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Modesto Lomba (ACME): "Espanha é o país onde se definem as tendências de consumo de massa"

Traduzido por
Estela Ataíde
Publicado em
today 22 de mar de 2018
Tempo de leitura
access_time 5 Minutos
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Falar da indústria espanhola da moda em perspetiva exige sinceridade combinada com história e experiência, honestidade na autocrítica e altas doses de reivindicação para defender o lugar de um setor que representa 2,9% do PIB do país. Coincidindo com a quarta edição do evento organizado pela Associação de Criadores de Moda de Espanha (ACME) para promover a moda espanhola durante a fashion week de Paris, o seu presidente, Modesto Lomba, reflete sobre a criação e a fast fashion como ativos da indústria e o lugar que esta ocupa internacionalmente, bem como o apoio das instituições e as chaves de um setor para o qual alguns ainda não tomaram as medidas certas.
 

Modesto Lomba, presidente da Associação de Criadores de Moda de Espanha - ACME


FashionNetwork.com: Que avaliação faria da moda espanhola atualmente?
 
Modesto Lomba: Neste momento, Espanha é o país onde se definem as tendências do grande consumo, embora nós os espanhóis não sejamos muito dados a falar bem de nós mesmos. Depois da Alta Costura e do prêt-à-porter, estamos a viver o reinado da fast fashion. As grandes empresas espanholas, com o grupo Inditex na liderança, preparam as tendências do grande consumo. Somos um país muito criativo, com um grande número de designers diversificados e altamente qualificados. Depois de França, como representante do luxo e da Alta Costura, e de Itália com o prêt-à-porter, Espanha seria o terceiro eixo com a sua fast fashion.

FNW: A rainha Isabel II a assistir ao desfile de Richard Quinn na Semana de Moda de Londres, o presidente Emmanuel Macron a convidar uma centena de personalidades do setor para o Eliseu... Que avaliação merece o apoio das instituições espanholas à moda?
 
ML:
Sinto-me muito ciumento, no sentido positivo, quando leio essas notícias. A notícia da rainha de Inglaterra a assistir a um desfile permite reconhecer a importância do setor na indústria inglesa e a fashion week como ferramenta fundamental.
 
Nós não temos essa audácia, apesar de sermos um país mais jovem, com uma Casa Real mais dinâmica. Falta-nos o reconhecimento de um número fundamental: 2,9% do PIB espanhol vem da moda, com o que isso significa em postos de trabalho. E, se as instituições do nosso país, seja a Casa Real ou o Governo, não entenderam isto, já estamos mal. Eu adoraria que fosse reconhecida a devida importância à moda, com o que nos torna competitivos e com as nossas riquezas culturais, que nos permitem ter uma identidade e uma presença sólida nos mercados internacionais.

FNW: Qual seria a forma mais apropriada de focar os meios de comunicação na moda espanhola?

ML: Muitos meios de comunicação enganam-se no momento de falar dos nossos criadores, porque não os consideram uma grande potência económica para o setor, mas devemos contemplar o conjunto da moda espanhola como 2,9% do PIB espanhol.
 
Falta-nos uma implicação de país para valorizar todo um setor. Mantê-lo atualizado não será fácil se não tomarmos decisões suficientemente sérias. 

FNW: Qual seria a estratégia para Espanha conquistar um lugar no calendário das semanas de moda, até agora dominado pelas quatro grandes capitais?
 
ML: As datas e o calendário internacional não são fáceis para Madrid, Barcelona ou Londres. É complicado conseguir uma colocação. Nós mudámos as nossas datas para desacelerar o crescimento de Londres e um possível impacto negativo. Será necessário repensar nas próximas edições se agimos corretamente ou se é necessário continuar a fazer adaptações. O afrouxamento de outras fashion weeks também nos pode permitir uma melhor colocação no calendário. 

Modelos de Andrés Sardá e Custo Barcelona na residência do embaixador espanhol em Paris - ACME


FNW: Os ritmos aceleram, o see-now buy-now impõe-se como modelo e a fast fashion eleva-se como valor fundamental da moda espanhola. Até onde pode a indústria continuar a acelerar?
 
ML: Os tempos mudaram e a crise acelerou as mudanças na forma como nos relacionamos, compramos e percebemos as mensagens que vêm do consumo. O discurso do designer evoluiu com a fast fashion. Agora, falamos sobre a identidade própria da marca, de personalidade e já não tanto das próprias tendências. Atualmente, são criadas pelo grupo Inditex, que é quem posiciona a moda nas capitais mais importantes do mundo.

FNW: Qual é a compatibilidade da figura do autor com a ambição de grande distribuição em determinadas empresas de moda espanholas?
 
ML: O desenvolvimento empresarial de uma marca de autor não é fácil, que o diga a Armani. Nós não só propomos uma variedade de estilos, como modelos de negócio diferentes, com formatos como o de Hannibal Laguna, com um conceito de luxo premium contra Angel Schlesser, Roberto Verino ou Adolfo Dominguez, com um prêt-à-porter muito mais desenvolvido industrialmente; assim como criadores com mais identidade do sul de Espanha, como Juana Martín ou modelos como o da Devota & Lomba, com uma coleção premium e outras de grande consumo.
 
FNW: O relatório de 2017 da ACME, "O design da moda espanhola em números", indica que as vendas pela internet representam 3,1% do volume de negócios total, que ascende a 405 milhões de euros. O comércio eletrónico é um assunto pendente?

ML: Os nossos grandes grupos estão a fazê-lo muito bem, como a Inditex. Acredito que é um modelo mais válido para o modelo de desenvolvimento maciço, pensando, por exemplo, que certos fatos serão produtos fáceis de vender através do canal online. É uma boa ferramenta para comunicação e de apresentação do produto, mas uma coleção premium requer um tratamento especial, que não lhe será dado na grande indústria.

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