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22 de nov. de 2022
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Marcas portuguesas contra a Black Friday?

Publicado em
22 de nov. de 2022

O lema deste ano da Victoria Handmade é: "Black Friday? Não, Obrigado. Sustentabilidade é o Novo Preto". Se bem que nem todas as marcas portuguesas ditas sustentáveis revelam igual força e atitude. A maioria mantém o silêncio. Em comunicado, a marca portuguesa que aposta na "independência, dignidade e valorização artesanal", promovendo um guarda-roupa feito à mão e com respeito por valores éticos, interroga mesmo: "Se as marcas podem oferecer um preço tão baixo nesse dia, porque é que se paga um valor mais alto no resto do ano?"


A Victoria Handmade é uma das marcas sustentáveis portuguesas que se expressa contra a Black Friday - Victoria Handmade


"Para quem tem negócios, o mês de novembro é um autêntico mês de fé para chegar ao fim deste com a porta aberta ao público. Pois as vendas diminuem em flecha só para, supostamente, subirem num único dia do mês: 25 de novembro", contesta a Victoria Handmade, justificando: "Por isso é que consideramos os descontos uma falta de respeito: ou perante o cliente que está a ser prejudicado nos outros dias do ano, ou perante a empresa que sofre para aceder a descontos não sustentáveis", defende.

Já a Ownever mantém o silêncio, o que acaba por ser também uma forma de não aceitação, afastando-se assim da promoção do consumismo, mormente com o fecho da loja na Black Friday. E dizemos isto porque a marca portuguesa de carteiras de luxo chegou a aumentar os preços em 10% na última Black Friday, com 20% do valor de qualquer venda a reverter para a associação Dress for Success em Portugal. Esta reação à tendência de descontos associada à Black Friday, quis então alertar para o consumismo e ajudar mulheres desfavorecidas a conseguirem uma carreira profissional.

Ao contrário do panorama internacional e a julgar por outras marcas sustentáveis portuguesas, como por exemplo a BÉHEN, a Marita Moreno ou a ISTO., "o silêncio é a alma do negócio" nesta próxima Black Friday, que calha na sexta-feira (25 de novembro). A própria ETIKWAY, incubadora física e online que representa dezenas de marcas e designers portugueses de moda sustentável, não tem uma palavra a dizer sequer nas redes sociais. No mínimo, estranho.

Em contra-corrente, outras como a Manjerica vão na onda, anunciando no caso 40% de desconto em todas as bolsas e não só num dia, mas numa Black Week de 21 a 28 de novembro. Como também a Maria Maleta divulga descontos até 40% numa semana, entre 24 e 30 de novembro, para citarmos algumas.


AFashion Revolution Portugal pede ajuda paralutar contra a cultura do super desconto da moda que conduz ao sobre consumo e ao desperdício - Fashionrevolution.org


A Fashion Revolution Portugal, pede até ajuda com uma doação online para lutar contra a cultura do super desconto da moda que conduz ao sobre consumo e ao desperdício.

Como se pode ler no site da Fashion Revolution Portugal, "a Fashion Revolution está a dizer não às vendas e a explorar as questões de sobreprodução, sobre consumo e desperdício. Pedimos aos cidadãos que tomem uma posição contra o consumo sem sentido, enfrentem a cultura de descarte e exploração da moda e evitem as vendas entre a Black Friday e a Cyber Monday", um alerta publicado em 2021, que se prolonga no tempo.

E desafia mesmo: "Quer evitar as vendas de moda neste fim-de-semana de Black Friday e apoiar outros a fazerem o mesmo? Precisamos de revolucionários da moda em todo o lado para aderir a esta campanha", publica em Fashionrevolution.org.

Não obstante, muitas operações têm tido lugar em todo o mundo no período que antecede a Black Friday para abrir o debate sobre a sobreprodução, e mais amplamente sobre o impacto da moda rápida no ambiente. A ONG Max Havelaar France, em parceria com a própria Fashion Revolution France, estará presente no distrito de Les Halles no dia 25 de novembro para distribuir falsos cupões de desconto a fim de encetar um diálogo com o público sobre a questão da sobreprodução e dos direitos humanos no sector têxtil.

Na app vegan VEOND, por exemplo, Flor Oliveira convida a repensar o consumo e aproveita a data para dar dicas sustentáveis de como consumir com consciência. "Queremos incentivar a práticas que evitam o desperdício e o fomento do descartável (que são a base de uma economia de utilização de recursos naturais que não existirão no futuro!)", pode ler-se em Veonapp.pt, num artigo que conclui: "Esse ciclo tóxico de consumismo precisa de ganhar uma nova direção…", assina Flor.


Flor Oliveira naapp veganVEOND defende que esteciclo tóxico de consumismo precisa de ganhar uma nova direção - Veondapp.pt


Também de acordo com inquéritos recentes, grupos, associações e marcas optaram por unir esforços para sensibilizar o público para o impacto ambiental, promovendo doações a associações, ações de mobilização, e mesmo iniciativas verdes que bloqueiam o dia promocional mais louco do ano.

Entre nós, nestes dias de grande consumo, como seja o fim-de-semana de 26 e 27 de novembro, a ASAS apresenta no Mercado Ferreira Borges do Porto, a 9.ª edição do seu ASAS Weekend, um mercado solidário de Natal com o contributo das empresas têxteis, nomeadamente através da doação de produtos que tenham em stock (vestuário, artigos de têxtil-lar, calçado, acessórios e outros).

O mercado ASAS Weekend também estará patente nos dias 3 a 8 de dezembro ao Club Thyrsense de Santo Tirso, sendo que já se aliaram à iniciativa marcas como a Salsa, Tiffosi, Piubelle, Decenio, Lion of Porches, e empresas do sector têxtil como a Crispim Abreu, Lasa, Riopele, Adalberto e Troficolor. 

Por sua vez, a Escolha do Consumidor realizou um estudo online, para apurar as tendências dos consumidores portugueses e, em conclusão, quase sete em 10 consumidores portugueses (69%) vão aproveitar os descontos da Black Friday este ano e 55% afirma que o fez no ano passado. Isto quer dizer que mais de metade dos portugueses não presta atenção aos esforços de contestação ao consumo desenfreado.

“Atualmente, praticamente todas as marcas aderem à Black Friday, o que alargou o espectro de categorias de produto procuradas pelos consumidores neste dia de promoções. Ainda assim, tradicionalmente este período é aproveitado para comprar produtos que normalmente têm um preço mais elevado ao longo do ano”, comenta José Borralho, CEO da Escolha do Consumidor.
 

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