×
Por
Reuters
Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
30 de abr de 2020
Tempo de leitura
8 Minutos
Partilhar
Fazer download
Fazer download do artigo
Imprimir
Clique aqui para imprimir
Text size
aA+ aA-

Vendas de moda caem a nível mundial e grandes marcas deixam mão-de-obra asiática no limbo

Por
Reuters
Traduzido por
Helena OSORIO
Publicado em
30 de abr de 2020

A subsistência de milhões de trabalhadores do vestuário made in Asia está em perigo, após cancelamento de produção de coleções, por parte das marcas de moda de topo. Sindicatos, investigadores e ativistas advertem para a gravidade do surto do coronavírus COVID-19, o que poderá levar a um retrocesso dos direitos laborais, numa indústria frequentemente acusada de abusos.

Com lojas globalmente fechadas e vendas em queda, muitos retalhistas ocidentais cancelaram encomendas ou exigiram descontos aos fornecedores em países como o Camboja e o Bangladesh, levando a que muitos trabalhadores ficassem sem salário ou fossem despedidos.

Estima-se que 60 milhões de trabalhadores de vestuário poderão ter dificuldade em resistir à crise, a menos que mais marcas assumam a responsabilidade de os proteger, de acordo com vários membros e observadores da indústria da moda.

Pesos pesados como a Adidas, a H&M e a Inditex, proprietária da Zara, prometeram pagar na totalidade todas as encomendas, acabadas ou ainda em produção, disse o Worker Rights Consortium (WRC), que analisou 27 dos principais retalhistas de moda do mundo.


Inditex promete pagar encomendas à Ásia, acabadas ou ainda em produção - Inditex


No entanto, o grupo de controlo com sede nos EUA, constatou que cerca de metade das empresas não tinha assumido tais compromissos para honrar os seus contratos.

Vários retalhistas, incluindo Asos, C&A, Edinburgh Woollen Mill, Gap e Primark, informaram a Thomson Reuters Foundation que foram obrigados a fazer uma pausa ou a cancelar algumas encomendas, mas que estavam em contacto com os fornecedores, numa tentativa de mitigar o impacto económico.

No entanto, os fabricantes manifestaram a sua frustração com a incapacidade de negociar com os compradores ocidentais, o que estava a causar a perda de postos de trabalho.

"No que diz respeito aos compradores, nunca houve um verdadeiro espaço para negociações", disse um grande fornecedor de vestuário no sul da Índia, que se recusou a ser identificado para proteger o negócio.

Várias marcas inverteram alguns dos cancelamentos deste mês, após o clamor do público, mas não restabeleceram todas as encomendas, enquanto outras pediram descontos, atrasaram os pagamentos, ou deixaram os fornecedores no limbo, disse a assistente de investigação da WRC Penelope Kyritsis.

"Qualquer um que não respeite o cumprimento integral, face às suas encomendas, é irresponsável para com os fornecedores", afirmou.

A WRC estimava que encomendas superiores a 24 mil milhões de dólares tinham sido canceladas, mas disse que este valor era agora provavelmente inferior, dado que algumas marcas recuaram. As encomendas de vestuário caíram quase um terço, afirmou a Federação Internacional dos Fabricantes de Têxteis.

"O coronavirus, tal como o desastre do Rana Plaza, expôs que as cadeias de fornecimento beneficiam as empresas à custa dos fornecedores e, por sua vez, dos trabalhadores", disse Kyritsis à Fundação Thomson Reuters.


Grandes marcas globais, como a Inditex, abandonam a Ásia - Inditex


A catástrofe de 2013 no Bangladesh, que matou 1.135 trabalhadores do vestuário, desencadeou esforços globais para melhorar as condições e os direitos laborais, mas os especialistas estão divididos quanto ao ritmo e ao âmbito das reformas.

Alguns observadores da indústria acreditam que a atenção gerada pelo COVID-19 poderia dar um novo impulso à limpeza das cadeias de abastecimento, mas outros receiam que as consequências negativas possam minar os recentes ganhos para os trabalhadores.

Reputações em risco

As receitas do sector do vestuário, no valor de 2,5 biliões de dólares, poderão diminuir 30% em 2020, confirmou um relatório recente dos consultores de gestão McKinsey, alertando que as empresas de moda poderão ser as mais duramente atingidas.

As marcas de vestuário, sindicatos e organizações patronais anunciaram, a semana passada, o grupo de trabalho, convocado pelas Nações Unidas, para ajudar os fabricantes a pagar os salários e a sobreviver à crise, garantindo ao mesmo tempo o acesso dos trabalhadores aos cuidados de saúde e ao bem-estar.

No entanto, alguns dos retalhistas que apoiam a iniciativa não cumpriram o seu objectivo de garantir que os fornecedores sejam pagos por todas as encomendas acabadas e em curso, de acordo com a WRC.

"Vemos marcas que estão a dar prioridade às relações públicas ganharem em relação ao cumprimento efectivo dos seus contratos", afirmou Fiona Gooch, conselheira política sénior do grupo de defesa Traidcraft Exchange.

"Os retalhistas estão a utilizar a doença COVID-19 para justificarem mais riscos nos fornecedores ou exigir descontos. Alguns estão a agir como bandidos", disse Fiona Gooch, antecipando o Dia Internacional do Trabalhador (ou Dia do Trabalho) a 1 de maio. "Mas qualquer mau comportamento agora, pode atingir a sua reputação".

Empresas justas e transparentes, quanto aos direitos dos trabalhadores durante a crise, poderiam atrair investidores mais éticos para os quais a questão é cada vez mais importante - atestam especialistas em investimento, à Fundação Thomson Reuters.

Um grupo de 286 investidores, representando mais de 8,2 biliões de dólares em ativos este mês, instigou as empresas a manterem, tanto quanto possível, as relações com os fornecedores e a protegerem os trabalhadores nas suas cadeias de abastecimento.


EWM exigiu descontos até 70%, a fornecedores do Bangladesh, e de 50% na Índia - Jaeger


Descontos e cancelamentos

Dois fornecedores do Bangladesh, falando sob condição de anonimato, afirmaram que alguns retalhistas, como a Edinburgh Woollen Mill (EWM), com sede na Grã-Bretanha, tinham exigido descontos até 70%, um valor que levaria os fabricantes a terem prejuízos com essas encomendas.

Um proprietário de uma fábrica na Índia afirmou que a EWM lhe tinha pedido um desconto de 50% e que só pagaria depois de ter vendido 70% das mercadorias.

"A EWM está a ser oportunista, pouco razoável e pouco ética", disse o proprietário da fábrica de confeção, acrescentando que a maioria dos outros compradores ocidentais tinha "agido razoavelmente" quando se tratava de negociar encomendas.

Um porta-voz do Grupo EWM - que possui marcas como a Jane Norman e Peacocks - disse que estava a negociar individualmente com os seus fornecedores para encontrar uma solução "que funcione para eles".

"Não é isto que normalmente desejaríamos fazer, mas as circunstâncias atuais são tais que é uma necessidade", acrescentou.

Muitas marcas utilizaram cláusulas de força maior nos contratos, citando circunstâncias extraordinárias e imprevistas para cancelar encomendas, mas os juristas afirmaram não ser claro se o vírus, ao contrário de uma guerra, ou de uma catástrofe natural, estava abrangido por esses artigos.

A International Organization of Employers (IOE) - a maior rede mundial do sector privado - afirmou que as marcas tinham, em geral, agido de forma responsável nas negociações com os fornecedores.

"Todas as marcas e compradores estão sob pressão... Foram estabelecidos acordos flexíveis e já estão a funcionar em certa medida", disse o secretário-geral da IOE, Roberto Suárez Santos. "Ninguém pode viver uma situação totalmente feliz".


Secretário-geral da IOE defende que ninguém pode viver uma situação totalmente feliz no momento do surto de COVID-19 - AFP/Archives


Direitos temidos no recuar

É provável que os trabalhadores do sector do vestuário que são despedidos se virem para empregos de exploração, onde correm o risco de se tornarem vítimas de trabalhos forçados e podem pôr os seus filhos a trabalhar para fazer face à perda de rendimentos - como alertou, esta semana, um relatório da consultora de risco Verisk Maplecroft.

Em nações como Myanmar, as fábricas despediram membros de sindicatos, citando uma queda nas encomendas, mas mantiveram os trabalhadores não sindicalizados, segundo ativistas que receiam que o vírus possa também provocar uma erosão dos direitos que poderá passar despercebida.

"Temos de garantir que os direitos e as condições dos trabalhadores não sejam protelados devido à crise", afirmou Aruna Kashyap, conselheira superior da divisão dos direitos das mulheres da Human Rights Watch, que também apelou a que a saúde dos trabalhadores seja tida em conta.

Com a maioria das fábricas ainda a funcionar no Camboja e centenas a reabrir esta semana no Bangladesh, vários defensores dos trabalhadores afirmaram estar preocupados com a falta de distanciamento social e de higiene.

As costureiras cambojanas afirmaram temer pela sua saúde no trabalho, mas tinham famílias para alimentar, enquanto uma fonte do Ministério do Trabalho do Bangladesh afirmou que as cerca de 500 fábricas reabertas não conseguiriam implementar o distanciamento social para os trabalhadores.


H&M conta com cerca de 800 fornecedores independentes, maioritariamente na Ásia - H&M/GMB Akash


A promoção de locais de trabalho seguros é um dos objetivos do grupo de trabalho apoiado pela ONU, que instigou os doadores, as instituições financeiras e os governos a acelerarem o acesso ao crédito, aos subsídios de desemprego e ao apoio ao rendimento, entre outras medidas.

Os ativistas apelaram a que os regimes de segurança social e de assistência social nos países produtores de vestuário sejam parcialmente financiados por marcas e querem que a regulamentação nos países ocidentais obrigue as empresas a pôrem termo às práticas comerciais desleais, à exploração laboral e à escravatura moderna.

No entanto, de acordo com Jenny Holdcroft da IndustriALL, um sindicato global de trabalhadores com 50 milhões de membros, a situação dos trabalhadores do vestuário e as ações das marcas em resultado da crise de COVID-19 podem não ser suficientes para criar cadeias de abastecimento mais justas.

Portugal teme também os dias de crise - com o desconfinamento já a partir de 2 de maio -, e mesmo estando hoje a indústria portuguesa de vestuário associada à qualidade e à fiabilidade, com uma presença cada vez mais forte no panorama nacional e internacional. 

Segundo a ANIVEC - Associação Nacional das Indústrias de Vestuário, Confeção e Moda, Portugal está na linha da frente no que diz respeito à proteção social dos trabalhadores e da preservação do meio ambiente. E, é na indústria portuguesa que os grandes players internacionais da moda encontram as melhores soluções de vestuário, confirma a associação.

"A história da indústria do vestuário não mostrou ser muito provável uma mudança", frisou ainda Jenny Holdcroft, secretária-geral adjunta do IndustriALL.

"A dinâmica do poder da indústria permite que as marcas se safem com um comportamento auto-centrado. Precisamos de elevar os padrões em todo o sector... E, impedir que os consumidores de baixos rendimentos façam negócios".

A Fundação Thomson Reuters está em parceria com a Fundação Laudes, por sua vez afiliada à retalhista C&A.
 

© Thomson Reuters 2021 Todos os direitos reservados.