Portugal Fashion enfrenta o inverno

Três dias, 25 mil pessoas e 27 desfiles – alguns deles duplos –, resumida a números, a passagem do Portugal Fashion pelo Parque da Cidade do Porto fica assim. Mas, na verdade, entre regressos e aniversários, estreias e boas-novas que prolongam o certame para lá da passerelle, há muito mais a dizer.

Lion of Porches

Depois de um dia dedicado ao talento emergente e ao inverno em Júlio Torcato e Anabela Baldaque, o Portugal Fashion cumpriu mais dois dias de calendário no Parque da Cidade do Porto. A chuva e o vento forte trazidos pela depressão Hugo ainda fizeram várias ameaças à megaestrutura erguida, mas não as cumpriram e a organização suspirou de alívio.

Saltar sem rede

Sexta-feira começou a contar-se com o salto sem rede dado pelos jovens designers David Catalán e Inês Torcato. Os dois transitaram da passerelle do espaço Bloom dedicada ao talento emergente para a passerelle principal do Portugal Fashion e estiveram à
altura das expectativas.

Inês Torcato fez desfilar “Self-Portrait (Touch)” no Porto, depois de a ter desvendado na Alta Roma, em Itália, há dois meses, mostrando ao público nacional novas técnicas, como as lãs executadas à mão e por si pintadas e, em estreia, os estampados, fruto de uma parceria com a escritora e letrista Regina Guimarães.

«Gosto muito de trabalhar os clássicos, não só o tipo de peças, mas também o tipo de materiais e padrões. Porém, nesta coleção, tenho algumas coisas que são novidade, como as poliamidas», revelou ao Portugal Têxtil.

Voltar ao lugar onde se foi feliz

A edição dedicada ao outono-inverno 2018/2019 ficou também marcada por duas importantes reentradas no calendário de desfiles, a Meam e a Concreto, que encararem a passerelle do Portugal Fashion como rampa de lançamento para a internacionalização.

«Em Portugal, o Portugal Fashion é a maior montra de moda e faz todo o sentido, quando se quer internacionalizar, fazer uma coleção que encaixe e seja mostrada no Portugal Fashion», afirmou Cristina Maia, brand manager da Meam, sublinhando a coleção «muito versátil», perfeitamente adaptável a vários momentos do quotidiano.

Teresa Marques Pereira, diretora da Concreto, concordou sobre a importância do evento para a expressão internacional da marca.

«Para nós, é de vital importância [participar no Portugal Fashion], porque fizemos uma viragem na marca e transformamos um bocadinho a Concreto, o estigma que ela tinha de ser uma coleção muito jovem. Fizemos, também, uma abordagem ao mercado internacional e, neste momento, vendemos 80% da produção além-fronteiras», explicou, apontando Itália como principal mercado de exportação da Concreto.

Parabéns a você, nesta data querida

Entre os gritos de independência dos ex-bloomers e os regressos das marcas, no fim de semana, a fileira moda nacional reuniu-se à volta da passerelle do Portugal Fashion para diferentes momentos de celebração.

A noite de sexta-feira, segundo dia de desfiles no Parque da Cidade do Porto, fechou com Miguel Vieira, que tem vindo a celebrar os 30 anos da marca epónima. Para a próxima estação fria, o designer regressado da semana de moda masculina de Milão convidou a assistência para um concerto de rock, com uma coleção pintada de preto caviar, azul marinho e verde azeitona, marcada pelos ombros exagerados e silhueta vincada. «Sou muito bem tratado pelo meu público, pelo Portugal Fashion, pela moda nacional e pelos media. Acho que, ao longo da minha vida, fui sempre muito grato e agora estou a recolher os frutos», confessou.

Cinco anos depois da marca epónima do designer de São João da Madeira ter entrado no mercado, chegava a Ana Sousa, que na passerelle do Portugal Fashion comemorou os 25 anos com 72 coordenados.

«A minha inspiração foi o mundo, o mundo em que vivemos hoje. Como trabalho para todo o mundo, quis passar essa mensagem», revelou Ana Sousa.

Retirando, de novo, cinco anos, também Nuno Baltazar fez a festa em passerelle e soprou as velas aos 20 anos de “trabalho”. «Não gosto da palavra carreira», exprimiu o designer que se prepara para lançar a loja online, em junho, e inaugurar o novo ponto de vendas na Rua do Bolhão, Porto, já em abril.

«Quando estava a preparar a mudança de loja tive de recuperar todo o meu percurso, ir ao início. Aí percebi que existem elementos recorrentes no meu trabalho, que queria mostrar de forma diferente», destacou sobre as propostas de “Studio”, que teve diferentes pontos de contacto com o processo criativo da pintora Paula Rego.

A marca epónima de Luís Onofre atingiu, este ano, a maioridade e, para assinalar a data – não tão redonda como a dos seus colegas, mas não menos importante – o designer apresentou um alinhamento, para homem e senhora, motivado pelas décadas de 1950 e 70.

Rivalizando com Luís Onofre no entusiasmo demonstrado pela ala feminina durante o desfile, em ano de celebração de uma década dedicada à moda, Diogo Miranda olhou mais atentamente para um cristal de um candelabro de família que tem no seu atelier, em Felgueiras, para criar peças com uma silhueta «mais austera, sem perder o ADN da marca».

Não deixe para amanha, o que pode comprar hoje

A forte aposta comercial do certame transformou, de novo, a passerelle em montra, ficando alguns dos coordenados e pares desfilados por Katty Xiomara, Luís Buchinho, David Catalán e pela Nobrand imediatamente disponíveis para pré-encomenda na plataforma online Minty Square, num reforço do modelo de negócio emergente ver agora/comprar agora.

Embebida no abstracionismo para falar «do estado das coisas», Katty Xiomara encenou uma galeria de arte em passerelle, com diferentes obras a adornar o espaço. «Tem a ver com a arte abstrata, não é purista, acaba por misturar traços. É se calhar um abstracionismo mais lírico», explicou sobre as propostas que trabalharam o burel.

Já o futurismo dos coordenados de Luís Buchinho não poderia estar mais de acordo com as compras imediatas e entre cliques. O designer sugeriu a coleção “Night Drive” na qual «o universo em que Denis Villeneuve retrata o quotidiano de um “Blade Runner” em 2049 teve um grande impacto na seleção dos materiais e das silhuetas».

A par da arte, da música e do cinema, também as novas estratégias de vendas têm vindo a exercitar a criatividade dos designers nacionais, como adiantou Hugo Costa ao Portugal Têxtil.

«Em determinadas alturas fazemos flash sales, vendas pontuais em que pegamos em stock e tentamos aproximar-nos do consumidor final, não serve para ganhar dinheiro, serve muitas vezes para ganharmos espaço e aproximarmo-nos do cliente final, percebermos o feedback que ele nos dá», reconheceu o designer, que trouxe da semana de moda masculina de Paris uma coleção inspirada no movimento punk, reforçando a presença da cor nos coordenados agender.

O atletismo está na moda

No adeus ao Parque da Cidade do Porto – já em contagem decrescente para mais uma edição do Nos Primavera Sound –, o Portugal Fashion voltou a reservar espaço para as marcas da indústria, do calçado e da moda.

O desfile coletivo do calçado durante a tarde de sábado apresentou, em estreia, a The Baron’s Cage, «uma marca arrojada que quer vingar junto de um homem mais irreverente», segundo o CEO Bruno Queirós.

Dielmar, que fez uma viagem pela origem dos padrões de tecido mais icónicos, e a Lion Of Porches garantiram, novamente, sala cheia – e húmida, no caso da segunda. O desfile contou com a participação especial dos atletas Nelson Évora e Patrícia Mamona e deixou um conselho aos que se iriam aventurar no regresso a casa: as condições climáticas adversas devem ser encaradas com bom humor.

«O ponto de partida foi igual para homem, mulher e criança, foi o “Winterize”. Foi um desafio, trazer sofisticação para a entrada no inverno, conseguir manter um look atrativo. A ideia é não ter medo, enfrentá-lo como se fosse uma coisa gira», esclareceu Natércia Margarido, responsável pela linha feminina da Lion of Porches, sobre um alinhamento fiel à paleta tradicional da marca, cruzado por padrões como o camuflado, numa passerelle/floresta com alguma precipitação e quanto baste de nevoeiro.
 

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