Retalho sofre com “coletes amarelos”

As típicas compras da quadra natalícia continuam a sofrer com os protestos que decorrem em França. No último fim-de-semana, lojas encerradas e a ausência de turistas no centro de Paris pintaram, uma vez mais, o cenário da capital francesa, devido aos protestos dos “coletes amarelos”.


Retalho sofre com “coletes amarelos” - Reuters

A French Retail Federation (FCD) anunciou que, desde o dia 17 de novembro, as perdas nas vendas do retalho atingiram os mil milhões de euros. No entanto, é difícil determinar o verdadeiro valor das perdas, já que as estimativas de alguns grupos empresariais rondam os 400 milhões de euros, enquanto um grupo mais pequeno de empresas de maior dimensão admite que as perdas possam chegar aos 10 mil milhões de euros.

O ministro francês das finanças, Bruno Le Maire, citado pelo WGSN, fala numa «catástrofe para o comércio e para a economia». Já a presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, afirma que, apesar de os danos deste sábado terem sido menores do que no fim-de-semana anterior, tiveram um maior impacto porque abrangeram uma área mais vasta. No último sábado, os retalhistas vedaram as janelas das suas lojas e mantiveram as portas fechadas.

As lojas dos gigantes de luxo, como Kering e LVMH, não abriram, enquanto as department sores – que, nesta altura do ano, são um íman para os consumidores – também permaneceram encerradas, como foi o caso da Galeries Lafayette, Printemps, Le Bon Marché e BHV Marais. No caso da Printemps, as vendas diminuíram, nas últimas quatro semanas, entre 25% a 30%. A retalhista francesa reconhece que o abrandamento nas vendas resulta do protesto nas ruas francesas. «Houve uma perda colossal nas vendas que não será recuperada», lamentou, à Reuters, Pierre Pelarrey, que gere a Printemps do centro de Paris.

No início do mês, Bruno Le Maire revelou que os empresários lhe admitiram que o impacto dos protestos era «forte», com as reservas de hotéis a diminuir e as receitas das lojas a baixarem entre 20% a 50%.


Coletes amarelos em Paris - Alain JOCARD / AFP/Archives

Uma das grandes preocupações dos retalhistas é que os consumidores comprem apenas online e não voltem às lojas físicas para finalizar as compras de Natal. Outra preocupação é que importantes clientes, como os chineses, que normalmente escolhem Paris para fazerem as suas compras no segmento do luxo, possam optar por outras cidades para o fazerem. Recorde-se que os ataques terroristas em Paris, no início da década, reduziram as visitas dos turistas chineses em mais de 25%.

Impacto vai além do retalho

Os protestos que estão a agitar a França irão ainda abrandar o crescimento económico do país, anunciou o Banco de França, na segunda-feira. O banco central francês prevê que a segunda economia mais forte da zona euro registe um crescimento de 0,2% no quatro trimestre do ano, abaixo 0,4% das estimativas anteriores.
O abrandamento é uma «dura realidade para os empresários, para os empreendedores e para os proprietários de lojas que foram vandalizadas e pilhadas de forma violenta», assumiu Bruno Le Maire em entrevista à RTL. «É uma realidade também para os investidores internacionais», acrescentou.

Propostas de Macron não arrefecem protestos

As medidas anunciadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, para acalmar os protestos, não surtiram efeito. Na segunda-feira, o governante prometeu um aumento no valor de salário mínimo em 100 euros, um corte na contribuição social dos pensionistas com reformas inferiores a 2.000 euros mensais, apelou ao pagamento de prémios anuais aos trabalhadores e anunciou também o fim de taxas e impostos sobre as horas extraordinárias. Apesar disso, nem a esquerda nem a direita política ficaram satisfeitas e as greves mantiveram-se.

Os visados pelas mudanças anunciadas dizem duvidar do quanto iriam realmente beneficiar das propostas do presidente francês. Aliás, muitos consideraram que a descrição do aumento do salário mínimo feita por Macron foi enganosa. «Ele descreveu como se fosse aumentar o salário mínimo, mas não está realmente a ajudar. Não faz parte do salário. Não vai ajudar quando nos reformarmos», assegurou Joelle Santos, porteira em Paris, ao New York Times.

Na verdade, a medida não se traduz num aumento no valor fixo do salário, mas sim de uma antecipação de aumentos prometidos pelo Governo de Macron durante a campanha, e que incidem sobre uma parcela variável — um prémio que varia consoante os rendimentos do agregado familiar e que tem de ser pedido pelos trabalhadores, não sendo atribuído de forma automática. Ao todo, a resposta do Governo deverá custar ao país 10 mil milhões de euros, o que atira as previsões do défice para 2019 de 2,8% para 3,4%, segundo o ministro responsável pelo Orçamento, Gérald Darmanin.

Um protesto que vai além dos combustíveis

No sábado passado, 125 mil pessoas manifestaram-se um pouco por toda a França, repetindo pelo quarto fim-de-semana consecutivo um protesto que inicialmente se focava nos aumentos dos impostos sobre os combustíveis.
Porém, rapidamente se transformou num movimento nacional contra o aumento do custo de vida. Entre as várias exigências dos manifestantes estão o aumento do salário mínimo, uma reforma do sistema fiscal que favoreça a classe média baixa e um referendo sobre a saída de Macron da presidência.

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