×
Publicado em
17 de mai de 2021
Tempo de leitura
6 Minutos
Partilhar
Fazer download
Fazer download do artigo
Imprimir
Clique aqui para imprimir
Text size
aA+ aA-

Tiara de D. Maria II de Portugal no leilão da Christie's Magnificent Jewels

Publicado em
17 de mai de 2021

A famosa tiara oitocentista da coroa portuguesa – que pertenceu à rainha D. Maria II e depois à filha D. Antónia e respetiva descendência – integrou o leilão da Christie's Magnificent Jewels que se realizou quarta-feira (12 de maio), em Genebra, ao lado de outros tesouros igualmente singulares como aqueles da coleção de Estefânia de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão I, e como o diamante Spectacle do grupo Alrosa, considerado a maior gema polida da Rússia.


A coroa que pertenceu à rainha D. Maria II e depois à filha D. Antónia e respetiva descendência, recentemente leiloada em Genebra, pelaChristie's Magnificent Jewels - Instagram @christiesjewels


A tiara (ou coroa) de D. Maria II passou à filha D. Antónia de Bragança, infanta de Portugal e princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, que através de seu pai Ferdinand von Sachsen-Coburg und Gotha (em alemão), também detinha os títulos de princesa de Saxe-Coburgo-Gota e duquesa de Saxe.

A joia real de 1840 cravejada de diamantes e safiras – segundo a leiloeira com "uma notável safira birmanesa ao centro" – passou seguidamente à descendência da princesa portuguesa, por via do filho Guilherme de Hohenzollern-Sigmaringen que foi o chefe da Casa de Hohenzollern-Sigmaringen de 1905 até à morte.

A rainha D. Maria II era natural do Rio de Janeiro – apelidada de "a Educadora" e "a Boa Mãe" – foi rainha de Portugal e dos Algarves em duas ocasiões diferentes: primeiro de 1826 a 1828, quando foi deposta pelo tio D. Miguel, e depois de 1834 até à morte em 1853.

Era a filha mais velha do imperador D. Pedro I do Brasil, que também reinou em Portugal como Pedro IV, tendo outorgado aos portugueses uma constituição livre, a carta constitucional; e da sua primeira esposa, Maria Leopoldina da Áustria, imperatriz consorte do Brasil, rainha consorte de Portugal e dos Algarves e arquiduquesa da Áustria.

D. Maria II foi a primeira rainha constitucional portuguesa.


A rainha D. Maria II, ostentando a coroa de 1840, que carrega o"valor simbólico de ser a tiara mais antiga ligada à Casa Real Portuguesa" e "a tiara representada na iconografia da primeira rainha constitucional portuguesa" - Facebook / Plataforma Cidadania Monárquica


Portugal não conseguiu adquirir a tiara de D. Maria II que atingiu em leilão 1,45 milhões de francos suíços (1,3 milhões de euros), e gostaria que figurasse no Museu do Tesouro Real no Palácio Nacional da Ajuda (PNA) em Lisboa, cuja inauguração se prevê para o próximo mês de junho.

Infelizmente, José Alberto Ribeiro, diretor do PNA, apenas dispunha de "quase 400,000 euros" angariados e "outros quase tanto" disponibilizados pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). No entanto, já declarou que vai contactar o novo proprietário da peça para que esta integre o espólio em exposição já a partir de junho. 

Apesar de a DGPC não ter atribuído grande significado à peça, a não ser em termos históricos, José Alberto Ribeiro relevou que "não há muitas peças com esta raridade e com esta simbologia", tendo esta o especial "valor simbólico de ser a tiara mais antiga ligada à Casa Real Portuguesa" e mais sendo "a tiara representada na iconografia da primeira rainha constitucional portuguesa".

A licitação abriu nos 200 mil francos suíços, acabando por ser arrematada por 1,45 milhões de francos suíços (1,321 milhões de euros). Melhor dizendo: um total de 1,77 milhões de francos suíços (1,613 milhões de euros), acrescendo as comissões da leiloeira e impostos, e após uma intensa disputa entre licitadores a partir de Londres.


A coroa de D. Maria II foi vendida em Londres - Instagram @christiesjewels


Para além da joia original da coroa portuguesa foi a leilão um conjunto de peças – igualmente compostas de safiras e diamantes – integradas na parure da coleção de Estefânia de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão I.

O conjunto constituído pela tiara de D. Maria II e parure de Eugénie de Beauharnais foi vendido pelo extraordinário valor de 3,286,250 francos suíços (3,6 milhões de dólares), muito mais elevado do que as estimativas originais.

A Christie's Magnificent Jewels perfez em vendas de joias um total de 67,7 milhões de dólares, sendo que a próxima edição decorrerá em Hong Kong (23 de maio).

Tanto a tiara como a parure pertenciam ao ramo principal da família de Hohenzollern-Sigmaringen há mais de um século, tendo sido ostentadas pela princesa Birgitta da Suécia (Hohenzollern-Sigmaringen, por casamento com o príncipe João Jorge do qual se separou em 1990), no casamento da prima em primeiro grau, a rainha Margariga II da Dinamarca em 1967. 


Tiara da rainha D. Maria II de Portugal, entre outras peçascoleção de Estefânia de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão I - Instagram@the_royal_whatcher


Assim, para além da peça histórica e simbólica portuguesa foi também leiloada a coleção de safiras e diamantes pertencente a Estefânia de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão I (1769-1821), que foi grã-duquesa de Baden (1789-1860), por casamento com Carlos I, em 1806.

O conjunto totaliza nove peças, incluindo uma tiara, um par de brincos, dois pingentes e alfinetes, bem como um anel e uma pulseira, que foram à praça em lotes individuais. Um conjunto onde foram aplicadas 38 safiras originárias do Ceilão, atual Sri Lanka.

Conforme atesta documento, que foi encontrado no estojo, as joias foram oferecidas a D. Estefânia, sobrinha da imperatriz Josefina, por via de sua prima Hortense de Beauharnais, que Napoleão adotou como filha em março de 1806. Do conjunto fazia também parte um cinto decorado com pedras preciosas, um adereço comum na corte de Napoleão I.

Já o diamante de 100,94 quilates incolor e sem inclusões internas – que é considerado a maior gema polida da Rússia – foi vendido por 12,84 milhões de francos suíços (14,1 milhões de dólares). A joia foi leiloada por 10,9 milhões de francos suíços antes de lhe serem aplicadas as respetivas comissões.


O diamante russo Spectacle com corte russo pesa 100,94 quilates e foi criado a partir de um diamante raro - Алроса


O diamante denominado Spectacle foi cortado de uma pedra bruta descoberta pelo grupo russo Alrosa PJSC, líder mundial em mineração de diamantes em volume, numa mina aluvial no Extremo Oriente da Rússia em 2016. Demorou um ano e oito meses a ser preparado e polido em Moscovo.

Deve o nome à coleção de gemas dedicadas ao ballet russo, sendo o terceiro diamante de cor D (o que significa que é perfeitamente incolor), com mais de 100 quilates, que a Christie's vendeu nos últimos 10 anos. 

Esta venda ocorre numa altura em que a indústria diamantífera está a voltar à vida depois de centros de corte na Índia e Antuérpia se terem apressado a reabastecer-se de provisões que não puderam comprar durante o pior período da pandemia. Ainda assim, as gemas maiores tendem a resistir às flutuações de preços no mercado, dada a sua raridade e ao facto de poucas pessoas no mundo as comprarem.

O Spectacle foi criado a partir de um diamante raro com 207,29 quilates, tendo recebido as notas mais altas dos peritos da GIA Certified Diamonds (D, em termos de cor e clareza; e IF, sem inclusões internas). Além disso, a perfeição do cristal é sublinhada pela forma de corte esmeralda, que coloca grandes exigências à qualidade de um diamante.

"O Spectacle é um verdadeiro milagre da natureza, multifacetado por mão humana. O seu tamanho impressionante combinado com características inigualáveis de cor e pureza e a garantia de origem impecável fazem dele único", comentou Sergey Ivanov, diretor geral do grupo Alrosa, que está presente em Angola através da Sociedade Mineira de Catoca – uma empresa que garante a extração de mais de 75% dos diamantes angolanos.
 

Copyright © 2021 FashionNetwork.com. Todos os direitos reservados.