Fibrenamics abre call para spin-offs

Na terceira Ignite Session, desta vez dedicada aos produtos, a plataforma Fibrenamics convidou a Salsa, a Farfetch, a Moviflor e a Nissan a partilhar as suas iniciativas de economia digital e sustentabilidade. A sessão marcou ainda o arranque oficial para uma call para spin-offs com a tecnologia desenvolvida nos últimos oito anos.


Alexandra Ferreira, Sílvia Amaral, Fernando Martins, Vanessa Arlandis e Hugo Correia

Um sofá produzido com materiais sustentáveis com aquecimento capaz de interagir com o consumidor, placas de reforço para veículos militares leves e com elevado nível de proteção balística e eletromagnética e varões sensorizados em material compósito que usam nanotubos de carbono e podem ser aplicados na construção, e não só, são apenas alguns dos produtos demonstradores desenvolvidos pela plataforma Fibrenamics, da Universidade do Minho, que poderão chegar ao mercado em breve.

«Acredito muito nas spin-offs de partilha entre o meio académico e o meio empresarial – acho que é o modelo que falta explorar. Muitas spin-offs têm nascido da parte académica e depois demoram muito tempo a maturar para terem sucesso. Penso que podemos queimar muitas etapas se juntarmos automaticamente, na criação dessas spin-off, o meio empresarial e o meio académico e criar unidades que possam promover as tecnologias que são criadas nas universidades. É esse o nosso objetivo», explicou, ao Portugal Têxtil, Raul Fangueiro, coordenador da plataforma Fibrenamics. «Desenvolvemos uma série de conhecimento, de produtos e de materiais, que nesta altura estão maduros para poderem dar origem, em vários sectores, a produtos inovadores. Não nos interessa só ter modelos demonstradores das tecnologias, mas que daí se parta para algo que é muito mais sério do ponto de vista de colocação do produto no mercado», acrescentou.

Conhecimento gera conhecimento

Criada há cerca de oito anos, a plataforma Fibrenamics nasceu com o objetivo de facilitar a transferência do conhecimento académico para a sociedade e, para isso, criou um modelo, que foi reconhecido pela Comissão Europeia, com base em quatro pilares – intelligence, ciência, tecnologia e negócio – que permite que, atualmente, a inovação seja gerada «quase de forma automática», referiu Raul Fangueiro na sua apresentação.

Nos últimos anos, a atividade da plataforma cruzou essencialmente os pilares da ecologia e da sustentabilidade, do desempenho melhorado com recurso à nanotecnologia e a adaptabilidade e os materiais inteligentes. «E aplicámos isto de forma transversal aos vários sectores», apontou. Funcionalização de fibras naturais com nanopartículas foi uma das áreas de investigação, juntamente com a produção de fibras à escala nano e de materiais auxéticos, para absorção de impacto balístico, por exemplo.

«O que queremos é beber as ideias dos nossos convidados de hoje e perceber qual é a visão das organizações que representam nesta questão dos produtos inovadores, para nós, no âmbito da plataforma, podermos ter modelos interessantes sobre esse ponto de vista», indicou o coordenador da Fibrenamics.

Imaginar o futuro

Preparar hoje o futuro é, de resto, imprescindível, garantiu Sérgio Ferreira, diretor-executivo de marketing digital e consumidor na consultora Ernst & Young. «Ninguém pode prever o futuro, mas podemos tentar imaginá-lo», afirmou na sua apresentação, onde apelou às empresas para mudarem o seu foco para o consumidor. «Para mim, os dois fatores mais relevantes na transformação hoje são a conectividade, que veio democratizar o acesso ao conhecimento, e o móvel – qualquer um pode concorrer com uma grande empresa porque consegue chegar com o produto que desenvolve em casa a todos os consumidores», sublinhou.

Apesar da resistência natural à mudança por parte do ser humano, Sérgio Ferreira considera que as empresas têm de abordar o mercado de mente aberta e «pensar quem servem, conhecê-lo para desenvolver novos produtos e serviços». Segundo o diretor-executivo de marketing digital e consumidor da Ernst & Young, há oito vertentes que vão moldar o consumidor do futuro e que vão impulsionar mudanças na forma como se relacionam com marcas: trabalho, mobilidade, alimentação, compras, estilo de vida, utilização da tecnologia, jogos e saúde.

Como exemplos, Sérgio Ferreira destacou a área das compras e do estilo de vida. «O que as marcas vão fazer quando a relação de compras não for feita pelo consumidor mas por um assistente digital, um bot? Comprar e ir às compras vai ser diferente», destacou, apontando que em 2018 mais de 170 milhões de pessoas já usaram realidade virtual. «Hoje não queremos ir às compras, queremos experiências», referiu. Marcas como a Yves Saint Laurent, que está a abrir showrooms em hotéis, e a Lego, que criou a Virtual Lego Wear Boutique, que não tem produto mas proporciona uma experiência de realidade virtual, são exemplos de novos modelos para responder a esta mudança.

A busca por experiências está igualmente a moldar a forma como vivemos, sobretudo entre os mais jovens mas não só, levando algumas marcas a reagir já, assinalou Sérgio Ferreira. A Unilever, por exemplo, associou-se à ZipJet para um serviço de lavandaria a pedido da marca Persil, deixando o foco na venda de produto para os serviços, e a Neiman Marcus estabeleceu uma parceria com o St. Regis Hotel onde oferece armários personalizados para os hóspedes, que assim podem deixar a mala em casa quando viajam e usar a roupa disponibilizada, que poderão, ou não, comprar no final.

Proporcionar serviços de subscrição em vez da compra, responder rapidamente às necessidades do consumidor e a toda a hora e ser responsável e transparente foram alguns dos conselhos deixados pelo diretor-executivo de marketing digital e consumidor da Ernst & Young.

«Gostaria que levassem daqui algumas ideias para se prepararem para amanhã. Primeiro, desafiem-se – as suposições de ontem são diferentes das de hoje. Não olhem para os modelos que vos deram sucesso porque eles podem ser o insucesso do amanhã. Escolham as tribos – hoje os consumidores comportam-se como comunidades, tribos que têm as suas formas de estar, hábitos e necessidades. Têm que os conhecer para pertencer à sua tribo», apontou, mencionando ainda a necessidade de ganhar todos os micromomentos, porque as decisões são fruto de micromomentos, e de dominar o ecossistema. «Determinem onde estão. Não vale a pena estar em tudo. Hoje o mundo é demasiado complexo para saber de tudo. Por isso, façam parcerias, arranjem e criem um ecossistema naquilo que é importante para que o vosso negócio seja bem sucedido», resumiu.

Economia digital e sustentabilidade

O painel de debate foi preenchido com a visão das marcas na área da economia digital e da sustentabilidade.

No caso da Moviflor, depois da marca ter sido relançada por uma nova empresa, mudou o seu target e o seu modelo de negócio, passando a direcionar-se para um público mais jovem, com mobiliário e artigos de decoração a preços mais baixos e produzidos na Ásia. O comércio online tornou-se parte desta estratégia. «esta nova Moviflor começa com duas lojas, vamos abrir a terceira, e aposta fortemente no digital», explicou Vanessa Arlandis, diretora de marketing digital e comércio eletrónico da Moviflor, que adiantou que atualmente o digital representa 6% das vendas, mas «queremos chegar aos 10%», referiu. A dificuldade, contudo, está na logística. «Temos rota própria do Porto a Leiria e no resto do país trabalhamos com terceiros», apontou, acrescentando, contudo, que pela especificidade do produto, que muitas vezes requer montagem, «não entregam o valor da mesma forma que entregamos». Por isso, «estamos a tentar criar novos procedimentos para conseguir combater esses pequenos percalços», asseverou.

Na Farfetch, «temos bem afinado o processo até ao fim», garantiu Fernando Martins, diretor de produto na plataforma fundada por José Neves. «O nosso desafio é que não somos nós que fornecemos o produto, são os nossos parceiros que preparam as encomendas», pelo que o resultado final dificilmente é o mesmo para as mais de 600 boutiques e 300 marcas que estão presentes na Farfetch. Muitas vezes confundida como apenas um marketplace de moda de luxo, a Farfetch é, acima de tudo, uma plataforma, frisou Fernando Martins. «A ideia nunca foi construir um site – o site é a pontinha do icebergue. A plataforma é que é o foco», sustentou. Entre as novidades da Farfetch conta-se atualmente a iniciativa Second Life, que vai permitir que os clientes da plataforma vendam as suas carteiras em bom estado para que sejam revendidas, e a Positive Farfetch, que pretende dar mais visibilidade às marcas que se preocupam com a sustentabilidade.

Esta é também uma área que tem ocupado a marca de jeanswear Salsa, que no passado criou um projeto de recolha de jeans usados, que doou ou reutilizou na produção de sacos em denim. No passado dia 6 de maio, contudo, «oficializamos internamente uma série de ações relacionadas com a sustentabilidade», revelou Alexandra Ferreira, diretora de gestão de produto na Salsa. Além disso, a marca, que já faz online mais de 12% das suas vendas, tem vindo a rever os processos de acabamentos na parte industrial, nomeadamente a lavandaria, e a instalar painéis fotovoltaicos para obter energia mais limpa. A marca tem igualmente procurado diferenciar o seu produto. «Não nos consideramos fast fashion. Nós orgulhamo-nos de que que o nosso produto dura. É o primeiro passo para a sustentabilidade», sublinhou Alexandra Ferreira.

Já a Nissan é uma referência nos veículos elétricos, tendo iniciado as vendas do modelo Leaf em 2010 em Portugal e, desde então, tem crescido. «Em 2010, em Portugal, vendemos 18 carros, para o Estado português, porque havia a intenção da Nissan ter uma fábrica de baterias em Portugal e havia uma grande aposta na mobilidade elétrica», indicou Sílvia Amaral, diretora do projeto de mobilidade elétrica na Nissa Iberia. «No final do ano passado, os veículos elétricos da Nissan representavam aproximadamente 4%, o que não é nada comparado com o resto. Mas tivemos um crescimento exponencial nos últimos anos. E Portugal, tirando o Norte da Europa, é o terceiro país com maior volume de compra de veículos elétricos da Nissan», acrescentou, adiantando que «o que temos como expectativa é que, durante os próximos dois anos, [os veículos elétricos] representem 15% do volume de vendas em Portugal».

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