PICASSo tinge com cores da natureza

Depois do sucesso do Algo.Natur, que deu origem à marca Colorau, os investigadores do CeNTI estão a ir mais longe e a explorar o potencial de plantas e cogumelos para alargar a paleta de cores e a incorporação de funcionalidades à disposição da especialista em tingimento Tintex.


Coordenado pela Tintex e tendo como parceiros o CeNTI, o Citeve, a Ervital e a Bioinvitro, o PICASSo é a continuação do Algo.Natur, um projeto anterior (desenvolvido entre novembro de 2013 e junho de 2015) que resultou em produtos biocoloridos com extratos naturais, agregados sob a marca Colorau.

«Esta primeira abordagem com o projeto Algo.Natur serviu para desbravar caminho e dar um primeiro contacto com o utilizador mais consciente», afirmou Diana Sousa, investigadora do CeNTI, num artigo publicado na edição de outubro do Jornal Têxtil.

Em termos práticos, os substratos têxteis coloridos através do processo Algo.Natur permitiram diminuir em 15% o tempo de operação, em 15% o consumo de energia, em 17% o consumo de água, em 41% o consumo de gás natural, em 85% o consumo de produtos químicos auxiliares, em 17% o efluente produzido, em 24% as emissões para o ar e em 18% as emissões para a água – isto em comparação com os processos de tingimento convencionais.

Ir mais longe

O PICASSo tem, contudo, objetivos «muito mais ambiciosos», assumiu Diana Sousa. «Um dos objetivos mais interessantes e que se diferencia um bocadinho do Algo.Natur é, sem dúvida, a utilização de cogumelos, porque no primeiro projeto utilizamos apenas extratos de plantas e, neste projeto, estamos também a utilizar extratos de cogumelos. E para além do processo de geração de cor, queremos obter outras funcionalidades intrínsecas, quer às plantas quer aos cogumelos. Falamos, nomeadamente, de propriedade antioxidantes e antimicrobianas, ou seja, propriedades que vão acrescentar valor a um têxtil que já tem um valor natural e ecológico muito grande. Esta combinação de propriedades é mesmo o ponto chave deste produto», reconhece a investigadora.

Atualmente, o CeNTI – que tem vários projetos em curso  – está a trabalhar na extração dos compósitos, tanto dos que têm potencial corante como também os com potencial funcional. «A Ervital fornece as plantas e a Bioinvitro fornece os cogumelos. O trabalho do CeNTI passa por fazer uma extração ecossustentável – entenda-se em meio aquoso, essencialmente, com baixas temperaturas – para extrair os compósitos de interesse quer para cor, quer para funcionalidade. Ou seja, temos que adaptar os métodos de extração para termos cor interessante e para depois também conseguirmos ter aqui algum valor antioxidante e antimicrobiano para depois introduzir nos têxteis», explicou Diana Sousa.

No total, estão em análise cerca de 60 espécies de plantas e 15 espécies de cogumelos. «A primeira triagem passou por excluir, numa primeira fase, aqueles compostos que não obtinham cores interessantes. E nesta primeira triagem, das 60 plantas ficamos com cerca de 15. Na parte dos cogumelos ficamos com três a quatro espécies», apontou a investigadora que, no entanto, sublinhou que «este projeto não vai tendo pontos finais, vai tendo vírgulas porque, após a primeira extração, para saber que tipo de extratos é que poderia fornecer cor, temos que tentar perceber se alguns extratos que foram descartados inicialmente poderão ter um potencial antioxidante ou antimicrobiano».

O projeto, referiu, «funciona muito num ciclo, ou seja, o CeNTI começa pela extração, é feita a aplicação e implementação no têxtil a uma escala semi-industrial pelo Citeve e, depois, a Tintex faz a sua aplicação industrialmente. Em todas estas etapas é avaliada a performance do têxtil».

Mais opções de cor

À paleta de beges e castanhos conseguidos com o Algo.Natur, a investigação está a chegar a outros tons, como salmão, verde vivo e laranjas mais intensos, e com bons resultados nos testes de solidez de cor.

No caso das funcionalidades, a investigação está ainda no início, sem resultados confirmados por testes. «Ainda não estamos a validar os têxteis nesse sentido, ainda é muito cedo. A validação das atividades funcionais vai passar por extensos testes de solidez, nomeadamente, o da exposição solar e da lavagem», revelou a investigadora ao Jornal Têxtil.

A pertinência do projeto para a indústria têxtil, contudo, já não deixa dúvidas. «Faz todo o sentido um projeto que vá de encontro a estas necessidades, isto é, que cumpra os requisitos que o consumidor pretende, neste caso, um têxtil que seja confortável, que seja bonito, mas que combine o design e o conforto com um processo ecossustentável, ecológico e economicamente viável. Acho que temos todos a ganhar em ter um processo que combine menos recursos – naturais e também monetários – que acaba por ter um produto muito mais seguro para o ambiente e para o utilizador», acredita Diana Sousa.

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