Rihanna reinventa vocabulário da lingerie e constrói império de moda

Rihanna apresentou terça-feira à noite um mega desfile de lingerie feminina no Brooklyn. E, correndo o risco de ser acusado de usar hipérboles grosseiras, em matéria de moda equivaleu ao talento tático do general Napoleão em Austerlitz, à defesa siciliana do mestre de xadrez Gary Kasparov ou mesmo ao génio de Metternich no Congresso de Viena . Ou seja, este enorme desfile com performances ao vivo integradas, dança desportiva, lingerie muito bonita e um cenário maciço digno de De Chirico, abalou brilhantemente as regras de um dos principais setores da moda. Uma manobra de inteligência escandalosa e a previsão, em apenas quarenta minutos, de uma revolução na moda.


Rihanna durante o espetáculo da sua marca de lingerie, a 10 de setembro, em Nova Iorque - Savage X Fenty

Orquestrada no interior do Barclays Center, no Brooklyn, a noite não começou bem. O público foi forçado a ficar em pé, sem água ou qualquer coisa para beber. Fashionistas e dezenas de maravilhosas belezas negras do Brooklyn tiveram que se misturar com os executivos da Amazon, terrivelmente mal vestidos. Mesmo revendo os anais da história da moda, seria o grupo dos homens mais mal vestidos num desfile desde Riga, em 2005, ou Tbilisi, em 2009. Jeff Bezos, com mais classe em Brunello Cuccinelli, deveria trocar com eles uma ou duas palavras.
 
Além disso, todos os convidados tiveram que se livrar do telemóvel, algo impensável para os editores de moda que precisam de alimentar as redes sociais. As últimas duas vezes que os iPhones dos editores foram confiscados foi para eventos no n.º10 de Downing Street e no Palácio de Buckingham.
 
Apesar deste aroma de orgulho e pretensão, o evento acabou por ser uma verdadeira revolução. Foi inaugurado com Rihanna, no meio de dez bailarinas em body e roupa interior totalmente pretas, para uma espetacular performance de dança diante de um enorme décor cuja fachada de quatro andares lembrava a sede da Fendi, o Palazzo della Civilita, em Roma.


Getty Images for Savage X Fenty Show Presented by Amazon Prime Video

O espetáculo foi imediatamente deslocado para a fachada, com modelos que dançavam sob os arcos de imitação de pedra calcária. Equipas de operadores de câmaras equipadas com câmaras fixas percorriam o cenário, enquanto Gigi Hadid aparecia com um look total de femme fatale - com a cabeça adornada com joias.
 
Se a Victoria's Secret tinha super modelos com fantasias extravagantes a transbordar de plumas, objetificando-as, Rihanna cercou as suas estrelas da passarela com todos os tipos de meninas de formas diferentes, criando um momento unificador e inclusivo. Modelos transsexuais, algumas com pernas amputadas, outras gordinhas, ou mesmo redondas, já que todas foram convidadas para a festa.

Todos os tipos de estrelas e cantores de hip hop apareceram, do trio Migos a dançar em roupa de metal numa piscina, até Halsey e o seu canto lascivo, passando por Big Sean, A$ap Ferg e Fabolous, em grande forma vocal. O espetáculo nunca vacilou, num formato feito para a internet e misturando espetáculo de variedades e espetáculo ao estilo Broadway.

As maiores estrelas das passarelas também fizeram algumas aparições, como Alek Wek, Cara Delevingne, Joan Smalls e Bella Hadid, particularmente mal-humorada e carrancuda.


Cara Delevingne - Getty Images for Savage X Fenty Show Presented by Amazon Prime Video

A lingerie era mais desportiva, com toques atléticos, e declinada numa paleta otimista de tons de sorvete escuro. Mas, a atmosfera era muito agressiva. Nenhum momento gracioso ao estilo Jane Austen, nenhuma cena romântica do Lago dos Cisnes. No entanto, a feminilidade reinou.
 
Após a performance de dança coletiva de quase 100 raparigas, Rihanna veio agradecer, sem dizer ou cantar uma palavra, aos 850 espetadores ainda de pé e cientes de terem assistido a um momento histórico da moda. Podem ter passado a noite ver centenas de cuecas e sutiãs, mas também sabiam, no fundo, que haviam testemunhado um momento fundador.
 
E o timing foi perfeito para esta demonstração, já que o artigo principal das páginas de negócios do The New York Times no sábado, 7 de setembro, era: "Victoria's Secret tinha problemas mesmo antes de Jeffrey Epstein".


Getty Images for Savage X Fenty Show Presented by Amazon Prime Video

Depois de quase duas décadas de domínio na lingerie, agora a Victoria's Secret - que ainda conseguiu 7,4 mil milhões de dólares em vendas no ano passado, só nos Estados Unidos e Canadá - está em risco. Os seus desfiles de super modelos aparecem como uma ofensa cultural e a marca está ligada ao maior escândalo sexual da América. Epstein foi consultor financeiro de longa data do principal executivo da marca, Leslie H. Wexner. Epstein foi acusado de, em meados dos anos 90, se apresentar como agente de recrutamento da Victoria's Secret para explorar sexualmente as suas modelos.
 
Bem, ninguém explorou mulheres neste desfile, que reinventou as regras do desfile de moda e será transmitido a 20 de setembro no Amazon Prime Video. Lançada há 18 meses com o American TechStyle Fashion Group, um ano antes da marca de luxo global Fenty, apoiada pela LVMH, a marca Savage x Fenty, que acaba de arrecadar 50 milhões de dólares, parece pronta para um crescimento explosivo e um novo paradigma feminista.

Traduzido por Estela Ataíde

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