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Empresas preparam-se para um Brexit desordenado à medida que as negociações estagnam

Por
Reuters
Traduzido por
Estela Ataíde
Publicado em
today 7 de dez de 2017
Tempo de leitura
access_time 5 Minutos
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As grandes empresas estão a intensificar os seus planos caso o Reino Unido saia da União Europeia sem um acordo, enquanto a primeira-ministra Theresa May tenta retomar as negociações após um enorme revés.



O Reino Unido pretende concordar com a UE no dia 14 de dezembro para avançar as negociações sobre o Brexit para a segunda fase. Assim, as negociações concentrar-se-iam no comércio e num acordo de transição de dois anos para suavizar a saída, após março de 2019. Mas, o calendário foi posto em causa após discussões em Bruxelas na segunda-feira.
 
Executivos sénior do setor de serviços financeiros, que representa cerca de 12% da economia, disseram à Reuters que os esforços de Theresa May para garantir um acordo de transição chegaram muito tarde, pelo que não tiveram alternativa senão começar a restruturar.

Grandes supermercados como o Tesco e o Sainsbury's têm estado a trabalhar com os fornecedores para identificar potenciais atrasos, escassez ou aumento de preços, e já alinharam fornecedores alternativos, de acordo com fornecedores e fontes do setor.
 
A incerteza é particularmente dolorosa no setor de produção, uma vez que as margens baixas tornam arriscada uma restruturação, a menos que esta seja essencial. O setor tem vindo a evitar investimentos, mas está a preparar-se para uma nova certificação, que permitiria a venda na Europa caso não haja acordo.
 
“O atraso é tal e a incerteza é tão grande que as empresas não têm alternativa senão pôr os seus planos em funcionamento”, disse o responsável de uma das maiores empresas do Reino Unido.
 
O Reino Unido e a UE estão a trabalhar para retomar as negociações esta semana, mas o presidente de um grande banco internacional disse que os seus executivos decidiram preparar-se para o pior numa conferência na terça-feira.
 
“A questão já não é se estamos a mover (operações para a UE), a questão é quão grandes são esses movimentos”, disse.

Como aconteceu com outros executivos, foi pedido a este responsável pelo seu conselho e pelo governo que não partilhasse os seus pensamentos.

FRUTA E CARNE

O presidente disse que o banco iniciou conversações com consumidores sobre o reencaminhamento da atividade dos clientes para hubs europeus, incluindo a reescrita de milhares de contratos.

No mês passado, funcionários sénior foram informados se teriam de se mudar para a Europa, disse.

Outro executivo sénior de um grande banco dos Estados Unidos disse que estava cada vez mais preocupado com a possibilidade de o governo de Theresa May colapsar após as conversações com Bruxelas terem estagnado devido a uma disputa sobre a fronteira irlandesa, o que aumentou a incerteza.

Estamos no ponto máximo de perigo”, disse o executivo.

O setor financeiro precisa de tempo adicional para se certificar que os seus clientes estão preparados. Por exemplo, um banco britânico que abra uma subsidiária na Europa pode precisar que os seus clientes adotem um novo código de classificação nas suas próprias cadeias de abastecimento.
 
Noutros setores, as empresas estão a fazer mudanças menores, que lhes permitiram operar na Europa após o Brexit, desde preparar mudanças de conformidade até à criação de cadeias de abastecimento e à procura de espaço de armazém adicional.

Os retalhistas alimentares estão a alinhar fornecedores alternativos no Reino Unido ou fora da UE em caso de atraso nas fronteiras ou caso novas tarifas perturbem as entregas. Cerca de 30% dos alimentos e bebidas do Reino Unido são provenientes da UE.
 
Algumas mudanças teriam que ser feitas no início do próximo ano a tempo da saída em 2019. Mudar o fornecedor de fruta fresca pode estender-se por um período de um ano, dependendo do ciclo de crescimento.

Ali Capper, sócio na Stocks Farm, em Worcestershire, no centro de Inglaterra, e presidente do Horticulture and Potatoes Board no National Farmers Union, disse que havia sinais de que os clientes de retalho estavam a pedir mais produtos britânicos.

A Irlanda fornece quase 70% das importações de carne bovina do Reino Unido, ou seja, 270 mil toneladas por ano. Caso tarifas ou atrasos nas fronteiras tornem a carne irlandesa menos competitiva, os supermercados poderão procurar mais longe, na Argentina, por exemplo.
 
PRESSÃO DE FABRICO
 
Muitos fabricantes não estão dispostos a aprovar novos planos até que saibam como o Reino Unido irá negociar no futuro.
 
O setor dos medicamentos esteve entre os primeiros a mexer-se para poder cumprir com os regulamentos da UE. A GSK e a AstraZeneca já estabeleceram novas instalações na Europa continental para testar lotes de medicamentos feitos no Reino Unido.

As empresas de automóveis e aeroespaciais estão focadas na certificação. De acordo com o órgão de comércio aeroespacial e de defesa ADS, algumas empresas estão a considerar solicitar à Agência Europeia para a Segurança da Aviação um estatuto que lhes permita vender na UE se o Reino Unido deixar de ser um Estado-Membro.

O fabricante japonês de automóveis Honda, que constrói cerca de 8% dos automóveis britânicos na sua fábrica em Swindon, está a considerar aumentar a sua capacidade de armazenamento no Reino Unido, bem como os níveis de stock, para combater novos atrasos nas fronteiras.
 
A relutância dos fabricantes em autorizar grandes planos afetou as empresas da cadeia de abastecimento.

“O maior impacto que vemos é uma geral falta de vontade de tomar decisões de investimento e capacidade, como resultado da incerteza continuada”, disse Stephen Cheetham, proprietário da PK Engineering Ltd de Hereford, um fornecedor de componentes para as indústrias aeroespacial e científica.

“Estamos a contar com uma paralisia contínua e de decisões só a curto prazo até que seja finalizado um acordo comercial”, disse Cheetham à Reuters.

Ter um acordo de transição permitirá que as empresas sobrevivam aos dois anos após o Brexit, permitindo-lhes adiar decisões importantes até que os parâmetros finais do Brexit sejam definidos, disse Andrew Bonfield, diretor financeiro da National Grid e presidente do 100 Group de chefes de finanças.
 
“Trata-se de evitar a ponta do precipício”, concluiu.

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