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Portugal Textil
Publicado em
3 de mar. de 2020
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Têxteis procuram nova vida

Por
Portugal Textil
Publicado em
3 de mar. de 2020

Um novo estudo do Fibersort Consortium – o grupo de stakeholders da indústria têxtil que esteve por trás da primeira tecnologia automatizada do mundo capaz de separar grandes volumes de têxteis pós-consumo com base na sua composição – identifica diversas barreiras ao reaproveitamento do desperdício, que vão desde constrangimentos socioculturais à legislação regulatória.

Só o noroeste da Europa gera 4,7 milhões de toneladas de desperdício têxtil pós-consumo anualmente e o problema está a ganhar dimensão a um ritmo acelerado, dadas as práticas correntes de consumo e de descarte, que estão a encurtar a vida útil dos têxteis que entram no mercado. A título de exemplo, um indivíduo nos Países Baixos desfaz-se, em média, de 40 peças de vestuário por ano. Contudo, menos de 1% dos têxteis produzidos são atualmente reaproveitados no processo produtivo de novos artigos – e cerca de metade é transformada em matéria-prima de valor inferior (downcycling), incinerada ou colocada em aterros.


Têxteis procuram nova vida - Portugal Têxtil



Os principais obstáculos que se colocam à reciclagem de valor acrescentado incluem a dificuldade de separação de misturas de fibras, a inadaptabilidade das tecnologias de reciclagem disponíveis, a escassez de incentivos para desenvolver novos avanços nestas tecnologias e a falta capacidade de absorção dos produtos de conteúdo reciclado por parte da procura de mercado.

Desempenho aquém do potencial

Apesar do sector da reciclagem ter assistido a um crescimento exponencial – nomeadamente entre 2014 e 2019, altura em que o número de fábricas com certificação Recycled Claim Standard aumentou nove vezes e aquelas certificadas com o Global Recycled Standard subiram 360% – apenas um terço consegue processar mais do que uma composição de fibras. Cerca de 60% das empresas de reciclagem usam tecnologias mecânicas, que exigem a separação por cores e a remoção física de acessórios, o que resulta numa «baixa viabilidade financeira» e fraca paridade de preço dos produtos reciclados comparativamente às matérias virgens, argumenta o estudo. «A maior parte da reciclagem química continua a processar-se numa escalapiloto, excluindo o desperdício têxtil pós-industrial para determinados materiais, como a poliamida», acrescenta.

A denim representa a grande exceção à regra. Esta indústria incorporou fios de algodão pós-consumo reciclados mecânica e quimicamente nas suas coleções e, agora, os jeans contêm uma média de conteúdo reciclado que varia entre os 15% e os 40%. «A consistência de tecidos de denim garante um menor grau de incerteza relativamente à sua composição durante os processos de reciclagem, embora a triagem de fibras continue a ser essencial para identificar elevadas percentagens de matérias-primas que não sejam algodão, como o elastano ou o poliéster», escrevem os autores do estudo, destacando colaborações como a Mud Jeans e a Recovertex, a Evrnu e a Levi Strauss e a G-Star e a Artistic Milliners.

No fundo, um dos grandes desafios à reciclagem está associado à falta de rastreabilidade da maioria dos têxteis, cuja composição pode ameaçar a segurança do produto devido à contaminação química. O estudo reforça que é «extremamente importante» que os têxteis reciclados cumpram as listas de substâncias restritas (RSL) das marcas e produtores, o Regulamento REACH 2020 da União Europeia e as listas de substâncias restritas da ZDHC – Zero Discharge of Hazardous Chemicals. «Assim, a rastreabilidade dos materiais e componentes pode ser identificada como uma prioridade à sua reintrodução no mercado», enfatiza.

Deste modo, o Fibersort Consortium prevê que haja ainda um amplo espaço de oportunidades para expandir a reintrodução de têxteis reciclados, o que se reflete, aliás, no crescimento acelerado das unidades e tecnologias de reciclagem, na subida do número de empresas de produção certificadas e no aumento da quantidade de marcas que têm vindo a apostar neste tipo de oferta para as suas coleções. «No entanto, ainda há margem para avançar com mais investigação, desenvolvimento e projetos piloto, de modo a compreender e eliminar as barreiras que subsistem relativamente à reciclagem de têxteis pós-consumo», conclui.

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