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Helena OSORIO
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21 de set. de 2021
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London Fashion Week abre com Edward Crutchley, David Koma e Nensi Dojaka

Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
21 de set. de 2021

Apesar do número limitado de desfiles e convidados para esta London Fashion Week, a estação abriu com um estrondo na sexta-feira (17 de setembro), salientando três propostas memoráveis e muito diferentes. Edward Crutchley, David Koma e Nensi Dojaka expressaram, cada um deles, uma moda poderosa com uma perspetiva política, sociológica e estética em desfiles espalhados por toda a capital do Reino Unido. Conhecemos estes três designers radicalmente diferentes, que apresentaram as suas coleções a quilómetros de distância umas das outras.
 

Edward Crutchley - primavera-verão 2022 - prêt-à-porter feminino - Londres - © PixelFormula


Edward Crutchley: Rum, sodomia e Islington



Edward Crutchley começou a tarde com uma peça substancial de história da moda, inspirada na cultura gay de Londres do século XVIII.

O seu programa explicou esta abordagem, citando um artigo do Weekly Journal de 5 de outubro de 1728: "Na noite de domingo passado, um Comissário da Polícia, assistido pelos seus agentes, revistou a casa de Jonathan Muff, vulgo Miss Muff, em Black-Lyon Yard, perto da igreja de Whitechapel, onde prenderam nove Damas do sexo masculino, e entre elas o senhor do lugar. Estes últimos foram entregues à prisão nova na mesma noite, e na segunda-feira de manhã foram levados perante o Juiz Jackson, na Ayliff Street. John Bleak Cawlend foi preso em Newgate, após ter sido acusado sob juramento do abominável pecado da Sodomia".

Isto traduzido em poliéster reciclado e brocado de lurex utilizado em espartilhos, minissaias e vestidos com cauda, casacos de trabalho com logótipo monocromático, body-studded à mão e boxers de seda com impressão de brocado.

"Sabem, eu gosto de ousar um toque de extravagância. Se houver uma forma de encaixar 30 metros e meio de tecido num só look, eu faço-o", riu o designer depois do desfile, que teve lugar no Collins Music Hall, um bizarro bunker de betão em Islington.

Edward Crutchley exaltou esta rica mistura com todo o tipo de breloques e colares dourados, correntes de sado e lenços de gravuras de leopardo. Todos iluminados por lasers. E tudo isto ameaçava cair no burlesco, mas nunca na anarquia visual. Edward pode ser um pouco inclinado demais para a história, mas é um homem alegre por natureza, e os seus conjuntos, quando funcionam, são frequentemente muito belos. Tal como muitas das ideias apresentadas na sexta-feira.

Questionado sobre o seu interesse neste julgamento em particular, eis a resposta do designer: "Penso que vivemos numa época difícil para os gays. Digo isto com sinceridade. Parece-me que o mundo não está necessariamente a avançar numa direção mais benevolente. E penso que temos a responsabilidade de falar, de responder prontamente e de mostrar algo de belo sobre o assunto. A beleza é sempre a coisa mais importante para mim".

"Esse tempo não foi necessariamente mais sombrio. Porque na década de 1720, o número desses lugares em relação à população em geral era igual. Como se houvesse 200 bares gay em Londres em 1970! Então a cultura gay estava realmente viva na altura", continuou Edward Crutchley, cujas últimas fotos publicadas na conta de Instagram mostram-no em calções e T-shirt preta à semelhança de uma estrela de Bollywood, a posar num apartamento de luxo ao estilo Barbican. A anos-luz do seu trabalho principal, como especialista em tecidos ao lado de Kim Jones, para as coleções masculinas da Dior em Paris.

"Parece-me que há um balanço geral para a direita, e penso que isso é sempre perigoso. A cultura gay está sob mais pressão do que em qualquer outra época do século passado", concluiu.
 

David Koma - primavera-verão 2022 - prêt à porter feminino - Londres - Photo: David Koma


David Koma: Glamazones no grande banho



Nas últimas épocas, parecia que David Koma estava estagnado após deixar a ilustre maison de Thierry Mugler. Paris será sempre sua, e agora é a vez de Londres ser conquistada, graças a uma formidável e tumultuosa exibição de uma maneira chique sexy de natação sincronizada.

Tudo isto num cenário fantástico no London Aquatics Centre, um exemplo monumental de arquitetura orgânica em betão, onde os modelos desfilaram em frente a meia dúzia de majestosas pranchas: literalmente caminharam sobre a água, uma vez que a piscina de mergulho tinha sido coberta, neste centro que também tem uma piscina de 50 metros – todas construídas para os Jogos Olímpicos de Londres.

"A ideia de desfilar aqui chegou-me em 2012, na altura dos Jogos Olímpicos de Londres. E depois sou um grande fã de Zaha Hadid. E hoje, os planetas alinharam-se", sorriu David Koma, que se inspirou nas fotografias de Esther Williams, e na coreografia de Busby Berkeley.

As Glamazones de David estavam vestidas com fatos de lycra apertados, saias em balão e mangas de couro curtido, todas embelezadas com cristais. Outras revelaram milhas de pernas bronzeadas sob micro vestidos de noite, vestidos Barbie cortados ou fatos de calças com lantejoulas. Tudo numa paleta apelativa, fluorescente e ultra brilhante. Nem uma só sweat com capuz ou leggings à vista.

Acrescente-se a isto estolas de penas e xailes de marabu, o que resultou num desfile tórrido em pleno paraíso aquático.


Nensi Dojaka - primavera-verão 2022 - prêt-à-porter feminino - Londres - © PixelFormula


Nensi Dojaka: depois de resgatar o 2021 LVMH Prize desfila em Londres



Na semana passada, Nensi Dojaka ganhou o prémio de jovens talentos mais famoso do mundo da moda: o LVMH Prize. Esta sexta-feira, apresentou o seu desfile no arranque da London Fashion Week, e foi o de mais afluência do dia.

Nensi Dojaka, nascida albanesa, foi uma vencedora surpresa do troféu parisiense, embora já tenha havido outros antes dela. É definitivamente uma designer de lingerie experiente com um visual único. Os seus babydolls e soutiens são feitos à medida, e a sua atenção aos detalhes é quase impecável. Também acrescentou aos looks algumas calças bem cortadas, todas elas muito elegantes.

Mas a julgar por esta demonstração, o seu repertório é ainda bastante limitado. A coleção também teria beneficiado muito com um melhor estilo, e uma escolha mais apropriada do local. Realizar um desfile de lingerie no Old Selfridges Hotel, um armazém industrial abandonado com chão de cimento, foi uma péssima ideia para o show íntimo. Não podíamos deixar de nos interrogar se Nensi Dojaka já ouviu falar dos programas Victoria's Secret, Etam ou Rihanna, e se alguma vez viu algum deles?!

Por outro lado, nesta era inclusiva, não havia modelos de tamanho extra, ou seja, Sports Illustrated Amazons. E havia outra lacuna: nenhum grande maioral da LVMH.

Como disse um veterano da moda antiga, amuado na primeira fila: "Se Karl ainda estivesse no júri, será que teria ganho o primeiro prémio?"
 

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