site, bem como em plataformas online como Minty Square ou Ivalo, e esta trabalha na Suécia com o showroom Patriksson Communication.

João Magalhães




João Magalhães apresentou a sua primeira coleção em nome próprio em março de 2019 - João Magalhães


Outra proposta rebelde é a do designer João Magalhães, que lançou a sua própria marca em março do ano passado, depois de ter explorado a criação de acessórios desde 2014 com a sua marca Morecco, que acabaria por propor um guarda-roupa completo. De estética andrógina e à margem dos cânones convencionais, a marca emergente explora os seus conceitos através de materiais inovadores e técnicas artesanais, como os bordados à mão. No seu último desfile, no qual se puderam ver roupas de banho da marca Studio Arena, o designer foi ao encontro do Cyborg Manifesto (1985) para dissolver as fronteiras entre homem, natureza e máquina com designs de transparências, folhos e caimento fluido.

Hibu


Fundada em 2013, a Hibu propõe peças genderless - Hibu


"A nossa visão consiste em que o género é irrelevante na hora de conceber roupa", define a empresa de streetwear minimalista Hibu. Criada em 2013, a marca portuguesa apresentou um desfile misto para a sua coleção CRU-L, na qual os modelos desfilaram em casal e acabaram por trocar os looks diante do público, demonstrando que os seus básicos atemporais de estilo workwear se adaptam tanto a homem como mulher. Silhuetas oversize, macacões de denim ou t-shirts e camisolas de efeito tie-dye dominaram uma coleção facilmente incorporável ao guarda-roupa. Produzidas 100% em Portugal, as peças são comercializadas através do e-commerce da marca, com um posicionamento de preço competitivo: de jeans por 100 euros a casacos ou macacões por 170 e 235 euros, respetivamente.

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