ITV europeia com novas rotas

A UE é um dos mais importantes atores no cenário têxtil, responsável por um terço do total de exportações globais e cerca de 40% das importações em 2016. Analisar os quatro eixos de mudança ITV europeia é a chave para ajudar as empresas do sector a melhor explorar as atuais oportunidades de sourcing e de acesso ao mercado.


Com base numa análise aos mais recentes dados do Eurostat, Sheng Lu, professor do departamento de estudos de moda e vestuário da universidade de Delaware, deixou ao portal just-style.com uma perspetiva abrangente sobre o presente e o futuro dos têxteis e vestuário da União Europeia (UE).

UE continua a liderar a produção de têxteis e vestuário

O valor de produção de têxteis e vestuário em 2016 ficou nos 141,2 mil milhões de euros (Statistical Classification of Economic Activities ou NACE, sectores C13 e C14), dividido entre produção de têxteis (75 mil milhões de euros) e confeção (65,4 mil milhões de euros).

No que diz respeito à produção de têxteis, países como a Alemanha, França e Itália garantiram aproximadamente 80% do total em 2016. Além disso, a quota de não-tecidos e têxteis técnicos (sectores C1395 e C1396) cresceu de 18% do total de exportações têxteis europeias em 2008 para 21% em 2015, aumento este que refletiu uma mudança estrutural no sector.

Na União Europeia, a confeção de vestuário inclui duas categorias primárias: uma de produtos de gama média para consumo no mercado de massas e produzida, sobretudo, em países como a Polónia, Hungria e Roménia. Outra de artigos de luxo, que oferece vestuário high-end produzido em países como Itália, Reino Unido, França e Alemanha.

Em 2016, cada trabalhador do sector de vestuário na Europa de Leste gerou aproximadamente 19.533 euros, em comparação com os 163.720 da Europa Ocidental. O valor acrescentado pela mão-de-obra explica os salários altos e como países como Itália e França continuam tão relevantes na produção e exportação de vestuário.

A par disso, nos países da Europa Ocidental, os custos com a mão-de-obra apenas representaram 22,8% dos custos totais da produção de vestuário em 2016 – valor significativamente mais baixo face aos 30,1% de 2006 e que denota o incremento da automação.

Trocas comerciais entre países membros

Apesar da pressão crescente dos fornecedores asiáticos de baixo custo, as estatísticas da Organização Mundial de Comércio mostraram que do total de importações da UE em 2016 (89 mil milhões de euros), 64,1% foram garantidas pelas trocas comerciais entre países da União Europeia. Seguindo a mesma linha, do total de 198 mil milhões de importações de vestuário em 2016, 55,6% foram garantidas por outros países membros.

Há vários fatores que explicam a força destas trocas internas: o primeiro diz respeito à cadeia de aprovisionamento complexa entre os diferentes países da UE. Por exemplo, em 2016, a Roménia, Hungria e Polónia aprovisionaram mais de metade dos seus fios e tecidos na Alemanha, Itália, Reino Unido e Bélgica.

Entretanto, diferentes países da Europa Ocidental garantem também diferentes processos de produção entre si, apostando num aprovisionamento de proximidade (nearshoring). Adicionalmente, existe uma forte procura por vestuário produzido na União Europeia, considerando que a UE é um dos maiores mercados de consumo. Devido ao seu PIB per capita e densidade populacional, o Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Espanha foram responsáveis por 63,6% do total das vendas de vestuário no retalho em 2016.

Outro fator importante é a política do mercado único e respetiva livre circulação de pessoas, bens e serviços.

A maioria dos acordos de comércio livre da UE adota a regra da dupla transformação do produto

O sector da fiação é o ponto fraco da cadeia de aprovisionamento europeia. Os dados mostram que, em 2015, a UE carecia de 6,34 mil milhões de euros de fios fornecidos localmente (sector C1310) para a produção de tecidos (sector C1320). Este número corresponde ao total de 4,52 mil milhões de fios que os países da UE importaram fora da região naquele ano.

Um estudo recente da Comissão Europeia sugere ainda que, exceto para fiações de fios especiais, o sector de fiação da UE enfrenta, em geral, o desafio de uma base limitada de aprovisionamento de fibras na UE e o aumento dos custos das matérias-primas.

Como a maioria dos parceiros comerciais que tem acordos de livre comércio com a UE também não tem capacidade de fiação, os acordos de livre comércio da UE normalmente adotam a chamada regra da dupla transformação do produto. Esta regra significa que as fibras e fios podem ser produzidos em qualquer lugar, mas cada componente a começar no tecido usado na peça de vestuário deve ser aprovisionado dentro da área de livre comércio.

Prosperidade do sector na UE dependente da performance global

Ainda que a indústria têxtil e vestuário da UE continue em boa forma, o ambiente de negócios está longe de ser o ideal. O crescimento económico estagnou e as taxas de desemprego jovem cresceram. A par disso, as incertezas trazidas pelo Brexit estão a levar algumas empresas a explorar novas oportunidades de mercado fora do Velho Continente.

Como reflexo dos esforços globais das empresas, em 2016, mais de 24% da produção têxtil e aproximadamente um terço da produção de vestuário foram escoados pelo mercado externo (extra-UE).

A par dos EUA como mercado tradicional de exportação, a região Asia-Pacífico está rapidamente a transformar-se no novo destino das exportações da UE. Por exemplo, entre 2000 e 2017, as exportações de vestuário para a China (+ 221,6%), Coreia do Sul (+ 143,3%), Hong Kong (+ 95,6%), México (+71.0%) e Canadá (+ 73,2%) cresceram a um ritmo muito mais acelerado comparativamente ao crescimento global de 37%.

Sem surpresas, estrategicamente, a UE está a assinar novos acordos de livre comércio com países na região Ásia-Pacífico. Com a implementação dos acordos de livre comércio entre a UE e o Vietname (EVFTA), a UE e o Canadá (CETA), a UE e o Japão e um potencial acordo com os membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), a força global da indústria têxtil e vestuário europeia tende a crescer.
 

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