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Helena OSORIO
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12 de jul. de 2021
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Paris Haute Couture Week: Maison Margiela Artisanal; Elie Saab e Julie de Libran

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Helena OSORIO
Publicado em
12 de jul. de 2021

O mundo inteiro é um teatro, mas nenhuma cena é mais diversificada do que a da Alta Costura parisiense. Na última Paris Haute Couture Week (PHCW) encontramos um designer nascido em Gibraltar que desenha para uma maison belga, um mestre libanês que sonha com padrões florais e uma jovial francesa que, inspirada na moda por uma avó madrinha, supervisiona estudantes, permitindo-lhes trabalhar numa coleção real para o calendário oficial da PHCW. Três designers que são opostos em todos os sentidos, mas que apresentam a sua Alta Costura em Paris, nos Champs-Élysées, em Saint-Germain-des-Prés ou a partir de Beirute. Por outras palavras, vejamos as coleções de John Galliano para a Maison Margiela Artisanal, Elie Saab e Julie de Libran.

A Folk Horror Tale | Maison Margiela ‘Artisanal’ 2021 Collection


Maison Margiela Artisanal: as senhoras desconstruídas de Daphné du Maurier



Por vezes, a atmosfera evocava mais os romances da escritora inglesa Daphné du Maurier do que o universo da Maison Margiela, neste filme revelado por John Galliano num cinema dos Champs-Élysées.
 
O designer de moda britânico não poupou meios, convidando o cineasta francês Olivier Dahan a fazer este filme de moda, o mais longo de sempre exibido até à data. O realizador, famoso pelos seus filmes biográficos La Môme (2007) e Grace of Monaco (2014), assinou aqui uma bela peça cinematográfica, intitulada A Folk Horror Tale (Um Conto Popular de Terror), no tom das obras de Daphné du Maurier descritas como "temperamentais e ressonantes" com tons de paranormal.
 
Uma história sombria, que tem lugar numa aldeia situada no topo de um penhasco a desmoronar-se no mar, enquanto dezenas de belos pescadores e suas mulheres vagueiam pela costa. Para compreender a atmosfera, pense em desconstruir as obras de Daphné du Maurier, Rebecca (1938) – o romance de maior repercussão da escritora britânica, estrelado em filme por Alfred Hitchcock, o que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme do Ano de 1940 – e Frenchman's Creek (1941) – romance histórico passado na Cornualha, durante o reinado de Carlos II, entre uma nobre inglesa e um pirata francês.
 
A longa-metragem propriamente dita  que dura 70 minutos, sem diálogo  abre com um comentário explicativo de John Galliano sobre as suas ideias e técnicas. O filme é intercalado com numerosas imagens do designer britânico, filho de pai gibraltino e de mãe espanhola, a desenvolver o plano de pesquisa e a discutir as opções com a sua equipa no atelier da Maison Margiela, no 19.º arrondissement de Paris.


Maison Margiela Artisanal 2021 - Foto: Cortesia da Maison Margiela


Entre as melhores ideias de John Galliano está o uso inesquecível de motivos da cerâmica de Delft para criar impressões de retalhos etéreos. O outro grande projeto  nesta coleção idealizada pelo designer nascido em Gibraltar e criado em Londres  foi o da reciclagem, particularmente de ganga: rasgar, descascar ou desenraizar bolsos, antes de atirar o lote inteiro para máquinas de tingir gigantescas. Os tecidos resultantes foram então cortados para criar fatos fantásticos e dramáticos inspirados na Restauração: imensos vestidos, babydolls sensuais e casacos acolchoados, usados por jovens que se assemelhavam a frequentadoras regulares de bares de marinheiros.

Mas o seu traje mais memorável foi um simples vestido de bainha forrada com cacos de vidro, tão cheio de fendas e bordado com espigões, que mais parecia cravejado de uma espécie de algas venenosas. Depois de avistar um galeão pirata a avançar através do nevoeiro, o nosso jovem herói descobre uma coroa de vidro a condizer que, por nenhuma razão óbvia, a ostenta de forma difusa antes de a enterrar.
 
Outros modelos brotam árvores integrais da sua boca e alguns entram mesmo em pânico quando paredes inteiras se transformam em sangue borbulhante. No momento final, um bacanal de druidas forma-se e os aldeões observam o chefe do clã a flutuar no horizonte, boiando sobre uma pira funerária em chamas. Um ritual celta.
 
Esta foi uma proposta imaginativa, inventiva e provocadora, como são todas as coleções de John Galliano, mas apresentada de forma demasiado longa, mesmo pretensiosa, o que resultou em tudo menos intrigante, como qualquer romance de Daphné du Maurier (ou adaptação cinematográfica)...

ELIE SAAB Haute Couture Fall/Winter 2021-2022 I Digital Presentation


Elie Saab: rebentos de esperança enviados de Beirute



A esperança é eterna, mesmo nos tempos mais difíceis: esta acaba por ser a mensagem que Elie Saab quis transmitir nesta estação.
 
Durante a maior parte da pandemia, o costureiro permaneceu no Líbano natal durante um dos períodos mais conturbados da sua história, criando beleza embora o centro da capital tenha sido transformado num campo de ruínas há 10 meses por uma grande explosão de nitrato de amónio no porto vizinho.
 
Por isso, Saab intitulou a sua coleção Buds of Hope (ou Rebentos de Esperança), apresentando-a através de um vídeo filmado no estúdio. O clip abre nos bastidores imaginativos de um desfile de moda, no qual modelos esbeltas se riem e conversam, ostentando vestidos florais de baile, festivas e descalças.
 
Depois, a ação desloca-se para um estúdio delimitado por uma colunata, iluminado pela luz do dia, ideal para apreciar os bordados transparentes, obras-primas da equipa cuidadosamente selecionadas pelo próprio Elie Saab.
 
"Estamos todos à espera que a primavera desabroche novamente no nosso mundo. É uma questão de tempo. Foi por isso que orvalhei a coleção com tantas pétalas e flores", explicou o designer libanês durante uma chamada de Zoom na qual nos respondeu a partir do atelier.
 
Mesmo quando um vestido consistia em simples painéis de crepe da China em marfim, era decorado com peónias de chiffon, rosas de tecido e pétalas de tule. "Eu queria transmitir uma certa ideia de volume, razão pela qual estas penas foram tratadas como pétalas de rosa, depois delicadamente bordadas", acrescentou Elie Saab, que nos tem vindo a surpreender desde sempre.


Elie Saab - Alta Costura - outono-inverno 2021/22 - Foto: Cortesia de Elie Saab


O costureiro fenício optou por montar várias crinolinas reforçadas com leves armações internas para melhor suportar a sua visão. Tudo revelado através de um filme de moda poético, realizado por Felipe Sanguinetti, o fotógrafo e cineasta natural de Buenos Aires radicado em Paris.
 
Uma certa ideia de moda, clássica e moderna, que resulta em roupas que exigem uma grande ocasião, sejam destinadas para um bom casamento da sociedade, para um baile elegante ou para uma passeata pelo tapete vermelho. O ponto alto foi um soberbo vestido de noiva salpicado com cristais verde lima, que deve agradar às princesas do mundo inteiro.
 
Trata-se de uma coleção que contrasta fortemente com as dificuldades que o Líbano enfrenta atualmente. "Politica e financeiramente é muito difícil viver em Beirute. Mas temos de reconstruir e vamos fazê-lo", assegurou o orgulhoso e fabuloso designer libanês.
 
Tal como muitos designers internacionais, Elie Saab ainda não tem a certeza se será capaz de apresentar o seu pronto-a-vestir durante a época parisiense em outubro: poderá ter mesmo de abdicar do seu espaço no calendário oficial.
 
"Tenho muitas saudades de Paris. Parte-me o coração", suspirou. "Eu queria ir, mas prefiro adiar o meu regresso para janeiro. Por causa da variante Delta, tudo pode voltar a tornar-se instável muito rapidamente".

Julie de Libran: Couture Collection July 21’


Julie de Libran: herança de avós e madrinhas



É sempre bom ver uma designer talentosa a retribuir o favor. Caso em questão: Julie de Libran, a padroeira do departamento de Design de Moda do Istituto Marangoni, a filial parisiense da famosa escola de moda italiana.
 
Em colaboração com os estudantes que orienta, reutilizou e reinventou vários modelos e princípios da sua primeira coleção para criar uma nova, que foi revelada no jardim do seu apartamento modernista em Saint-Germain-des-Prés.
 
Enquanto as modelos caminhavam pela passerelle, Julie de Libran fez destacar um vestido em crepe preto, um modelo retirado da sua primeira coleção, reinventado com um colarinho multicamadas, e concebido na oficina da escola pelos discentes.
 
"Queria que os meus alunos aprendessem a dominar a disciplina e a descobrir a beleza da Alta Costura. Esta época tem a ver com a celebração das competências com que temos muita sorte em poder contar, aqui em Paris. Mas também a herança da minha avó", explicou melhor Julie de Libran.


Julie de Libran - Alta Costura - outono-inverno 2021/2022 - Foto: Cortesia de Julie de Libran


A estilista especializada – natural da Provence – também se aventurou a norte de Paris, no novo paraíso dos especialistas em Alta Costura, o 19M, onde mais de uma dúzia de empresas artesanais pertencentes à Chanel colocaram o seu know-how ao serviço dos estilistas, sejam estes independentes ou parte de grandes marcas internacionais.
 
Como a magnífica renda de seda retirada do guarda-roupa da avó de Julie de Libran, guardada entre as páginas de um jornal de 1964. A designer cortou, bordou e remontou-a para fazer um soberbo vestido de noite. O trabalho foi feito à mão na Paloma, a oficina de Alta Costura concentrada no novo centro 19M. Ou como a fabulosa túnica de seda bege adornada com renda e lantejoulas douradas de outra empresa do 19M, a Maison Lesage.
 
"Eu praticamente vivo no 19M", confessou Julie de Libran. E em Marangoni, é claro.
 

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