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Regionalização chega ao comércio internacional

Por
Portugal Textil
Publicado em
today 17 de dez de 2018
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Embora a indústria da moda seja global, o comércio mundial de têxteis e vestuário está a tornar-se mais regional. A Ásia, a União Europeia e o Hemisfério Ocidental dominam, cada vez mais, as exportações internacionais, tendo representado quase 85% dos envios em 2017.


A importância dos padrões regionais no comércio mundial de têxteis e vestuário refletem a mudança nas dinâmicas da economia global mas também as alterações nas estratégias de sourcing das marcas e retalhistas.

De acordo com a análise de Sheng Lu, professor associado no Departamento de Estudos de Moda e Vestuário da Universidade do Delaware, com base na ferramenta de sourcing re:source by just-style, três regiões – a Ásia (56,1%), a União Europeia (25,2%) e, em menos escala, o que chama de Hemisfério Ocidental (3,6%), que inclui a América do Norte, a América Central e a América do Sul – dominam as exportações de têxteis e vestuário.

No que diz respeito aos têxteis, em 2017, 61,2% das exportações foram provenientes de países asiáticos, «um novo recorde», aponta o artigo publicado pelo just-style.com, e um valor muito mais elevado do que os 30% a 40% registados há uma década. A União Europeia foi a segunda principal fonte de têxteis, tendo representado 22% a 25% da quota de mercado mundial nos últimos 10 anos. Cerca de 5% dos têxteis foram provenientes da América do Norte, sobretudo dos EUA. Com o crescimento do top 3, a quota do resto do mundo baixou significativamente, tendo passado de 14% em 2007 para apenas 8,6% em 2017.

Da mesma forma, a Ásia, a UE e o Hemisfério Ocidental representaram, em 2017, 85% das exportações mundiais de vestuário – um valor que se manteve praticamente inalterado na última década. «Apesar das marcas de moda e retalhistas de vestuário estarem gradualmente a diversificarem as suas bases de sourcing, a Ásia ainda forneceu 56% do total em 2017, seguida da UE (25,2%) e do Hemisfério Ocidental (3,6%)», destaca Sheng Lu. Em comparação, apenas 15% das exportações em 2017 vieram de outras regiões – uma queda de 3% face ao ano 2000.

As redes regionais de produção e comércio

De acordo com o professor da Universidade do Delaware, «o aprofundamento da rede regional de produção e comércio é o fator crucial por detrás do aumento da concentração das exportações mundiais de têxteis e vestuário». O que o académico chama de rede regional de produção e comércio é um fenómeno que geograficamente aproxima os países de uma cadeia de aprovisionamento regional. Atualmente, operam essencialmente três cadeias regionais de aprovisionamento de têxteis e vestuário: Ásia, Europa e Hemisfério Ocidental.

Dentro da cadeia de aprovisionamento regional da Ásia, os países economicamente mais desenvolvidos, como o Japão, a Coreia do Sul e a China, fornecem matérias-primas têxteis a países menos desenvolvidos da região, nomeadamente ao Bangladesh, ao Camboja e ao Vietname. Com salários relativamente mais baixos, estes últimos países fazem os processos de produção de vestuário mais intensivos em termos de mão de obra e exportam as peças acabadas para os principais mercados de consumo do mundo.

No caso da Europa, avança Sheng Lu, os países desenvolvidos da Europa Ocidental e do Sul, como Itália, França e Alemanha, servem como fornecedores têxteis primários. Na produção de vestuário, os produtos mais básicos são feitos em países em desenvolvimento, como a Polónia e a Roménia, enquanto os artigos de luxo ou gama mais alta são confecionados em Itália e França, refere o professor. «Além disso, uma grande parte do vestuário acabado é enviado para membros desenvolvidos da UE, como Reino Unido, Alemanha, França e Itália, para consumo», acrescenta. A inexistência de barreiras alfandegárias também facilita o comércio neste bloco europeu.

Dentro do que Sheng Lu chama de Hemisfério Ocidental, os EUA servem como principal fornecedor têxtil, enquanto os países em desenvolvimento na América do Norte, Central e do Sul, como o México e os países das Caraíbas, transformam os têxteis em vestuário. A maioria do vestuário produzido na região é eventualmente exportado para os EUA ou para o Canadá para consumo.

Ásia muda fluxos comerciais

Ligadas a estas redes regionais de produção e comércio, é importante estar atento a três fluxos comerciais em particular, aponta o professor. «Primeiro, os países asiáticos estão a aumentar os inputs têxteis de dentro da região», refere, adiantando que em 2017, cerca de 80% das importações têxteis dos países asiáticos foram provenientes de outros países asiáticos, em comparação com cerca de 70% em 2000. «Esta mudança reflete a formação de uma cadeia de aprovisionamento regional de têxteis e vestuário cada vez mais integrada na Ásia», explica Sheng Lu. «Contudo, também é verdade o outro lado: à medida que os países asiáticos ficam mais integrados economicamente, os produtores de têxteis e vestuário de outras partes do mundo podem sentir que é cada vez mais difícil envolver-se na região. Antecipamos que esta tendência continue com a implementação de vários acordos de comércio livre atualmente em negociação entre os países asiáticos», acrescenta.

No caso da Europa, o padrão interno de comércio de têxteis e vestuário continua «forte e estável». Em 2017, 55% das importações de têxteis e 47% das importações de vestuário da UE foram provenientes da região. Durante o mesmo período, 68% das exportações de têxteis e 75% das exportações de vestuário também tiveram como destino outros países da UE. «O comércio intrarregional da UE tanto para os têxteis como para o vestuário parece ser resiliente a fatores externos desfavoráveis, como os elevados custos de mão de obra da região e a concorrência dos fornecedores asiáticos na última década. Contudo, a incerteza criada pelo Brexit pode colocar novos desafios», alerta Sheng Lu.

Já no que concerne ao Hemisfério Ocidental, os fluxos comerciais na cadeia de aprovisionamento de têxteis e vestuário estão cada vez mais desequilibrados. Por um lado, 80% das exportações de têxteis e 89% das exportações de vestuário em 2017 tiveram como destino os países da região. Por outro lado, a cadeia de aprovisionamento do Hemisfério Ocidental está a enfrentar a concorrência crescente dos fornecedores asiáticos. «Por exemplo, em 2017 apenas 24,8% das importações de têxteis e 15,7% das importações de vestuário dos países da América do Norte, Central e do Sul vieram da região – um valor baixo recorde nos últimos 10 anos. Se acordos regionais de comércio livre, como o Nafta e o DR-Cafta já não existissem, seria ainda mais difícil a sobrevivência da cadeia de aprovisionamento de têxteis e vestuário do Hemisfério Ocidental. Pela mesma razão, os produtores de têxteis e vestuário da região não lamentaram a saída dos EUA da Parceria Trans-Pacífico», sublinha Sheng Lu.

Para o futuro, o professor da Universidade do Delaware considera que será «interessante» ver como a conclusão e implementação de vários novos acordos de comércio livre vão afetar os padrões regionais do comércio de têxteis e vestuário, dando como exemplo, entre outros, o acordo de comércio livre entre a UE e o Japão, que deverá ser implementado em 2019, e os acordos de comércio livre entre os EUA e a UE e os EUA e o Japão, que deverão começar a ser negociados para o próximo ano.

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