Portugal ganha 3 prémios na Techtextil

A estreia na Techtextil 2019 não podia ter sido melhor para Portugal, que arrecadou três dos cobiçados prémios de inovação. Universidade da Beira Interior, Tintex e Sedacor/Têxteis Penedo foram os promotores dos projetos que convenceram o júri internacional.



O Cork-a-Tex, um fio de algodão revestido a cortiça, desenvolvido pela Sedacor e pela Têxteis Penedo, com o apoio do CeNTI e do Citeve, venceu na categoria de Novo Material, enquanto o processo de tingimento PICASSo, promovido pela Tintex em parceria com a Ervital, a Bioinvitro e também o CeNTI e o Citeve foi distinguido na categoria Sustentabilidade. «Trata-se de um processo que visa substituir os corantes químicos por corantes naturais, gasta menos água e é, de facto, uma solução bastante sustentável», explica Ana Silva, diretora de sustentabilidade da Tintex, ao Portugal Têxtil.

O PICASSo teve a sua origem no projeto Algo.Natur, que data de 2014, e atualmente está a trabalhar na extensão da paleta de cores e a na diversificação das fibras passíveis de serem tingidas. «Pode ser usado para tingir algodão, lã e talvez até poliamida, dependendo de algumas técnicas de tingimento. E pode ser aplicado para qualquer área, não tem que ser especificamente para moda», destaca Ana Silva.

O prémio de inovação da Techtextil, que a empresa recebeu hoje na Messe Frankfurt, ilustra, segundo a diretora de sustentabilidade, «que estamos a fazer a coisa certa na hora certa. Leva-nos a querer continuar a desenvolver este tipo de soluções». Além disso, acrescenta Ana Silva, «termos este reconhecimento significa que estamos a desenvolver soluções que estão efetivamente a ter procura no mercado. Isto é uma feira, não é uma conferência – se o processo foi distinguido aqui é porque tem valor comercial».

E-Caption 2.0 vale prémio à UBI

O E-Caption 2.0 resulta do desenvolvimento do projeto de doutoramento de Caroline Loss mas «houve algumas evoluções», explica a investigadora da UBI – Universidade da Beira Interior ao Portugal Têxtil. «Continua a ser um projeto baseado no desenvolvimento de antenas têxteis, ou seja, antenas para telecomunicação feitas usando materiais têxteis, só que desta vez demos um passo maior – além das antenas, fizemos o circuito em têxtil também», revela Caroline Loss. «Houve a introdução de alguns componentes eletrónicos, mas quase 90% dos circuitos e das antenas são feitos com materiais têxteis», indica. Outra novidade neste protótipo é o tecido usado para a confeção. «Na primeira versão usámos maioritariamente materiais comercialmente disponíveis. Nesta versão, nós, em parceria com a Borgstena, desenvolvemos uma malha própria [uma malha de trama de dupla face] para o casaco, já pensada para esta aplicação», desvenda Caroline Loss.
 

Como resultado do projeto foi criado um casaco, «que chamamos de Smart and Safe Coat», pensado para «as pessoas que fazem a manutenção das estações de radiocomunicações – as antenas que emitem o sinal de telemóvel e de televisão digital». O casaco faz a proteção eletromagnética do utilizador, graças a uma camada protetora integrada que bloqueia as ondas eletromagnéticas. «Por outro lado, é inteligente. A antena do circuito, a que chamámos circuito para wireless power transmission, quando deteta que os níveis de radiação estão acima do permitido, liga um LED no casaco, que indica que a pessoa, a partir daquele nível, começa a estar em perigo e deve deixar a área», esclarece Caroline Loss.

Uma bela surpresa

O prémio agora recebido veio validar a investigação que tem sido levada a cabo por Caroline Loss, com o apoio de Rita Salvado, investigadora do LabCom IFP da UBI, diretora do Mestrado em Engenharia Têxtil e orientadora da tese de doutoramento de Caroline Loss, Pedro Pinho, professor do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa e investigador do Instituto de Telecomunicações de Aveiro, e Daniel Belo, também investigador do Instituto de Telecomunicações de Aveiro. «Foi uma surpresa», confessa Caroline Loss, atualmente investigadora da FibEnTech Research Unit (UBI). «Enviamos a candidatura e claro que sabíamos que estava dentro do âmbito do concurso, mas o que queríamos mesmo era o feedback de um júri externo sobre o nosso trabalho. Não estávamos à espera de vencer», reconhece. «Até porque o trabalho está em curso», acrescenta Rita Salvado. «Trata-se de um trabalho que tem vindo a ser melhorado de forma a fazer com materiais têxteis mais dispositivos eletrónicos do sistema. A abordagem do primeiro [protótipo] era de energy havesting [recolha de energia] e aqui passou para wireless power transmission, ou seja, permite integrar e explorar várias tecnologias de informação e comunicação. [O prémio] foi muito bom porque havia aqui uma novidade que ainda não tínhamos apresentado e teve uma aceitação muito grande», adianta Rita Salvado.

O projeto, de resto, tem vindo a ganhar reconhecimento. Numa fase inicial, dedicada à caracterização de materiais têxteis convencionais para se usar em elementos eletrónicos, recebeu o terceiro prémio no concurso internacional Graduate Student Research Paper Competition, e mais recentemente este protótipo foi selecionado pelo MUDE – Museu do design e da Moda para a exposição “Presente Futuro. Design para a mudança”.

A próxima fase será dedicada à exploração de novas aplicações. «Para já, este casaco é um equipamento de proteção individual feito para um público-alvo muito específico, mas a ideia agora é pegar neste conceito, que funciona, e transformá-lo para aplicação noutros tipos de vestuário, abrangendo outros públicos, nomeadamente o público da moda – pode ser integrado em qualquer tipo de vestuário para fazer a alimentação de pequenos dispositivos, como recarregar o telefone e o iPod», exemplifica Caroline Loss. O facto de ter uma vertente sustentável, «visto que este dispositivo não usa nenhum tipo de bateria», pode ajudar nessa missão de «abranger o maior tipo de público que conseguirmos nos próximos desenvolvimentos».

Para Rita Salvado, o E-Caption 2.0 integra-se «numa linha de trabalho que temos em curso na UBI que, de pequeno desenvolvimento em pequeno desenvolvimento, nos tem permitido explorar a fronteira de integração da tecnologia no têxtil, o que permite abrir novos horizontes aos materiais e à indústria têxtil, que é tão querida na região».

Inovação premiada

Os prémios da Techtextil, que já vão na 15.ª edição, foram entregues hoje de manhã, 14 de maio, e contemplaram a entrega de galardões nas categorias Sustentabilidade, Nova Tecnologia, Nova Aplicação e Novo Material, esta última com apenas um vencedor – o Cork-a-Tex.

Na categoria Sustentabilidade, além da Tintex foi ainda premiado o Bio4Self, um polímero compósito reforçado à base de fibras de PLA, que pode ser usado na produção de automóveis, na indústria do desporto e na tecnologia para a área da saúde, desenvolvido por um consórcio composto pela Comfil (Dinamarca), a Chemosvit Fibrochem (Eslováquia), o Fraunhofer Institute for Chemical Technology ICT (Alemanha), a Universidade Técnica da Dinamarca e o Centexbel (Bélgica).

Na categoria Nova Tecnologia, os vencedores foram a Robert Bosh e a H.Stoll, por uma luva tricotada sensorizada, e o Northwest Textile Research Center pelo projeto Textile Mining, um têxtil funcional que permite, por exemplo, que as empresas da indústria metalúrgica reciclem e recuperem metais nobres, como outro, platina e paládio.
Além do E-Caption 2.0, na categoria Nova Aplicação foi ainda distinguido o German
Institutes for Textile and Fibre Research Denkendorf (DITF), pelo desenvolvimento de uma bobina que permite a carga indutiva para veículos elétricos e híbridos.

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