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ITV do Egito deu a volta

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Portugal Textil
Publicado em
today 5 de dez de 2017
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A maior estabilidade política e económica do Egito, quase sete anos depois da revolta que tirou do poder o presidente Hosni Mubarak, permitiu à indústria de vestuário do país retomar o curso normal e aumentar tanto a produção como as exportações, nomeadamente para a União Europeia.


Entre janeiro e outubro deste ano, as exportações do Egito subiram 14% face ao período homólogo do ano passado e, segundo o Conselho de Exportação de Pronto-a-Vestir do país, deverão atingir 1,4 mil milhões de dólares (1,18 mil milhões de euros) até ao final do ano. Entre os principais motores deste crescimento estão a desvalorização da libra egípcia e o regresso do interesse dos principais compradores, sobretudo da União Europeia e dos EUA.

«Estamos a recuperar os números antigos e a ultrapassar o nosso objetivo de um crescimento de 10% para 2017», afirma Sherin Hosni, que ocupa a direção-executiva do Conselho de Exportação de Pronto-a-Vestir, ao just-style.com

Antes da revolução de janeiro de 2011, as exportações de vestuário rondavam 1,4 mil milhões de dólares anuais, até que o país ficou sujeito a uma nova onda de instabilidade quando o presidente Mohamed Morsi foi deposto, a que se seguiu a eleição do presidente Abdel Fattah el-Sisi em 2014.

Os compradores ficaram, nessa altura, hesitantes em aprovisionar-se no Egito, com receio de novas manifestações que pudessem pôr em causa as encomendas. Como resultado, as exportações caíram 3% em 2015, para 1,38 mil milhões de dólares, e mais 8% em 2016, para 1,27 mil milhões de dólares.

«Não estamos de volta ao pico entre 2006 e 2011, altura em que as nossas exportações cresciam 22% em média. Em 2015 e 2016 perdemos cerca de 15%, por isso temos de trabalhar muito para voltarmos ao ponto em que estávamos», explica Mohamed Kassem, comissário da feira Destination Africa, e ex-presidente do conselho de administração do Conselho de Exportação de Pronto-a-Vestir. Até outubro de 2017, as exportações estavam em 1,18 mil milhões de dólares, de acordo com o Conselho de Exportação de Pronto-a-Vestir.

Apesar de tudo, os compradores leais beneficiaram. «As empresas que ficaram beneficiaram, porque não perderam nenhum carregamento e fomos capazes de crescer devido a uma taxa de câmbio favorável e à proximidade do Egito dos EUA e da Europa», aponta Ehab El Zaher, diretor-geral da Sweet Girl, em Alexandria, que produz vestuário em malha para a Kids Concepts nos EUA e para a Avon na Europa.

Até o governo egípcio ter desvalorizado a moeda em novembro de 2016, o câmbio era de 8 libras egípcias por dólar. Desde então subiu para 17,60 libras egípcias em média durante 2017.

Mas embora a desvalorização tenha tornado as exportações atrativas, aumentou os custos para os produtores – sobretudo porque o sector é altamente dependente de fios, tecidos e acessórios importados, apesar do forte sector algodoeiro.

«No ano passado vendemos mais em termos de quantidade, enquanto este ano sofremos o impacto da inflação e dos preços das matérias-primas. O fio era a 2,5 dólares agora é a 4 dólares, o que representa 75% do custo total do vestuário», indica Adel Hassanein, diretor de marketing no Grupo Sogic, que fornece vestuário em malha ao Aldi e às Galeries Lafayette, entre outros.

Destinos de exportação

Cerca de 60% das exportações de vestuário do Egito têm como destino a UE, seguida dos EUA, Médio Oriente e África. Os tecidos são a principal exportação, com 807 milhões de dólares (dados de outubro de 2017), seguidos do vestuário em malha, com 387 milhões de dólares.

Em 2017, o maior crescimento das exportações de vestuário em termos anuais foi para a Arábia Saudita, com 65%, seguida de Espanha (+33%), Itália (+28%), França (+22%) e os EUA (+13%). Um ponto negro, contudo, foi a quebra de 22% nas vendas para a Holanda, segundo o Conselho de Exportação de Pronto-a-Vestir.

O aumento nas exportações para os EUA tem sido particularmente evidente, refere Hala Hashem, CEO da Arafa Holding, que produz vestuário formal para gomem para retalhistas como a Zara na sua unidade Swiss Garments Company, situada nos arredores da cidade do Cairo.

«No vestuário clássico sempre fornecemos a Europa, mas pela primeira vez em cinco anos temos procura por parte de marcas americanas. Além disso, os retalhistas turcos também estão a inquirir-nos», revela.

Pelo segundo ano consecutivo, o Egito acolheu a feira Destination Africa, que teve lugar no início do mês de novembro, para atrair compradores e produtores para o Egito e o resto do continente. O Egito está ainda a tentar diversificar e acompanhar as mudanças nos padrões de consumo mundial de vestuário, assim como reduzir a sua dependência do mercado europeu.

«Todas as principais empresas se focam na Europa, por isso estamos a tentar diversificar. O Brexit também levou a isso», afirma Ehab El Zaher, da Sweet Girl, que acrescenta que a indústria está a responder às preocupações sobre o acesso ao mercado do Reino Unido após a saída do país da UE.

Ainda assim, o governo egípcio está a planear reintroduzir um barco rápido para a UE para impulsionar as exportações de fast fashion, que deixou de funcionar devido à revolução.

«É muito importante ter de volta o barco rápido e temos de voltar a analisar os envios para o resto do Norte de África», considera Samir Riad, diretor-geral do Grupo Riad, que vende vestuário para os principais retalhistas americanos e europeus, incluindo a Inditex.

O Egito quer ainda aumentar as exportações para os EUA através das chamadas Zonas Industriais Qualificadas, zonas de comércio livre que garantem reduções de impostos se 10,5% dos bens produzidos forem aprovisionados de Israel.

Neste momento estão em curso negociações, em cooperação com a Organização Internacional do Trabalho, das Nações Unidas, para recuperar fornecedores para o merchandise da Disney, depois da empresa americana ter abandonado o mercado egípcio devido a preocupações de ordem laboral e ambiental. Cerca de 60 empresas egípcias forneciam vestuário e têxteis à gigante americana.

As exportações de pronto-a-vestir do Egito para os EUA diminuíram 16% em 2016 em termos anuais, para 633 milhões de dólares. Mas as vendas parecem ter estabilizado este ano, tendo atingido 591 milhões de dólares em outubro.

Em julho, a OIT implementou o programa “Better Work” no Egito – o segundo no Médio Oriente, depois da Jordânia – para melhorar as condições de trabalho e aumentar a competitividade do negócio. Cerca de 26 fábricas, sobretudo no sector de exportação de vestuário, fazem parte do projeto-piloto, revela Peter Van Rooji, diretor da OIT no Egito.

Ambições para 2025

Entretanto, o governo está a promover fortemente a expansão do sector, com a sua política Visão 2025 a pretender criar um milhão de postos de trabalho na indústria têxtil e vestuário, formar cerca de 750 mil trabalhadores, supervisores e gestores, e atrair 13,5 mil milhões de dólares em investimento local e estrangeiro. Atualmente, o Egito conta com mais de 1.500 fábricas de vestuário.

«Tínhamos o objetivo de aumentar em 10% as exportações este ano e, em outubro, tínhamos aumentado 14%», destaca Sherin Hosni. «No próximo ano prevemos um crescimento de 15% e, em 2019 e 2020, 20% ao ano. Mas penso que vamos rever os números no final do ano, já que as exportações estão a ter um bom desempenho até agora. Imagino que não iremos ultrapassar 1,4 mil milhões de dólares até ao final de 2017», prevê.

O Euromonitor International estima que, entre 2016 e 2021, a produção de vestuário no Egito irá crescer 69,8%, com uma taxa de crescimento anual composta de 11,2%, devendo atingir 2,05 mil milhões de dólares em 2021.

Mas para desenvolver mais o sector, o Egito tem de se afastar do modelo de confeção a feitio, segundo os compradores que marcaram presença na Destination Africa.

«Nós [no Egito] não podemos fornecer tudo ainda, como tecidos, [e o país não tem] fábricas muito grandes, o que muitas empresas consideram ser uma falha. Além disso, nem todos os acessórios são de elevada qualidade, por isso são aprovisionados em todo o mundo», justifica Simon Fares, diretor de vendas no Egito da produtora japonesa de fechos YKK. A empresa produz cerca de 70 milhões de fechos no Egito e prevê chegar aos 100 milhões de unidades até 2020.

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