México e Turquia podem ser a nova China

Através da China, as cadeias de aprovisionamento mundiais da moda vivem a um ritmo denso e rápido. O país asiático é, de longe, o maior exportador de vestuário do mundo. A posição foi conquistada por ser um fornecedor rápido, confiável, barato e por, durante décadas, oferecer a grandes marcas a opção com melhor custo/beneficio para fabricar roupa. No entanto, as mudanças que se fazem sentir na China, e também na moda, podem redesenhar o mapa de produção mundial de vestuário.



Um novo relatório da consultora McKinsey & Company, denominado “Is Apparel Manufacturing Coming Home?”, revela que o aumento dos custos na China e a necessidade de as marcas de moda apresentarem produtos mais rápidos do que nunca estão a fazer com que haja um maior custo/benefício para as marcas ocidentais produzirem as suas roupas em países de baixo custo mais próximos. Para marcas que vendem nos EUA o destino poderá ser o México, enquanto a Turquia emergiu como um destino fundamental para as marcas que vendem na Europa.

Em 2005, os custos da mão-de-obra na China representavam cerca de um décimo dos custos laborais nos EUA, de acordo com a McKinsey. Atualmente, correspondem a cerca de um terço. A subida fez com que a mão de obra em países nearshore não seja tão dispendiosa como na China, ou que chegue mesmo até a ser mais barata, refere o relatório.

Acrescentando o que se poupa nos transportes e nas taxas em países mais próximos, o nearshoring – sourcing de proximidade – torna-se um negócio ainda mais apelativo. A consultora calculou o custo de produzir uns jeans básicos e importá-los, para os EUA ou para a Alemanha, fabricando-os e expedindo-os da China, como termo de comparação. Para fazer o mesmo par de jeans no México e importá-lo para os EUA custaria menos 12%. Para uma empresa que queira importar os seus jeans para a Alemanha, a Turquia seria 3% mais barata do que a China.

Na verdade, estas não seriam as opções mais baratas: produzir no Bangladesh custa menos 20% do que na China. Mas a Turquia e o México têm a vantagem de terem tempos mais curtos de produção, de apenas uns dias, em comparação com um mês inteiro, se a marca produzir na China ou no Bangladesh. Tempos mais curtos de produção trazem vários benefícios, criando valor económico acrescentado, como se pode ler no relatório.

À medida que uma empresa consegue colocar os produtos nas lojas mais rapidamente, poderá testar e escalar mais estilos. A empresa poderá ainda aumentar os volumes e as taxas de sell-through, reduzir os volumes de inventário e diminuir o enfraquecimento da marca que normalmente resulta dos saldos e liquidações.

As economias nearshoring tornaram-se, deste modo, mais atrativas, quando se considera as taxas mais altas de sell-through que o modelo de moda rápida possibilita. A análise da McKinsey sugere que um aumento de 5 pontos percentuais nas taxas sell-through compensariam os custos laborais mais altos. Os custos estão a igualar-se, até mesmo em países de baixo custo, como o Bangladesh, para mercados nearshore.

O cenário torna-se ainda mais positivo quando se acrescenta a componente da automação. Há um desfasamento da moda em relação a outras indústrias na implementação da produção automatizada, mas as empresas estão a começar a abraçar novas tecnologias, para acelerar o processo. A consultora, na análise, assumiu um cenário hipotético, onde a maioria das tecnologias atualmente em desenvolvimento estão implementadas e trabalhou com a RWTH Aachen University, na Alemanha, e o Digital Capability Center, também em Aachen, para calcular a poupança no tempo e na mão de obra para a produção de um par de jeans.

Com base nos cálculos da McKinsey, para produzir um par de jeans na China com automação e importando-o para os EUA, o custo final seria de 11,40 dólares, ou seja, 9,99 euros. Mas para os produzir no México com automação e importando-os para os EUA o custo seria de cerca e 10 dólares, ou seja, 8,76 euros, considerando ainda os benefícios de um tempo de resposta mais curto.

Nem tudo é tão simples

Karl-Hendrik Magnus, partner na McKinsey e especialista na indústria do vestuário, apresentou o estúdio numa cimeira organizada pelo Sourcing Journal, um meio de comunicação do ramo focado na cadeia de aprovisionamento da moda. No painel com Magnus esteva Colin Browne, CEO da Under Armour. «Não acredito em toda este efeito de borboletas e unicórnios. Não vai mudar tudo de um dia para o outro», assegurou.

Contudo, os especialistas concordaram que estas mudanças estão a chegar e, até a um certo ponto, já começaram. Apenas vão demorar algum tempo a implementar-se. Em primeiro lugar, a China construiu uma infraestrutura de produção e conta com uma capacidade produtiva que outros países simplesmente não conseguem igualar. Algumas marcas já estão a mudar parte da sua produção para países mais próximos, mas uma mudança em grande escala poderá não ser possível até que esses países consigam construir fábricas com capacidade de lidar com mais volume de trabalho.

O maior entrave, todavia, não está entre os fornecedores que cosem os produtos finais, mas sim nos fornecedores de “nível 2”, que fazem os próprios tecidos. A grande parte desse trabalho é feito, atualmente, na Ásia, particularmente na China, especialmente nos tecidos técnicos, como os que as marcas desportivas usam. As empresas poderão querer produzir o vestuário no México ou na Turquia, mas têm que comprar os materiais na China e importá-los. Com os custos de transporte e taxas que isso representa, muitas marcas ocidentais vão provavelmente manter a sua produção na Ásia, em vez de a mudar para um país mais próximo. «Do ponto de vista da Under Armour, devido aos materiais técnicos que usamos na maioria do nosso vestuário, a não ser que tenhamos dois fornecedores realmente bons de “nível 2” na região, torna-se muito difícil mudar», admitiu Browne.

Quanto à automação, Erika Swan, vice-presidente da Reebok para operações de produtos, realçou que os gigantes produtores asiáticos não estão parados, mas sim a investir fortemente na automação para se manterem competitivos, à medida que os custos da mão de obra aumentam. É possível que a produção passe por uma grande mudança nos próximos anos, mas não será algo certo, afirmou Swan.

O relatório refere que os processos básicos ainda não podem ser totalmente automatizados. Isso inclui costurar, que não é o processo mais intensivo na produção de vestuário. Os processos de produção mais intensivos, em países offshore, garante o relatório, «não vão sair tão cedo».

A pressão está a aumentar

Apesar de tudo, vários fatores estão a obrigar as marcas de vestuário e calçado a olhar para fora da China e para mais próximo de casa para deslocar a produção. Um dos fatores mais importantes é guerra comercial entre os EUA e a China. «Acho que é esse fator que realmente acelera todas as conversações», apontou Erika Swan na cimeira. Os especialistas não acreditam numa resolução rápida nos próximos tempos e a indústria está a aceitar a ideia de que as tarifas que os EUA estão a colocar sob os produtos importados da China vão permanecer a longo prazo.

Em geral, num mercado altamente concorrencial, que divide cada vez mais vencedores e perdedores, uma cadeia de aprovisionamento rápida e flexível é cada vez mais uma vantagem porque permite às marcas responder mais rapidamente às necessidades e exigências atuais e aos consumidores capacitados pela Internet. É por isso que marcas como a Nike, a Adidas ou a Levi’s estão a mudar a forma como fazem a sua produção e a investir em pontos como automação, mudando a sua produção para países mais próximos.

Fundamentalmente, a questão não é se a produção de vestuário se irá mudar da China para mercados mais próximos do Ocidente, mas sim sobre quando e quanto a cadeia de aprovisionamento irá mudar a sua rota.

Copyright © 2018 Portugal Têxtil. Todos os direitos reservados.

Moda - Pronto-a-vestirIndústria
SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER