Semana da Moda de Estocolmo quer ser ouvida

Enquanto Copenhaga recebeu o presidente da França Emmanuel Macron a 29 de agosto, para anunciar um acordo com o Institut Français de la Mode (IFM) visando o desenvolvimento sustentável, Estocolmo celebrou a moda com a sua Fashion Week masculina e feminina de maneira mais discreta.


A marca ATP Atelier desfilou na sua concept store em Estocolmo - FashionNetwork.com ph Dominique Muret

De 28 a 30 de agosto, a capital sueca recebeu 50 marcas de prêt-à-porter, cerca de 20 marcas de joias e acessórios e apresentou 30 desfiles com as coleções para a primavera-verão de 2019. A maioria realizaram-se nos suntuosos salões do Grand Hôtel, sede da Semana da Moda, localizado no distrito central de Ostermalm.

Mas, algumas marcas optaram por realizar os seus desfiles noutros espaços, como nas suas próprias lojas ou locais especiais, como a igreja Carl Johans, na ilha de Skeppsholmen, uma espécie de templo neoclássico inspirado no Panteão de Roma, escolhida pela designer de joias Maria Nilsdotter para celebrar um desfile mágico imbuído de espiritualidade ao som de uma harpa.

Paralelamente, inúmeros eventos complementaram o programa, como conferências, festas, entre outros, como a "Fashion Night", que concluiu esta semana com a participação de mais de 300 lojas em Estocolmo, e a festa organizada pela Absolut Vodka, que incluiu um espetáculo notável.

Para a ocasião, a célebre marca sueca apresentou uma seleção de desenhos extraídos dos arquivos da sua coleção "Absolut Fashion", criada em 1987 através de uma série de colaborações de prestígio, como Jean Paul Gaultier, Tom Ford, Marc Jacobs, Stella McCartney, Gianni Versace, John Galliano ou ainda Helmut Lang.


Backstage do desfile de IdaSjöstedt - FashionNetwork.com ph Dominique Muret

Durante três dias, o público, composto principalmente por jornalistas, fashionistas e estudantes, pôde mergulhar na criatividade sueca, entre novos talentos e marcas já estabelecidas, como Ida Sjöstedt (32 anos), com os seus vestidos românticos em seda e tule, muito próximos da alta costura, vendidos principalmente na Suécia através de 35 lojas multimarca.
 
A atmosfera foi muito agradável, distante da histeria das Big Four (Londres, Nova Iorque, Milão, Paris). Algo que se refletiu no concorrido desfile de Filippa K, organizado na flagship desta Max Mara sueca. O seu cocktail à base de pizza, entregue por jovens loiros de cabelo comprido, vestidos com um conjunto branco da marca (Filippa K Delivery), foi um sucesso, talvez tanto quanto o desfile, quase impossível de se ver, já que a loja estava lotada.

No entanto, esta edição da Semana de Moda de Estocolmo sofreu com as ausências de grandes marcas suecas como Acne, que se apresenta em Paris, ou ainda Hope e House of Dagmar, que deixaram o evento. Parece ser difícil para a capital sueca posicionar-se como o eixo central da moda escandinava quando há três outras semanas de moda a acontecer na região, em Copenhaga, Oslo e Helsínquia. Além disso, a rival dinamarquesa de Estocolmo viu os níveis de interesse dispararem nos últimos anos, uma vez que aumentou o número de feiras associadas à Fashion Week.


Multidão aglomera-se para assistir ao desfile de Filippa K - FashionNetwork.com ph Dominique Muret

"O problema é que, ao contrário de Copenhaga, não temos uma grande feira de moda. Isso é um fator limitador", afirma a designer Maj-La Pizzelli, que atua no mercado da moda sueca há 20 anos, tendo trabalhado na Filippa K como consultora antes de lançar a sua linha de calçado e acessórios, a ATP Atelier, com Jonas Clason, em 2011.

Com os seus produtos em couro vegetal e design escandinavo feitos em Itália, a marca, que se apresentou esta semana pela primeira vez nas passarelas de Estocolmo, se encaixa perfeitamente na vibe minimalista e democrática típica do design sueco.

"A Semana da Moda de Estocolmo perdeu terreno. É menos importante do que há dez anos, quando vimos o nascimento de novas marcas, muitas das quais se desenvolveram internacionalmente, contribuindo para o crescimento da nossa indústria", explica um observador da indústria.
 
Jennie Rosén, CEO do Swedish Fashion Council, órgão que reúne diversas organizações da moda sueca, incluindo a importante Association of Swedish Fashion Brands (ASFB), espera reverter a situação. "Precisamos de nos comunicar mais e criar uma plataforma mais dinâmica para apoiar todo o setor, conectando-o especialmente com a indústria de alta tecnologia", disse Rosén, que está há seis meses no cargo, à FashionNetwork.com.
 
Jennie Rosén, CEO do Swedish Fashion Council - FashionNetwork.com ph Dominique Muret

"Até hoje, estávamos espalhados por diferentes organizações e eventos. Mas, agora, estamos a reorganizar-nos de uma forma que dá prioridade à união. Em 2019, vamos lançar uma Semana da Moda única, que se realizará em simultâneo com a feira de vestuário Stockholm Fashion District. Teremos, portanto, um único evento que vai abranger tanto a imprensa, com os desfiles, como os compradores, com a feira”, explica Rosén. 

"Ao contrário da Dinamarca, não recebemos qualquer apoio financeiro do governo, apesar de a nossa moda ter mais peso. As marcas escandinavas mais importantes são suecas, a nossa indústria emprega 60 mil pessoas e tem um volume de negócios de 300 mil milhões de coroas (30 mil milhões de euros). Além disso, desempenha um papel importante nas exportações. As vendas de vestuário sueco no estrangeiro dispararam nos últimos anos e aumentaram 90% entre 2011 e 2018, sendo +30% apenas em 2018", acrescenta.
 
Para um país pequeno como a Suécia, que tem apenas 10 milhões de habitantes, a internacionalização é um processo vital. E é por isso que é tão importante impulsionar a visibilidade da indústria da moda do país, um dos setores mais dinâmicos em termos de exportação. A indústria têxtil sueca conta com o apoio da gigante H&M, mas por trás desta crescem outras marcas de sucesso, prova da vitalidade do setor. Hoje, testemunhamos o renascimento criativo no país, com uma nova onda de jovens designers que parecem querer distanciar-se do design funcional e da elegância minimalista que tornaram a moda sueca conhecida.
 
"Há uma verdadeira efervescência com o surgimento de um número maior de designers mais jovens em relação ao passado. São diferentes de seus antecessores, marcados por uma estética clássica e sóbria, dão mais ênfase às cores, estampados, e são dotados de uma criatividade sem limites. São muito focados no desenvolvimento sustentável e em roupas neutras em termos de género", diz Erica Blomberg, responsável pelo Swedish Fashion Talents, programa de apoio a jovens designers, organizado pelo Swedish Fashion Council.


Desfile da jovem marca Rave Review, que conta com o apoio do Swedish Fashion Council - FashionNetwork.com ph Dominique Muret

Lançado em 2005, este projeto apoiou até agora 84 talentos promissores. Nos últimos dois anos, o programa tem se restringido a apoiar no máximo sete designers por ano, metade dos quais especializados em vestuário e a outra metade em acessórios. Todos os participantes têm a oportunidade de se apresentar em duas semanas de moda e participar na feira Stockholm Fashion District. Além disso, recebem tutoria e aulas de negócios durante um ano.

Nesta temporada, o Swedish Fashion Talents destacou três marcas promissoras: a moda masculina experimental de Per Götesson, a marca de sportswear chic e minimalista PRLE, de Andreas Danielsson, e a Rave Review, marca feminina da dupla Josephine Bergqvist e Livia Schück, que usa tecidos reciclados nas suas peças marcantes e coloridas.

Juntamente com estes destaques, vale a pena mencionar a Lazoschmidl. Com a sua banda sonora de discoteca e modelos etéreos vestidos em macacões de lurex e roupa de malha ultra-sexy, a marca, fundada por Josef Lazo e Andreas Schmidl, apresentou um dos desfiles mais empolgantes da Semana da Moda de Estocolmo.

Traduzido por Novello Dariella

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