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Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
8 de mai. de 2020
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8 Minutos
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Jean Touitou emite carta aberta à moda e defende cancelamento do desfile da A.P.C.

Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
8 de mai. de 2020

Jean Touitou, o fundador da cool e peculiar marca parisiense A.P.C., emitiu uma longa carta aberta à indústria da moda, defendendo a sua decisão de cancelar o desfile de Paris em março e apelando a um grande sentido de comunidade.


Look da coleção primavera-verão 2020 da A.P.C. - A.P.C.

 
A marca A.P.C. enfureceu muitos quadros superiores da moda francesa quando cancelou o seu desfile, previsto para 2 de março, na época das passerelles de Paris. Muitos consideraram a decisão desprovida de esprit de corps, mesmo num momento em que o mundo despertou drástica e lentamente para o impacto do coronavírus COVID-19. Apenas outra maison, a Agnès b., realizou o desfile num calendário de cerca de 80 espectáculos.

No entanto, na sua carta, Touitou insiste que está "extremamente orgulhoso" por ter cancelado o espectáculo, "para salvaguardar a saúde das minhas equipas e dos meus convidados" e reforça: "Penso que posso reclamar uma certa forma de moralidade".

Conhecido pela sua sagacidade e eloquência, Jean Touitou pode ser tão tagarela como o anarquista Unabomber, embora com um tom mais suave. De seguida, reproduzimos o conteúdo de toda a sua carta, com mais de 1.400 palavras, para que os leitores possam julgar por si próprios este seu acto refletido.


Look da coleção primavera-verão 2020 da A.P.C. - Instagram @apc_paris

 
Tenho direito a ela: Para uma Utopia Razoável Face a um Caos Monstruoso por Toda Parte
 
A catástrofe em curso está a obrigar-me a recentrar-me e a perguntar a mim próprio:
PORQUÊ A.P.C.?

Comecei a pensar na ideia da A.P.C. muito antes de a marca ter lançado a sua coleção com a etiqueta "Hiver 87" em 1986.
Foi por volta de meados dos anos 80, eu lembro-me. As mulheres usavam ombreiras enormes nos seus casacos. Usavam uma espécie de xaile absurdo sobre UM ombro. Os homens vestiam calças demasiado largas e de cintura alta. Só os (já) velhos punks eram elegantes.

O que eu estou a tentar dizer é que eu estava enojado e revoltado. Quando a famosa discoteca "Palace" atingiu o auge da sua popularidade, eu estava a escrever “DEATH TO DISCO” nas paredes do bairro Les Halles, em Paris. Para mim, tudo no mundo em que eu vivia, precisava de ser repensado e redesenhado. Já não conseguia respirar. Tudo me asfixiava.

Nota para os leitores que podem ficar chocados com esta atitude: Eu adorava secretamente as jóias musicais e a energia vital da discoteca; ouvia muito esta música quando ia a Nova Iorque. Na altura, eu vendia vinil tipo rock pós-psicadélico "por encomenda postal" de um pequeno escritório na rue Saint Honoré, em Paris.

Encontrava-os nos EUA em armazéns cheios de stock por vender e enviava-os do armazém de um amigo vendedor de discos, localizado na extremidade oeste da Canal Street de Nova Iorque.

Para manter todos de bom humor neste local de trabalho, a música era a de discoteca, claro. Isso, levantou-me. Eu estava no centro de uma contradição, porque adorava uma música que me obrigava a odiar. Continuei a minha missão porque, sem este armazém, não podia enviar para França os álbuns Remains e 13th Floor Elevators, para mencionar as bandas mais obscuras.

Obviamente, o que me torturou, durante este período, não foi que as pessoas gostassem de dançar, mas que era obsceno falar de política e filosofia durante o jantar. Tudo tinha de ser sempre divertido - mesmo que, nos bastidores, tudo fosse uma confusão.

Tive de me afastar desta falta de perspectiva e, como nunca fui tentado pela autodestruição ou pelas drogas, procurei uma forma de transformar a minha energia destrutiva em algo bom, evitando todo o tipo de compromissos com modos sociais e cliques de moda.

Não estava sozinho nisto, mas digamos apenas que os nossos números eram limitados.

Por isso, tentei criar um refúgio de dignidade estética e chamei-lhe A.P.C.

Para financiar o meu empreendimento, desenhei e produzi coleções que estavam longe de ser do meu agrado. É muito engraçado quando penso nisso: Camiões carregados e camiões carregados com leggings impressas em python financiaram o desenvolvimento das minhas calças de ganga cruas e fatos de lã tecidos com ombros finos.

Desde então, quase nada melhorou: Para além de todos os males que já existiam nos anos 80, os oceanos transbordam agora de resíduos plásticos e o aquecimento global está a causar fenómenos que estão a tornar este planeta cada vez mais difícil de viver e preservar.

O mundo da moda tem sido sujeito a coisas difíceis de aceitar: Horários impossíveis, o aumento do poder da publicidade e do dinheiro em geral, criaturas superficiais que transmitem valores que, a rigor, são repugnantes - aqueles de uma vida fácil, maravilhosa e encantadora que é totalmente falsa. A moda tornou-se realmente o ópio do povo e as celebridades atingiram o estatuto de Messias.

Muita água passou debaixo da ponte desde o movimento feminista do início dos anos 70, representado, por exemplo, por Delphine Seyrig. É claro que houve progressos, mas, apesar disso, demasiadas mulheres continuam a ser tratadas como objectos.

Alguns dos esforços de desobjectificação do "segundo sexo" foram varridos pela moda, que se tornou uma relação libidinosa com a mercadoria. Vou ficar por aqui.

Com o início da crise do COVID-19, e ainda sobrecarregada pelas ideias que acabei de mencionar, fiz um balanço das minhas escolhas.

Em tais circunstâncias, e considerando que eu não tinha "mais nada a provar" (como a própria Catherine Deneuve me disse), eu poderia ter pensado: "Qual é a utilidade, porque deveríamos até tentar sobreviver como uma marca, porque de qualquer forma, o mundo está 'destinado ao pior' como Samuel Beckett escreveu numa coleção de poemas. Nós somos 'a pior prostituta' (título do poema em prosa de Beckett) e devemos parar agora. O jogo acabou”.

Para ser honesto, tenho de dizer que fiz esta pergunta a mim mesmo. Eu disse a mim mesmo que tinha construído o suficiente, que os meus filhos teriam um futuro de qualquer forma graças ao talento deles, e que eu poderia passar o tempo entre o meu futuro barco, a minha casa e os meus "hobbies".

Sim, em março, essa possibilidade passou pela minha cabeça por alguns segundos quando eu estava sistematicamente a fazer um balanço de cada resultado possível.

Depois, comecei a pensar em todas estas aventuras, em todas estas lojas construídas com um verdadeiro esforço arquitectónico de cada vez e, especialmente, em todas as pessoas individuais que participaram e continuam a participar nesta "utopia razoável" que é a A.P.C.

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer, do fundo do meu coração, a todas as pessoas que participaram e trabalharam na construção deste projecto, algumas das quais já estão ao meu lado há 33 anos.

Sem os outros, nada é possível.

Percebo que afinal não sou cínico e que só a busca da beleza e a sua partilha com outros sapiens me pode afastar do buraco negro do jogo. Por isso, eu coloquei de lado a opção de desistir.

E, foi quando simplesmente disse a mim mesmo que o período que se abre neste momento é um período revolucionário em que tudo pode ser reinventado. Uma espécie de oportunidade que me faz sentir realmente em casa. O distanciamento social sempre foi uma forma de viver para mim.

Mas, a decisão pessoal de me isolar de muitas pessoas não me impede de pensar no mundo em geral e no papel positivo que podemos desempenhar, participando com mais harmonia, consciência e desejo.

Estou extremamente orgulhoso por ter cancelado o espectáculo A.P.C. que deveria ter tido lugar, no dia 2 de março, para salvaguardar a saúde das minhas equipas e convidados. Penso que posso reivindicar uma certa forma de moralidade.

Mais do que irónico, o tema musical em que estávamos a trabalhar era uma canção chamada "World Destruction". Isto foi uma pura coincidência, é claro.

Assim, depois de rejeitar a hipótese de "recusar o salto", comecei a considerar que havia uma nova missão que eu e nós tínhamos de cumprir: Assegurar a sobrevivência da A.P.C. e dos seus valores estéticos e morais.

Quero continuar a fazer moda, criando roupas vestíveis que permitam que as pessoas se sintam como se fossem elas mesmas e não os bonecos de um estilista.

Quero continuar a fazer roupas sustentáveis, tanto em termos de estilo como de qualidade.

Quero deixar traços estéticos através de imagens de moda, cujo desenvolvimento e finalização sempre pertenceram aos fotógrafos e estilistas que as criaram e não à marca que as encomendou.

Quero continuar a usar a A.P.C. para iniciar projectos artísticos que reciclem os nossos tecidos ou roupas velhas, como já fiz com os programas de confeção de colchas e o programa Butler, que reintegram os jeans velhos em segunda mão no circuito de vendas. Estou obcecado em não desperdiçar coisas, desde criança.

Quero enriquecer o nosso relacionamento com os clientes, fazendo-os participar de um programa de reciclagem de roupas A.P.C., com associações de caridade e pedindo-lhes para participarem de um programa de fidelidade.

Acima de tudo, gostaria de cultivar um sentido de comunidade.

Quando avalio a situação, penso que estamos no caminho certo e que é o melhor para superar os tempos difíceis que nos esperam.

E o que poderia ser melhor adaptado ao futuro do que a moda que fazemos? O minimalismo foi quase visto como uma falha, um colapso. Agora, será considerado como a virtude suprema em todos os campos da vida humana.

Escrevi este texto muito pessoal porque precisava de explicar de onde veio a A.P.C.

É a primeira vez que me permito ser tão sincero, correndo o risco de parecer ingénuo e "com opiniões", como dizem os nossos amigos americanos.

Gostaria que avançássemos juntos para este meu destino ("para o infinito e mais além", é claro).

A força de um pequeno grupo unido por uma mente livre pode ser ilimitada.
 

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