Marie-Claire Daveu (Kering): "O desenvolvimento sustentável não é mais uma opção para o luxo"

Contratada pela Kering em 2012 para supervisionar a estratégia de desenvolvimento sustentável, Marie-Claire Daveu, diretora de desenvolvimento sustentável e assuntos institucionais internacionais do grupo francês de luxo, explicou para o FashionNetwork.com  o processo, bem como o progresso e os objetivos de sustentabilidade da empresa.


Marie-Claire Daveu - ©Jean-François Robert_modds

FashionNetwork.com: A Kering publicou sua primeira declaração de resultado ambiental em 2015. Em que ponto está o compromisso sustentável do grupo hoje?

Marie-Claire Daveu: Nós lançamos um plano de ação para 2012-2016, que era muito focado no meio ambiente com objetivos quantificados. Mas ele era um pouco curto para mudar as coisas. Com essa experiência, percebemos que uma abordagem mais holística e uma visão de longo prazo eram necessárias. Então, adicionamos a dimensão social ao meio ambiente. Em janeiro de 2017, lançamos nossa nova estratégia que deve ser concluídao em 2025. A cada três anos, vamos fazer um balancete. O primeiro está previsto para o início de 2020. Para enfatizar a importância dessa questão, os membros do comitê executivo do grupo constituem o comitê gestor dessa estratégia.

FNW: Quais são os novos objetivos que foram definidos?

MCD: Os principais objetivos ambientais visam uma redução de 40% da nossa pegada ambiental e 50% das nossas emissões de CO2 até 2025, 95% da rastreabilidade das matérias-primas até o final de 2018, e 100% até o final de 2025. Em paralelo, estabelecemos padrões para as matérias-primas e os processos de fabricação, que foram publicados em nosso site em janeiro. Após dois anos de trabalho, estamos em uma fase piloto de testes para determinados processos e materiais. Todos esses padrões deverão ser 100% aplicados até o final de 2025. Nossa nova estratégia é baseada em três pilares: "Care" para o meio ambiente e os recursos naturais, "Collaborate" para o componente social, e "Create" para tudo o que for relacionado à inovação, um passo fundamental para alcançar nossos objetivos.

FNW: Isto é?

MCD: Através das medidas e projetos que identificamos em termos de fornecimento, por exemplo, de lã sustentável, algodão orgânico, etc. e de processos de produção. Nós sabemos que podemos reduzir com sucesso em 20% a nossa pegada ambiental. Mas isso não será suficiente para alcançar uma redução de 40%. Portanto, teremos que confiar em inovações e tecnologias disruptivas, seja em processos, materiais, entre outros. Em poucos anos, surgirão incríveis inovações, que ainda não foram inventadas e cujo escopo ainda não pode ser imaginado. Esse é o desafio!

FNW: Como você planeja enfrentar esse desafio?

MCD: É preciso ter uma abordagem empreendedora, permanecendo aberto e ouvindo as inúmeras iniciativas que estão surgindo em todos os lugares. E então é preciso testar, ver se funciona. Daí a importância de investir nessa frente. Em 2015, investimos com a H&M na start-up Worn Again, que descobriu como decompor os tecidos de roupas de fibras mistas e separar corantes e outros contaminantes de poliéster e celulose. Em 2017, fizemos uma parceria com a aceleradora de start-up Fashion for Good/Plug and Play. Como tingir com microorganismos, por exemplo? Ou, como criar uma imitação de couro no laboratório? São muitas ideias que demandam um grande esforço de investimento.

FNW: O desenvolvimento sustentável representa um custo. Como são esses investimentos?

MCD: O que você considera um custo para nós é um investimento. O desenvolvimento sustentável não é mais uma opção para o luxo. Se quisermos continuar nossos negócios, não temos escolha. É preciso ter uma estratégia sustentável em todas as frentes. No entanto, para esse tema, não é possível ter uma abordagem clássica em relação à lucratividade. Em termos de redução de energia, o retorno sobre o investimento é facilmente quantificável. Mas para os outros parâmetros, isso é difícil. Pode acontecer de investir em uma nova tecnologia ou em uma start-up que não vai funcionar.

FNW: Quais são os últimos projetos que você desenvolveu relacionados à sustentabilidade?

MCD: Este ano, desenvolvemos com o London College of Fashion o primeiro curso on-line dedicado ao luxo sustentável, o Massive Open Online Course (MOOC). Ele tem seis semanas de duração e é aberto gratuitamente a todos. A primeira turma aconteceu em abril e teve mais de 10.000 inscritos de 144 países! Nós não esperávamos tal sucesso. A segunda sessão vai começar em breve, em outubro.

FNW: A pressão das redes sociais sobre as grifes é sempre mais forte em questões éticas. O que você acha disso?

MCD: As redes sociais têm um efeito benéfico duplo. Por um lado, elas têm um lado educacional ao compartilhar informações de maneira acessível e simples e, por outro lado, elas denunciam o mau comportamento. Se uma marca não é genuína ou faz greenwashing, isso se volta imediatamente contra ela. Para mim, isso é positivo e importante. Os consumidores têm sua responsabilidade.

FNW: Os políticos, por outro lado, parecem ainda estar fugindo desses tópicos...

MCD: A sociedade evolui rapidamente. Quanto ao desenvolvimento sustentável, todos têm suas responsabilidades e não adianta colocar um contra o outro. Das políticas para os consumidores, passando pela mídia e os líderes empresariais. As empresas também têm sua responsabilidade e impacto. Todos devem agir.

FNW: Ultimamente, o debate em relação aos animais foi ampliado. O que você está fazendo a respeito deste assunto?

MCD: Quando eu falava sobre o bem-estar animal em 2012, por exemplo do python, isso não era levado à sério. Hoje, as mentalidades evoluíram. Este é um assunto no qual a Kering quer atuar e ter liderança. Nós redigimos em nossos "Kering standards” os processos desejáveis de criação de cada espécie, e também definimos os padrões para a extração na natureza e para os abates. Esses padrões em relação aos animais, que vão além da regulamentação, devem ser divulgados no primeiro semestre de 2019.

FNW: Deve ser complicado colocar em prática visto a quantidade de fornecedores?

MCD: Tivemos inúmeras reuniões com fornecedores, curtumes, etc. Eu sinto que há uma conscientização cada vez maior em relação à esses assuntos. Mas eles precisam de um acompanhamento e treinamento sobre essas questões. Da nossa parte, existe uma verdadeira noção de parceria com nossos fornecedores.

FNW: O público também parece mais sensível às questões ambientais. Você já percebeu um senso de urgência sobre esse assunto?

MCD: O senso de urgência está presente. Mas isso não é novidade na Kering. É claro que, em 2012, o eco não foi o mesmo. Isso está afetando mais a sociedade hoje em dia. O público sente na pele as mudanças climáticas. Para a biodiversidade, é mais difícil, mas crucial. Devemos agir de forma rápida, concreta e operacional.
 

Traduzido por Novello Dariella

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