Tommy Hilfiger e Calvin Klein lançam investigação sobre "abusos" em fábricas na Etiópia

A PVH, a gigante americana da moda proprietária da Tommy Hilfiger e da Calvin Klein, anunciou a abertura de uma investigação interna na sequência da publicação de um relatório independente que denuncia violência verbal e discriminação regular contra os trabalhadores etíopes que fabricam as roupas para as suas marcas, trabalhando por um salário de 12 cêntimos por hora.


A Etiópia não garante um salário mínimo - Calvin Klein

De acordo com o Workers Rights Consortium (WRC), uma organização independente americana que monitoriza as condições de trabalho em fábricas em todo o mundo, os trabalhadores das fábricas de fornecedores da PVH na Etiópia são igualmente forçados a trabalhar horas extra não remuneradas, e o seu pagamento é reduzido se forem surpreendidos a beber água no seu posto de trabalho.
 
Segundo o relatório, os recrutadores de uma fábrica até examinaram a barriga de algumas das candidatas para se certificarem de que não estavam grávidas. "Conduziremos uma investigação completa e tomaremos as medidas necessárias se as falhas forem constatadas", disse um porta-voz da PVH num comunicado divulgado em resposta às conclusões do WRC.
 
"A PVH leva muito a sério as alegações mencionadas no relatório do WRC, notando, no entanto, que algumas das entrevistas realizadas no âmbito da investigação decorreram há dois anos e que a zona industrial de Awasa e as suas práticas evoluíram desde então." A PVH ajudou a financiar a construção deste polo industrial no sul da Etiópia, um dos doze parques do género no país africano.

À medida que os custos de mão de obra, matérias-primas e impostos aumentam nas fábricas asiáticas, a Etiópia oferece uma alternativa mais barata, atraindo grandes marcas como a cadeia americana Gap ou o grupo sueco H&M.
 
A Etiópia, um dos países mais pobres de África, está a tentar impulsionar a transição da sua economia agrícola para um modelo assente na indústria. Paralelamente, as condições de trabalho e as taxas de remuneração nas cadeias de aprovisionamento das marcas de moda internacionais estão sujeitas a um maior escrutínio.
 
A lei etíope não garante um salário mínimo, mas as empresas que compram no país têm um código de conduta que supostamente previne abusos, segundo o WRC. Nenhum funcionário do Ministério do Trabalho etíope ou do gabinete do primeiro-ministro comentaram estas informações.

A PVH é um dos mais importantes players do vestuário do mundo, tendo gerado uma receita de quase 9,7 mil milhões de dólares (8,6 mil milhões de euros) em 2018. De acordo com o seu site, emprega cerca de 1 milhão de trabalhadores em todo o mundo ao longo da sua cadeia de aprovisionamento. Segundo o seu porta-voz, a confeção de roupa na Etiópia apoia a economia local e promove a criação de empregos.

Um estudo realizado em janeiro na Etiópia pela Wage Indicator Foundation - que reúne dados sobre salários em todo o mundo - revelou que a maioria dos cerca de mil trabalhadores das fábricas de confeção entrevistados ganha menos de 4130 birr (126,96 euros) por mês.
 
"Infelizmente para os trabalhadores do setor do vestuário etíope, existe uma grande lacuna entre as exigências éticas das marcas e a realidade das pessoas que confecionam as suas roupas", lamenta Penelope Kyritsis, pesquisadora do WRC.
 
O relatório do WRC constata também que as violações dos direitos dos trabalhadores são comuns nas fábricas etíopes que fornecem a H&M. "Levamos a sério qualquer alegação de violação da normas de trabalho e continuaremos a assegurar o acompanhamento dos fornecedores e a implementar os nossos programas para melhorar as condições de trabalho e os direitos dos trabalhadores", declarou um porta-voz do grupo H&M.

Traduzido por Estela Ataíde

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